De Israel — No próximo dia 18 os grupos opostos à retirada
israelense de Gaza esperam promover uma marcha de dezenas
de milhares. Ela foi anunciada e vem sendo cuidadosamente
preparada. Tudo vem sendo previsto desde água e transportes.
A direção é os assentamentos a serem
desfeitos. O sentido é o de inviabilizar a operação.
Sharon, o primeiro-ministro, reafirma que será iniciada
na segunda quinzena de agosto como prevista. Começará um
dia depois do dia de luto Tishá Be Av. o nono do mês
do calendário judaico de Av. Os praticantes jejuam
24 horas. È um dia de lamentos quando são recordadas
as destruições do Primeiro Templo, o de Salomão,
e o do Segundo, o construído por Herodes. O chamado
Muro das Lamentações é o que restou
do Templo herodiano sendo o lugar mais sagrado do judaísmo
e situado em Jerusalém, na base da Colina do Templo.
Uma tradição diz que nesse mesmo dia, no passado
do povo, aconteceram outros fatos trágicos como a
expulsão da Espanha, em 1492.
Os que se opõem à retirada, vão escalando
as formas de resistir e protestar. O dia 18 é intencionado
como de reação pacífica de tantos que
fará Sharon desistir. Os grupos oposicionistas estão
patrocinando e pagando grande campanha de publicidade nas
mídias que não podem rejeitar as peças
preparadas, pois nada contém de ilegal face as leis
da democracia. A marcha do dia 18 concluiria em dezenas de
milhares se estabelecerem nos pequenos centros da Faixa de
Gaza com um total, no momento, de 8 mil e 500 indivíduos
entre jovens, velhos, crianças. A resistência
tem apoio de intérpretes das leis canônicas
que reconhecem a área a ser desocupada como terra
sagrada. Existem intérpretes que rejeitam tal definição.
Como o judaísmo não tem clero nem um centro,
cada rabino, que se traduz por mestre nas leis, é a
autoridade na sua sinagoga. Há rabinos considerados
mais sábios do que os demais, o que depende do conceito
que adquire, porém, nenhuma palavra deve ser obrigatoriamente
acatada. Existem numerosos rabinos - guias de grupos e seitas.
A resistência inclui pequenos grupos de fundamentalistas
extremistas. É gente dominada pela idéia de
que a defesa das leis sagradas justifica o recurso por todos
os meios. O presidente Katzav, de Israel, cuja principal
autoridade é a de ser símbolo do país
e, portanto, moral, já manifestou o receio de que
tentem matar Sharon considerando o ato como o único
que impediria a operação Gaza. Assassinatos
políticos já aconteceram antes. Existem precedentes.
Sharon não demonstra nenhum receio em seus 78 anos
de idade. E só o afirmo por tê-lo testemunhado
na qualidade de repórter de O Globo sob meu nome,
e do Estadão sob pseudônimo: vi com que coragem
se mantinha de pé, no comando de cruzamento do Canal
de Suez em 1973 sob aterrorizadora barragem de fogo egípcio.
Era o contexto da maior e última grande batalha de
tanques da história das guerras. E não o incluo
nas maiores admirações da minha vida profissional.
Também se tenta derrubá-lo pelo chamado voto
de confiança parlamentar, na verdade, manifestação
de desconfiança no Governo que, para valer a queda,
tem de ser de metade e mais um dos parlamentares. No caso
do Knesset de Israel, 61 votos. A perda da confiança
do Parlamento equivale a rejeição pelas maiorias
dos cidadãos, pois a eles representam os parlamentares.
No presidencialismo é o impeachment, o impedimento
do presidente.
Sharon tem derrotado todas as tentativas de afastarem-no
por meios políticos até agora.
Mas ainda faltam muitos dias até a retirada de Gaza.
As forças de segurança, as policiais, e as
armadas, - exército, marinha e aviação
- deverão destacar o equivalente a cinco elementos
para cada um dos colonos. E toda a região será qualificada
de zona militar. Esta última qualidade pode ser antecipada,
se anuncia, caso a marcha do dia 18 justifique. Também
foram prevenidos os palestinos de que devem impor total e
absoluto cessar fogo na retirada. O atual primeiro-ministro
israelense anunciou em que havendo ataques palestinos na
operação retirada, a resposta será imediata
e da mais extrema violência. E poderá prejudicar
ou mesmo inviabilizar todo o esforço que se faz.
Pelo que se depreende das declarações do governo,
a queda de Sharon por voto do Parlamento não impedirá a
retirada, pois o primeiro-ministro permanece no poder até a
realização de eleições que serão
gerais, quando o Parlamento é dissolvido. Só ações
palestinas poderiam ter como conseqüência a suspensão
da retirada. Ou se ocorrer crise política em virtude
de ação de extremistas contra a pessoa física
do chefe de Governo.
* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS
e do Último Segundo/IG em Israel. A publicação
desta coluna tem a autorização do autor.