São poucos os alemães homenageados no Memorial
do Yad Vashem — o Museu do Holocausto, de Jerusalém.
O oficial do exército alemão Karl Plagge foi
considerado "melhor que Oskar Schindler" por salvar
vidas de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. No dia
18/4, o Comitê Israelense de Comemoração
do Holocausto lhe concederá uma de suas mais altas
honras.
"
Justo entre as Nações" é o título
que o Comitê Israelense de Comemoração
do Holocausto outorga no Instituto Yad Vashem a pessoas que
arriscaram suas próprias vidas para salvar judeus
da morte das mãos dos nazistas.
Até agora, o país concedeu este reconhecimento
a 20.570 pessoas. Só 410 delas eram alemães
e algumas poucas pertenciam ao exército. No dia 18/4,
graças aos esforços de busca histórica
de um menino sobrevivente dos campos de concentração,
o oficial do exército alemão Kart Plagge foi
homenageado com esta distinção póstuma.
Michael Good, um médico clínico do Estado norte-americano
de Connecticut, conta que o major Plagge salvou sua mãe
e sete membros de sua família da morte certa, juntamente
com outras centenas de prisioneiros do gueto judeu de Vilna,
Lituânia.
Reparação 'essencial'
Good conta que uma viagem com seus pais a Vilna em 1999 despertou
sua curiosidade sobre como sua família sobreviveu
a essa época enquanto tantos outros pereceram. Antes
da viagem, Good admite, não tinha muito interesse
em sua própria herança. Mas quando sua mãe
contou-lhe sua experiência no gueto e como foi salva
por um oficial alemão, começou a usar a Internet
para aprofundar-se em seu passado, encontrando outros sobreviventes
que corroboraram a história de sua mãe.
Sobre o major Karl Plagge o que Good descobriu foi o seguinte:
uma semana antes de que o gueto fosse exterminado pelos alemães,
em setembro de 1943, Plagge ordenou que cerca de 1.000 judeus
trabalhassem no campo de manutenção dos veículos
militares que estava fora do gueto, salvando-os assim dos
esquadrões da morte. Tanto a mãe como o avô de
Good se salvaram do extermínio dessa maneira. Good
destacou em várias entrevistas que seu avô "não
era capaz de trocar uma lâmpada elétrica" e
que a tarefa de sua mãe era cerzir as meias para os
soldados. Mas Good enfatiza, Plagge os colocou na lista de "trabalhdores
essenciais" e salvou suas vidas.
Good passou seis anos de buscas à distância
para encontrar outros que foram salvos por Plagge e conseguiu.
Junto a Marianne Viefhaus, uma arquivista da Universidade
de Darmstadt, na Alemanha, pode completar a figura de um
alemão cuja coragem salvou várias centenas
de judeus de una morte certeira.
Último aviso
As últimas recordações que algumas pessoas
salvas têm de Plagge referem-se a poucos dias antes
do Exército Vermelho entrar em Vilna, em julho de
1944. Segundo vários sobreviventes, Plagge fez um último
ato heróico. Na presença de oficiais da SS,
deu aos prisioneiros um aviso camuflado quando lhes disse
que seriam escoltados durante a evacuação pelos
soldados da SS que, "como vocês sabem, é uma
organização dedicada à proteção
de refugiados. Portanto, não há nada com que
preocuparem-se".
Muitos dos presos entenderam isto como um sinal para escapar
ou esconderem-se, salvando assim as suas vidas.
William Begell, um sobrevivente que tinha então só 17
anos, foi entrevistado por Good para o livro que escreveu
intitulado "À procura do Major Plagge".
Begell comentou que entendeu a advertência e pulou
por uma janela para escapar dos nazistas.
Good disse que quis obter a distinção do Yad
Vashem para Plagge depois que averiguou que o alemão
não tinha familiares aos quais ele pudesse agradecer
pessoalmente. Contou ao jornal inglês The Guardian
que durante a viagem a Vilna, sua mãe agitava sua
bengala e dizia "Ele era melhor que Schindler".
Mesmo assim os esforços de Good para que Plagge fosse
reconhecido "Justo entre as Nações" encontraram
resistência no princípio. O Yad Vashem não
aceitava que Plagge tivesse arriscado sua vida ou carreira,
pois o exército alemão tinha aprovado o uso
do trabalho dos prisioneiros judeus para apoiar o esforço
de guerra. Mas em sua terceira tentativa, e reunindo ainda
mais material que apoiava sua teoria, conseguiu seu objetivo.
Plagge foi acusado depois da guerra, como milhares de alemães.
As transcrições do julgamento mostram que os
primeiros prisioneiros e subordinados testemunharam a seu
favor, mas ele insistiu em ser classificado como cúmplice.
Plagge morreu em 1957 em sua cidade natal de Darmstadt, aos
59 anos. Depois da guerra, se dizia que carregava a culpa
de não haver salvado das mãos dos nazistas
mais pessoas.
Na cerimônia do dia 18/4 em Israel, o nome de Plagge
foi inscrito numa parede, não distante das árvores
que homenageiam Oskar Schindler, Raoul Wallenberg e outros
que arriscaram suas "vidas, liberdade ou segurança" para
salvar os judeus. Michael Good e sua mãe estiveram
lá para contemplar isso.