Ter sido membro do movimento juvenil judaico foi uma das
experiências mais marcantes e ricas de minha juventude.
Porém passei este período numa era de repressão
e obscuridade. Estávamos nos anos sessenta.
Era uma época de contradições, que criava
polêmicas e juntava em nossos ideais um amálgama
de idéias libertárias e de profundo repúdio
ao regime militar junto com um idealismo juvenil que sonhava
com Israel, almejava se engajar na vida kibutziana e se tornar
um colono. Um misto de socialismo e sionismo que nos levava
a ter certa identidade com a antiga URSS e, ao mesmo tempo,
defender as causas judaicas, tais como o direito de imigração
dos judeus a Israel. Nesses tempos difíceis a cúpula
bolchevique era dirigida por “fósseis” originados
no stalinismo, tais como Leonid Brejnev e o então
já deposto Kruschev (que caíra em 1964). Em
plena ditadura, naquele ano de 1961, realizamos uma passeata
em prol da liberdade de emigração dos judeus,
através das ruas do Bom Retiro. O regime militar permitiu
por se tratar de crítica ao comunismo, mas limitou
a passeata a poucas quadras. Os membros do movimento juvenil
num ato de ousadia e desrespeito, seguiram até o final
da rua José Paulino. Aplaudidos pelos lojistas, ainda
então na sua maioria judeus (hoje seriam coreanos!),
não houve como deter-nos. Os policiais e os agentes
do DOPS optaram por não agir de maneira truculenta,
visto não se tratar de crítica ao regime e
sim de crítica à URSS. Rimos de nossa ousadia
e achamos que éramos verdadeiros heróis, ao
desafiar o sistema. Era a época do “ame-o ou
deixe-o”, lema traduzido do inglês e que se relacionava
aos refratários à guerra do Vietnã.
No Dror, éramos alheios à realidade: a nossa
utopia era o kibutz; o nosso anseio democrático era
Israel. Nada fizemos contra o sistema e nunca nos opusemos
de fato ao regime militar. Fechados na nossa sede social
(snif), vivíamos alheios a tudo e a todos, numa auto-suficiência
juvenil e idealista, numa fuga da realidade que nos protegeu
da violência que grassava contra os jovens que ousavam
pensar e contestar.
Na verdade não seria certo dizer que nunca fomos atingidos
pela repressão. Pelo menos três vezes isto ocorreu
de maneira direta, e que quase terminou mal. Numa destas,
ocorrida em janeiro de 1967, fomos detidos na fronteira do
Uruguai, na localidade de Chuí, pois se constatou
que alguns elementos do grupo haviam comprado alguns livros
editados na URSS. Havia obras de Marx, de Engels, e outros,
ao lado de obras do Prêmio Nobel de Literatura, Sokolov,
ou de Boris Pasternak. Fomos interrogados duas vezes: uma
pelo exército, na base do Chuí; e uma outra
em Porto Alegre pelo DEOPS local. Uma experiência exemplar,
de como se confundem jovens sionistas-socialistas, com revolucionários “a
mando de Leonel Brizola”. Eu que nunca gostei do Brizola,
e sempre o achei um demagogo, fiquei admirado e perplexo
com as perguntas dos interrogadores. Um deles me interpelou:
você é comunista? E eu lhe respondi sem vacilar:
se eu pudesse saber o que é isso, poderia tomar uma
posição, mas se não podemos ler os livros
que explicam as idéias, como posso te responder? O
pior de tudo era que estes livros eram vendidos em SP e no
RJ livremente, na Editora Civilização Brasileira.
Na loja que ficava nas imediações da Praça
da República, havia exemplares de todas as obras de
Marx e Engels, editadas em português pelo menos até 1968.
Só foram recolhidas após o AI-5. Fomos vítimas
de nossa ingenuidade e da truculência do regime político.
A outra vez foi pior. Eu estava em Israel em 1968, fazendo
o curso de monitores da OSM, denominado Machon. Em janeiro
de 1969, eu ainda estava no caminho de volta, quando se realizou
um acampamento nas imediações do bairro de
Butantã, muito próximo do Cemitério
Israelita de SP. O local se chamava Educandário. Nas
duas ultimas noites os membros do movimento realizaram um
acampamento nos bosques locais. Eram duas sedes que deviam
construir barracas com lonas, fazer equipamentos de escoteiros,
cozinhar com lenha, preparar banheiros de campanha, montar
uma torre de vigia, seguindo o modelo dos escoteiros. E,
ao final de dois dias, na ultima noite, deviam fazer um jogo
de “roubar a bandeira” do acampamento inimigo.
