Anti-semitismo no Le Monde e mais além
Por:Tom Gross

Um tribunal francês considerou culpados de “difamação racista” contra Israel e contra o povo judeu três escritores do Le Monde, e também o editor do jornal. Numa decisão inédita, o tribunal de apelações de Versalhes julgou que o texto publicado no Le Monde, em 2002, “Israel-Palestina: O câncer”, continha opiniões anti-semitas. Os autores do artigo, Edgar Morin (um conhecido sociólogo), Daniele Sallenave (uma conferencista titular da Universidade de Nanterre) e Sami Nair (um integrante do parlamento europeu), assim como o editor do Le Monde, Jean-Marie Colombani, foram condenados a pagar danos simbólicos de um euro a um grupo de Direitos Humanos e à associação Franco-Israelense. Também foi ordenado ao Le Monde que publicasse uma condenação do artigo, o que ainda está por ser feito.

É encorajador ver um tribunal francês julgar que o anti-semitismo não deve ter lugar na mídia – mesmo quando esse anti-semitismo vem mascarado como uma análise sobre o conflito árabe-israelense. A sentença esclarece também que esta lei se aplica tanto aos judeus extremistas (o sr. Morin é judeu) quanto aos não-judeus. A liberdade de imprensa é um valor que deve ser valorizado, mas não explorado nem abusado.

De um modo geral, os países europeus têm leis estritas contra esse tipo de abuso e a grande mídia européia em geral é bastante efetiva ao exercer a autocensura. Jornalistas responsáveis evitam, incansavelmente, caracterizações difamatórias de grupos inteiros, sejam estes nacionais ou religiosos. Os jornalistas esforçam-se, por exemplo, para evitar sugerir que os massacres em Darfur, que estão sendo cometidos pelas milícias árabes, representam de alguma forma uma característica árabe. A exceção a isto parece ocorrer à cobertura dos judeus, em especial aos judeus israelenses. Isto resulta especialmente irônico, tendo em vista o fato de que as leis européias são relativamente estritas em relação à liberdade de expressão (comparadas às existentes nos EUA), pois foram redigidas, em grande parte, como uma reação à ocupação nazista do continente.

Mas, apesar disto, nos últimos anos, desde Oslo até Atenas, desde Londres até Madri, nada disto tem sido levado em conta, principalmente na mídia supostamente liberal. “Israel-Palestina: O câncer” foi um texto execrável, repleto de mentiras, difamações e mitos sobre “o povo escolhido”, sobre “o massacre de Jenin”, descrevendo os judeus como “gente arrogante que tem prazer” em “impor a sua lei implacável”, e assim por diante. Mas isso não foi pior do que milhares de novos comentários, reportagens, editoriais, cartas, charges e manchetes publicadas através da Europa, em anos recentes, sob a forma de discussão razoável e legítima das políticas israelenses.

