Somos todos filhos de D-us
Um dia, no Éden, Eva diz a D-us: Estou com um problema! — Qual é o
problema, Eva? —D-us, Você me Criou, me Colocou
neste lindo jardim, com animais maravilhosos e uma serpente
hilariante, mas não estou muito contente. — Por
que? — D-us, estou só. — Bem, neste caso,
Tenho uma solução. Criarei um homem para você. — O
que é um homem? — É uma criatura com
características ruins: vai mentir, se vangloriar;
mas o Criarei para satisfazer suas necessidades. Não
será muito inteligente assim ele também precisará do
seu conselho para pensar bem. — Qual é o truque?
Eva pergunta desconfiada. — Bem, tem uma condição. — Qual é? — Como
Eu Disse, ele será orgulhoso e narcisista. Assim você vai
ter que deixar ele acreditar que Eu o Fiz primeiro. É nosso
pequeno segredo... Você sabe, de mulher para mulher.
Provocações à parte, D-us é “Pãe”,
pai e mãe. Como o judaísmo não é antropomórfico,
D-us não é homem nem mulher, mas abrange o “masculino” E
o atributo feminino Shekhiná, Divina Presença.
Matrilinearidade
A maioria das sociedades antigas, orientais e as chamadas primitivas eram (e
são) matrilineares e matriarcais; isto é, a linhagem, descendência é definida
pela mãe e as mulheres têm o papel central na organização
e controle (autoridade) de seus grupos, tribos ou nações.
Sempre digo que o judaísmo é biblicamente definido como patriarcal
E matriarcal (3 patriarcas: Abrão, Isac e Jacó e 4 matriarcas:
Sara, Rebeca, Lea e Rachel); estas com maioria absoluta (4X3) e relativa, desde
Gênesis 21:12: “D-us diz a Abraão: tudo o que Sara te disser,
escuta a voz dela!”
A concepção errônea do machismo ocidental como herança “judaico-cristã” deriva
ipso facto da sociedade greco-romana: gregos, cuja filosofia não conferia
sequer uma “alma” à mulher e dava direitos senhoriais aos
maridos, tendo melhorado um pouco entre romanos, com o casamento em conjugium
(jugo mútuo), todavia oposta à concepção judaica
da mulher e do casamento.
Isto sem mencionar o papel especial da Ídishe Mame (mãe judia)
que concede, após milênios de aculturação, a última
palavra ao marido: Sim, querida!
E o filho da mãe?
No judaísmo esta expressão não tem caráter pejorativo
nem agressivo. Judeu é definido como “filho de mãe judia
(ou conversa) ou convertido ao judaísmo”.
Muitos, por questões pessoais ou sexistas, alegam que esta definição é “ginecológica”,
deriva de halakhot (encaminhamentos legais, jurisprudências) medievais
e contradiz a linhagem (Cohen, Levi, Israel), determinada pelo pai, que tem
caráter simbólico litúrgico (embora cerimônias,
por exemplo, o Pidion há-ben, resgate do primogênito, dependa
da mãe ser Levita); além, claro, da argumentação “feminista” que
hoje homens e mulheres desempenham os mesmos papéis sociais, etc., que
demonstra um desconhecimento que no judaísmo isto é fato e princípio
essencial, desde os primórdios. O “argumento de bolso inquestionável” de
alguns é que a matrilinearidade não está definida na Torá.
Sorry, periferia, mas está na Torá e no Talmud! Comecemos com
a Halakhah.
Uma Halakhah medieval
Em 1319, aldeias de judeus foram atacadas e houve muitos estupros. Os rabinos
exararam uma Halakhah para não prejudicar a vida judaica dos filhos
nascidos do estupro de uma judia, para que não fossem execrados pela
comunidade e sim, tratados com todos os seus direitos. Sob essa ótica,
a lei mostra-se incrivelmente humana, pois em outras culturas, mãe com
filho de estupro seria certamente expulsa do convívio social. Observando-a
em seu contexto, ela visava a preservar as pessoas e estabilizar uma situação
terrível (como outras posteriores, semelhantes).