Nada mais bucólico e juvenil, do que estar em contato
com a natureza e aprender a acampar. E uma dose de emoção
através de um jogo. Mas naquela noite ao iniciar o
jogo, os jovens de idades entre 14 e 18 anos se viram surpreendidos
por um batalhão de choque do DEOPS, que irrompe no
acampamento e aprisionou todo o grupo. Havia uma suspeita
de que estudantes que haviam escapado do congresso da UNE
em Ibiúna, no final de 1968, haviam se infiltrado
na região próxima, estavam fazendo treinamento
de guerrilha. Isso de fato ocorreria no Vale da Ribeira.
Todo mundo foi levado para DEOPS, que se localizava entre
as estações de trem da Sorocabana e da Luz.
Passamos alguns momentos de medo e de profunda apreensão.
Entre os detidos um monitor argentino (apelidado Inki), foi
deportado imediatamente para Buenos Aires, mas saiu ileso.
Che Guevara ainda era vivo e a presença de argentinos
jovens e com barba era motivo de receio. Ao final dos fichamentos
e interrogatórios, todos foram devolvidos vivos e
ilesos. No Dror, passamos um ano com vigilância do
DEOPS na frente e não se discutiu Marx e nem Borochov
por muito tempo.
As contradições não cessaram. Seguíamos
nosso trabalho educativo e nos alienávamos do meio
circundante até onde era possível.
O fato que agora narrarei ocorreu em 1971. Estava ainda na
tnuá (movimento juvenil judaico) Dror. Eu vivia em
São Paulo e estava empregado na Unificada, cumprindo
uma múltipla função de secretário
do Departamento de Juventude e ao mesmo tempo era o vice-presidente
e secretário do Conselho Juvenil Judaico. Fui indicado
para participar, com custeio pleno, num Congresso Latino-Americano
de Juventude Judaica, que se realizaria em paralelo ao Congresso
Judaico Latino-Americano, em Santiago do Chile. Era o primeiro
semestre de 1971. Era meu encontro com o Chile de Allende,
que colocara no poder uma coalizão socialista. Fiquei
emocionado e viajei na maior expectativa. O encontro foi
bom e a cidade de Santiago me deixou embevecido pela liberdade,
pelo debate público entre partidários e opositores
do regime. Podia andar nas ruas até muito tarde, sem
medo de que me pedissem documentos ou me prendessem, por
causa da barba e da “cara de estudante”. Havia
no ar uma certa dose de magia que me fazia viver aquele delicioso
momento, de maneira acrítica. O congresso foi morno
e cumprimos nossa agenda, mas aproveitamos para ir ao teatro
(sem censura) e ler jornais, ver noticiários e sentir
um pouco daquela experiência democrática e socialista.
Os jovens judeus latino-americanos, quase todos sionistas
como eu, sentiam um misto de curiosidade e de identidade
com tudo aquilo. Na noite anterior à nossa volta,
fomos ao teatro, e ao sair, nos deparamos com uma surpresa:
nevava em plena Santiago. De manhã, por causa da neve,
ao chegamos ao aeroporto de Santiago iniciou-se uma longa
espera. Passamos todo o dia por lá. Na falta do que
fazer, passamos a descobrir celebridades. Eu já havia
descoberto a atriz do cinema novo Norma Benguel, no saguão
do nosso hotel, um dia antes da nevada. Estava voltando de
uma filmagem na Ilha de Páscoa. Então convidei
o Enio para irmos falar de novo com ela. Ele disse que havia
gente mais importante no bar do aeroporto. Eu perguntei:
Quem? Ele respondeu: o poeta russo Yevgeni (Eugênio)
Yevtushenko. Eu falei sem titubear: o autor de Babi Yar?
Enio retrucou: o próprio! Explico aos leitores: um
poeta russo da era pós-stalinista (1955 e anos seguintes)
que criticava o regime com poesias e críticas artísticas.
