Ao final de seu notável livro, "Uma Breve História
do Tempo”, Stephen Hawking escreveu uma das frases
mais famosas da atualidade. Se apenas pudéssemos descobrir
uma teoria completa das forças que governam o Universo "seria
o supremo triunfo da razão humana - pois então
conheceríamos a mente de D-us”. O Professor
Hawking é um cientista que dispensa apresentações.
Porém, até ele poderia admitir que não é o
maior teólogo do mundo.
Li recentemente uma observação muito mais profunda
de uma mãe com filhos pequenos. "Desde que me
tornei mãe" — disse ela — "descobri
que posso entender D-us muito melhor. Agora sei o que é criar
algo que você não pode controlar!" Que
maravilhosa percepção, e como é verdadeira.
A maioria das pessoas sabe que a Bíblia Hebraica começa
com a mais famosa narrativa da Criação que
jamais foi escrita: A Torá não é um
livro do homem sobre D-us. É o Livro de D-us sobre
a humanidade
"
No princípio D-us criou..." Mesmo atualmente,
três mil anos depois, é uma passagem de poder
sem igual, desde que, é claro, lembremo-nos de que é um
poema, cuidadosamente construído como tal, e não
uma teoria científica.
O que muitas vezes não percebemos — na verdade
não consigo lembrar-me de que alguém jamais
escreveu sobre isso — é que toda a história
da Criação do Universo é feita com apenas
34 versículos. Daí em diante a Torá volta
sua atenção à humanidade. Isso é estranho,
realmente intrigante.
O antigo mundo mitológico, como a ciência de
hoje, era profundamente absorvido pela cosmologia, a questão
de como o universo foi criado. Fascinou os mesopotâmios,
que escreveram pitorescos mitos sobre a criação
onde Marduk, o jovem deus, assassinou Ti'amat, deusa do mar,
e lançou os alicerces do céu e da terra sobre
os despojos de seu corpo dividido. A cosmologia científica
de hoje é menos dramática, mas não menos
distante da vida de todos os dias.
Em contraste, a Torá menciona rapidamente a Criação
em apenas um capítulo, e então volta-se para
Adão e Eva, Caim, Abel, solidão, relacionamentos,
a situação humana. Isso nos conta um fato muito
interessante. A Torá não é um livro
do homem sobre D-us. É o Livro de D-us sobre a humanidade.
Isso me leva de volta à jovem mãe que estava
tão gloriosamente certa. A Torá não
chama D-us de grande cientista. Chama-o de "Pai".
Isaías diz, em nome de D-us: "Assim como aquele
que é confortado pela mãe, assim Eu o confortarei”.
D-us é um Pai, e aproximamo-nos de D-us quando nos
tornamos pais. O milagre da Criação do ponto
de vista da fé não trata de mecânica
quântica. Trata de trazer vida nova a este mundo.
É
difícil ser pai. Assim pensa a maioria de nós,
e assim pensa D-us. Temos de estar presentes constantemente
quando as crianças são pequenas, porém
temos que abrir espaço para elas quando crescem. Vez
por outra, elas se rebelam. Isso é parte do processo
de autodescoberta, mas magoa. Temos de lhes dar orientação,
mas também temos de permitir que cometam erros.
D-us é um Pai, e aproximamo-nos de D-us quando nos
tornamos pais. O milagre da Criação do ponto
de vista da fé não trata de mecânica
quântica. Trata de trazer vida nova a este mundo
Nossos filhos são à nossa imagem, mas também
são diferentes de nós, e temos de dar-lhes
espaço para que escrevam sua própria história. É assim
que a Torá descreve o relacionamento de D-us com a
humanidade.
O mundo de hoje valoriza o sucesso, as realizações,
o trabalho, a carreira, mas tem também — mais
que qualquer outra cultura nos últimos 2000 anos — desvalorizado
a paternidade. Isso é um erro.
Ser pai é o maior desafio que jamais enfrentamos,
estressante às vezes, mas extremamente recompensador. É também
o mais perto que podemos chegar da mente de D-us.
* Jonathan Sacks é professor e rabino-chefe da Inglaterra
- http://www.chiefrabbi.org/
Fonte: www.chabad.org.br