As distorções e as inverdades sobre Israel em alguns órgãos de comunicação britânicos são já relativamente bem conhecidos: o The Guardian equiparou Israel à Al Qaeda; o The Evening Standard igualou Israel ao Taliban; a reportagem feita por Orla Guerin, correspondente da BBC no Oriente Médio, sobre como “os israelenses roubaram o Natal”. O mais notório de todos é o do correspondente do Independent no Oriente Médio, Robert Fisk, especialista em observações como: “Se alguma vez uma espada foi usada numa aliança militar do Leste com o Oeste, os israelenses empunharam essa arma”, o que implica que a Casa Branca caiu em mãos dos judeus: “Os Perles e os Wolfowitzes e os Cohens... [as] mesmas pessoas muito sinistras que pululam em torno de Bush”. As invenções contra Israel em outras partes da Europa são menos conhecidas. Na Espanha, por exemplo, em 4 de junho de 2001 (três dias após a matança de 21 jovens israelenses pela explosão de um suicida palestino em uma discoteca, onde outras 100 pessoas ficaram feridas, tudo isso no meio de um cessar fogo unilateral de Israel), o diário liberal Cambio 16 publicou uma charge do primeiro ministro de Israel, Ariel Sharon (com um nariz adunco que ele não tem), usando um solidéu (que ele não costuma usar), portando uma suástica dentro de uma estrela de Davi sobre o seu peito, e proclamando: “Pelo menos Hitler ensinou-me como invadir um país e exterminar todo inseto vivo”. Na semana anterior, em 23 de maio, El Pais (o “New York Times da Espanha”) publicou uma charge de uma figura alegórica carregando um pequeno bigode preto de forma retangular, voando pelo ar, até o lábio superior de Sharon. Os dizeres eram: “Clio, a musa da História, coloca o bigode de Hitler em Ariel Sharon”. Dois dias mais tarde, em 25 de maio, o diário catalão La Vanguardia publicou uma charge mostrando um prédio imponente, com um cartaz que dizia: “Museu do Holocausto Judeu”, e perto dele, um outro prédio em construção, com um grande cartaz: “Futuro Museu do Holocausto Palestino”. O maior jornal da Grécia, o diário de esquerda Eleftherotypia, tem publicado várias dessas charges. Em abril do ano 2002, na sua capa, sob o título de “Holocausto II”, um soldado israelense foi mostrado como sendo um oficial nazista e um civil palestino como sendo um prisioneiro dos campos de extermínio. Em setembro de 2002, outra charge em Eleftherotypia mostrou um soldado israelense com uma estrela de Davi dizendo a um oficial nazista perto dele: “Arafat não é mais uma pessoa com a qual o Reich possa falar”. O oficial nazista pergunta “Por quê? Ele é judeu?”. Na Itália, em outubro de 2001, o sítio na Internet de um dos jornais mais respeitados, La Repubblica, publicou a notória falsificação anti-semita “Os Protocolos dos Sábios de Sion” em sua totalidade, sem oferecer nenhuma explicação histórica. Sugeriu, entretanto, que o trabalho iria ajudar os leitores a entender o motivo pelo qual os Estados Unidos haviam empreendido ações militares contra o Afeganistão.

Em abril de 2002, o diário liberal italiano La Stampa publicou na primeira página uma charge mostrando um tanque israelense ostentando uma estrela de David, apontando uma arma grande para o menino Jesus, o qual implora: “Certamente eles não desejam me matar novamente, não é verdade?” No Corriere Della Sera, outra charge mostra Jesus preso no seu túmulo, incapaz de ressuscitar porque Ariel Sharon, com um rifle nas mãos, está sentado sobre o sepulcro. O maior jornal matutino da Suécia, Dagens Nyheter, publicou uma caricatura de um judeu hassídico acusando de anti-semitismo qualquer um que criticasse Israel. Outro jornal sueco de destaque, Aftonbladet, usou a manchete “A crucificação de Arafat”. Se as reportagens erradas e as tendenciosidades estivessem limitadas a um ou dois jornais ou programas de televisão em cada país, seria possível tentar minimizar sua importância. Mas não é assim. Rebaixar Israel estende-se até os meios de comunicação locais, os quais usualmente nem cobrem assuntos internacionais, como a reportagem de página dupla intitulada “Judeus em botas negras” em Luton on Sunday. (Luton é uma cidade industrial no sul da Inglaterra). Ou o artigo no principal jornal regional da Noruega, Stavanger Aftenblad, equiparando as ações israelenses contra os terroristas em Ramallah aos ataques ao World Trade Center.
Comparações grotescas e absurdamente falsas como essas não deveriam ocorrer em reportagens ou comentários sobre o Oriente Médio.

Entretanto, embora a decisão do tribunal francês – o primeiro do gênero na Europa – seja um importante marco, ninguém na França parece importar-se com isso. O jornal mais destacado do país foi julgado culpado de anti-semitismo. Seria natural pensar que um veredicto de tal índole ocasionaria uma ampla cobertura que levaria a um debate público e a uma tomada de consciência. Ao invés disto, o que tem havido é um silêncio quase total, e virtualmente nenhuma cobertura da imprensa francesa. E poucos lá fora terão ouvido sobre isso. A Reuters e a France Presse (agências que têm demonstrado um acentuado viés contra Israel) divulgaram textos curtos sobre o julgamento nos seus telegramas em francês, mas escolheram não divulgar isso para os seus serviços de notícias em inglês. A Associated Press não divulgou nada em absoluto. Ao invés de provocar uma reavaliação mais do que tardia sobre a atitude da Europa em relação a Israel, a mídia preferiu ignorar o assunto.

* Tom Gross foi correspondente do The Sunday Telegraph e do The New York Daily News em Jerusalém. Tradução: Mina Seinfeld de Carakushansky.