Escreveu o poema Babi Yar, relatando os massacres de dezenas
de milhares de judeus ucranianos, pelos nazistas em 1941.
Criticou a maneira que o governo russo tratara o local, descoberto
apenas uma década depois da guerra. O monumento em
homenagem aos mártires, que foram enterrados em covas
coletivas, após os massacres foi identificado. Os
soviéticos denominaram os mortos como ucranianos e
russos, mesmo se haviam morrido como judeus. O jovem poeta
Yevtushenko considerara isso uma hipocrisia e escrevera o
poema em homenagem aos mortos: judeus. Era um digno crítico
do preconceito e da violência.
Não tive dúvida. Aproximei-me e entabulei conversa
com o poeta. A língua era um espanhol meio estilizado.
E fiz um convite. Entre nós havia um cinegrafista
argentino que ficara em Santiago após sua equipe.
Viera para entrevistar Allende para uma TV de Buenos Aires,
mas o repórter voltara antes da nevasca e ele ficara.
Tinha câmera e filmes virgens e achou legal se pudéssemos
entrevistar o poeta. Um dos nossos amigos judeus argentinos
se propôs a fazer às vezes de entrevistador.
O problema era convencer o poeta a concordar. Sentado no
bar, conversando com uma loira linda e esperando o reinício
dos vôos, não queria mais do que beber sua vodka
e relaxar. Dirijo-me a ele e lhe digo: “Poderia fazer
uma entrevista para a TV Argentina”? Ele disse que
não. Insisti: ele era um digno representante das idéias
progressistas e tinha como missão difundi-las com
sua arte e poesia. Relutou. Eu falei que seria rápido.
Condicionou à apenas quatro breves perguntas. Preparássemos
tudo e o chamassem. Em 15 minutos estávamos lá com
luzes e a câmera. As três primeiras perguntas
foram fáceis. Falavam da realidade latino-americana.
Ele pregou o socialismo, e de maneira maniqueísta
criticou a violência e a miséria do capitalismo
e do Ocidente. Havia preparado a cartilha e sabia décor.
Já não era um crítico do sistema soviético.
Vinha como um embaixador e um defensor da ideologia dominante
na URSS. O pior aconteceu quando nosso repórter improvisado
fez a última pergunta em tom suave e cordial: o que
ele, autor de Babi Yar e defensor dos direitos das minorias
achava das proibições e restrições à imigração
que o governo russo fazia aos judeus que queriam sair da
URSS e ir para Israel?
Os olhos claros do poeta se inflamaram e de sua boca saíram labaredas
de raiva e indignação. Proferiu impropérios ao sionismo
e à propaganda ocidental que inventavam e faziam campanhas anti-soviéticas.
Saiu imediatamente sem olhar para trás. Fiquei perplexo, mas tendo sido
o “mentor” da entrevista, achei por bem aclarar com o poeta que
não havia má-fé e não se tratava de provocação.
Subi atrás dele e encontrei-o ainda tenso. Aproximei-me e pedi para
falar. Disse que não havia intenção de provocar, mas apenas
perguntar sobre sua visão do problema. Ele chamou os judeus de cabrones
(traidores, em espanhol). Me contive e retomei o diálogo. Ele estava
sentado e eu estava de pé, a seu lado. Ao me curvar para dizer alguma
coisa, se soltou de dentro de minha camisa, uma estrela de David. Ela surgiu
como uma mensagem, um sinal de que havia terminado o diálogo. O poeta
mudou seu tom de conversa, me olhou com seus olhos claros e falou: “Entonces
usted también es judio”. Percebi que acabara a possibilidade de
se obter uma aproximação e radicalizei também: “Entonces
usted también es un antisemita”. Dei a volta, e sai depressa das
proximidades. O poeta que Kruschev não conseguira calar emudeceu diante
desta ousada afirmação. Senti que estava diante de um diálogo
de surdos: ele defendia a URSS e eu defendia minha etnia, sua identidade, e
seus direitos de imigração, e de criação de uma
nação própria. Seu papel na História se cumprira,
mas agora ele era apenas um embaixador de um sistema que estava em decadência
e que viria a se desfazer na era Gorbachev.
* Sérgio Feldman é professor adjunto de História Antiga
do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutor
em História pela UFPR.