O povo criativo?
Por: Fábio Zugman

Escolha uma área do conhecimento humano. Faça uma leitura atenta dos nomes dos autores mais conhecidos e citados. Quantos remetem a raízes judaicas?

Campo após campo, eu costumava ficar impressionado com a quantidade de nomes judeus que encontrava pelo caminho. Resolvi investigar um pouco mais: os judeus, aproximadamente 0,25% da população mundial, constituem 22% das pessoas a receber um Prêmio Nobel entre 1901 e 2004, algo como um em cada cinco. O site jinfo.org compilou listas dos judeus mais citados na área de artes e humanas a partir de um estudo de Eugene Garfield, que utilizou uma base de dados dos anos 1976 a 1983: os judeus correspondiam a 42% dos 50 autores do século vinte mais citados, e a 21% dos mais citados de todos os tempos.

Um exemplo mais próximo: Um texto de Gilberto Dimenstein da Folha de São Paulo apontava uma pesquisa do professor Marcelo Paixão da UFRJ em que os judeus brasileiros aparecem com um nível de renda, escolaridade e expectativa de vida superior ao da Noruega, o país de maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo. Logo abaixo vêm os japoneses. Segundo o artigo os judeus se destacam principalmente na escolaridade.

Qual seria a causa dessa dianteira que os judeus costumam apresentar nesse tipo de pesquisa?
Vamos procurar uma pista em um local e época considerados como um dos auges do desenvolvimento intelectual humano, a Viena do início do século vinte. É lá, que a partir de 1902, um pequeno grupo passou a se reunir às quartas-feiras na casa de um médico: Sigmund Shlomo Freud. Os membros desse grupo incluíam um musicólogo, um crítico musical, um cirurgião do exército, um antigo vidreiro e um editor, entre outros convidados. Uma coisa, porém, tinham em comum: quase todos eram judeus. Submetidos a um certo grau de ostracismo, ainda que inferior a outros pontos da Europa da época, nada mais natural que essas pessoas procurassem e divulgassem suas idéias para quem quisesse ouvi-las e discuti-las, ou seja, outros judeus.

Jacques Attali explica que, proibidos pelos governantes da época de exercer profissões ligadas ao dinheiro, até então usado para conseguir e comprar mais liberdade, os judeus passam a buscar a glória intelectual. A melhor forma de ser aceito é ficar célebre. Viena e Praga (aonde Kafka, por exemplo, morava) despontam como locais onde a vida é um pouco mais tolerável com os intelectuais judeus. Os judeus começam assim a sair das profissões financeiras e participam desse período de brilhantismo intelectual, tomando parte ativa no que depois ficou conhecido como o “Círculo de Viena”.
Tudo bem, isso explica como surgiram os intelectuais judeus modernos, e até sua preponderância nesse período. Mas o que dizer da continuidade desse fenômeno? Como explicar a dianteira que até hoje os judeus parecem manter na área do conhecimento?

Por sorte, não fui o primeiro a fazer essa pergunta.

Silvano Arieti em 1976 estudou as características de uma sociedade que estimula a criatividade. Suas pesquisas o levaram aos judeus. Das quatro pessoas que julgava terem revolucionado o mundo moderno, dois, Freud e Einstein eram judeus e outro, Marx, filho de judeus convertidos. O quarto era Darwin. Cinco características dos judeus modernos seriam especialmente importantes para a criatividade:

- Amor pela educação, tornando fácil a mudança dos livros religiosos para outras disciplinas, e facilitando a entrada e participação dos judeus na sociedade em geral;

- Pouco preconceito à educação e carreiras femininas;

- Os séculos de perseguição causaram nos judeus um desejo de atingir a excelência, em parte como um caminho para uma maior segurança;

- Por serem sensíveis às causas sociais, tendiam a ser a favor de inovações e reformas sociais;

- Grande interação com pessoas de diferentes origens, incluindo grande número de relações internacionais devido às migrações.

Mais recentemente, o pesquisador Dean Keith Simonton ressaltou o papel da Marginalidade na criatividade. Na Inglaterra, muitos cientistas conhecidos, como John Dalton e Michael Faraday não pertenciam à Igreja Anglicana, mas sim a alguma fé dissidente. Nos EUA, uma pesquisa com indivíduos eminentes revelou que 19% eram da primeira ou segunda geração de imigrantes. A mudança de cultura, a que os judeus são acostumados, é vista como uma alavanca da criatividade. Os judeus ocidentais também possuem uma grande taxa de bilingüismo, outro fator que favorece a criatividade.

A lista continua: a marginalidade também pode explicar a alta taxa de órfãos e traumas de infância entre indivíduos eminentes, e até a suposta relação entre psicopatologia e genialidade. Todos esses fatores, incluindo ser judeu em uma sociedade maior, contribuem para que o indivíduo mantenha uma “visão de fora”. Se é difícil encontrar consenso entre as pesquisas sobre o que leva a uma maior criatividade, esse fator, a capacidade de olhar situações sem estar completamente mergulhado no contexto, é uma dessas raras ocasiões.

Agora os resultados das pesquisas não causam tanto espanto. O economista Joseph Schumpeter colocava a inovação como a grande responsável pelo crescimento econômico. O objetivo de maior aceitação e qualidade de vida através do conhecimento, muito depois de esquecido, continua sendo alcançado.
Bom saber que em uma época em que só se falam das desvantagens de fazer parte de uma minoria, existe o lado bom.

Referências: Attali, Jacques. Os judeus, o dinheiro e o mundo. Futura, 2003; Arieti, Silvano. Creativity - the Magic Synthesis, Basic Books, Inc. Publishers, New York, 1976; Dimenstein, Gilberto. Judeus e japoneses são mais inteligentes? http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/colunas/gd250405.htm; The Jewish Contribution to World Civilization http://www.jinfo.org/; Simonton, D. K. A Origem do Gênio. Rio de Janeiro: Editora Record, 2002.

*Fábio Zugman é professor do curso de administração da Universidade Federal do Paraná/UFPR e autor do livro “Administração para Profissionais Liberais” (Negócio editora/Elsevier, 2005).