Para quem duvida: está na Torá!
A fonte básica da Torá sobre matrilinearidade judaica está em
Deuteronômio 7:3,4: D-us ordena que, em Canaã, os homens não
deverão se casar com mulheres gentias, de outros povos, para que seus
filhos não se desviem, saindo do judaísmo; que o filho de moça
israelita com gentio é judeu; já filho de judeu com gentia, não
o é; o texto diz que será filho “dela”, isto é,
não judeu. Adicionalmente, Levítico 24:10 cita explicitamente
o caso do filho de uma israelita com um egípcio como membro da comunidade
israelita, isto é, judeu. Outra menção, já no Tanakh,
em Esdras 10: 2-3, mais dura, mas sem dar margem a dúvidas, relata que
os judeus que retornaram a Israel do exílio da Babilônia tiveram
que abandonar suas esposas não-judias e seus filhos com elas.
Referências Helenistas
Flávio Josefo chega a se referir a filho de casamentos entre judeus
e gentias como “meio-judeu” . Já Filon de Alexandria chama
filho de judeu com não-judeu de “nothos” (bastardo), independente
do ser o gentio o pai ou a mãe .
Não satisfeito? Veja no Talmud
O texto da Mishnah, tratado Kidushin 3:12, diz que o filho de mãe gentia é como
ela, ou seja, não judeu. O Talmud (Kidushin 68b) questiona como saber
se esta lei se aplica a qualquer não-judeu, já que o versículo
da Torá se refere a povos canaanitas e responde, com base no próprio
verso: “ele desviará teu filho de Mim (D-us)”, implicando
que todos os que o fizerem estão incluídos.
Respostas atuais
O judaísmo reformista norte-americano adotou a política bilinear
em 1983: é judeu se pai ou mãe for judeu, provando que foi criado
como judeu e está engajado em ato público de identificação.
Algumas congregações apresentam mais requerimentos formais, especialmente
se o indivíduo foi criado como cristão. Outros movimentos dentro
da União Mundial pelo Judaísmo Progressista adotam essencialmente
a mesma posição, como o judaísmo liberal na Inglaterra;
judaísmo progressista reconstrucionista nos EUA, Canadá, etc;
judaísmo progressista na Austrália; uma congregação
na Áustria e algumas na Europa Ocidental. Convém observar que
o judaísmo reformista, no Canadá e na Inglaterra, adota uma posição
diferente, mais próxima da Ortodoxia.
Ciência: novas questões
Um religioso observa as mitzvot per se, mesmo o judaísmo não
sendo dogmático, o que não o impede de pesquisar e se desenvolver
cientificamente – muito pelo contrário. Para ilustrar, cito, como
homenagem, um ilustre filho de Israel em seu centenário, Albert Einstein: “A
religião sem ciência é cega; a ciência sem religião é coxa”.
Uma das belezas do judaísmo é a capacidade de responder com leis
milenares a questões novas, resultantes do avanço do tempo e
da tecnologia.
Assim, para concluir, inovações bastante atuais referem-se à maternidade:
a inseminação artificial e a clonagem. Sem entrar em polêmicas éticas,
juridicamente temos uma resposta milenar que, paradoxalmente, é a definição
ortodoxa! Hipoteticamente um ser humano poderá ser gerado em laboratório,
necessitando apenas da mãe... Sou totalmente a favor do método
natural mais tradicional (no mínimo, o mais divertido), tendo sido uma
estéril agraciada com o milagre de um filho e acho que crianças
devem ter pai e mãe educando. Já me antecipando a perguntas ou
pedradas, amparo-me na Mishnah: Honra como pai (genitor) aquele que te criou!
Notas
1 - Antigüidades Judaicas 16:225;18:109, 139, 141; 14:
8-10, 121,403.
2 - Sobre a vida de Moisés 2. 36, 193, 1. 27. 147;
Sobre as virtudes 40. 224.
* Jane Bichmacher de Glasman é escritora, doutora
em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica,
professora adjunta, Fundadora e ex-Diretora do Programa de
Estudos Judaicos e do Setor de Hebraico da UERJ.