O dia em que encontrei Yevgeni Yevtuchenko
Por:Sérgio Feldman

Ter sido membro do movimento juvenil judaico foi uma das experiências mais marcantes e ricas de minha juventude. Porém passei este período numa era de repressão e obscuridade. Estávamos nos anos sessenta.

Era uma época de contradições, que criava polêmicas e juntava em nossos ideais um amálgama de idéias libertárias e de profundo repúdio ao regime militar junto com um idealismo juvenil que sonhava com Israel, almejava se engajar na vida kibutziana e se tornar um colono. Um misto de socialismo e sionismo que nos levava a ter certa identidade com a antiga URSS e, ao mesmo tempo, defender as causas judaicas, tais como o direito de imigração dos judeus a Israel. Nesses tempos difíceis a cúpula bolchevique era dirigida por “fósseis” originados no stalinismo, tais como Leonid Brejnev e o então já deposto Kruschev (que caíra em 1964). Em plena ditadura, naquele ano de 1961, realizamos uma passeata em prol da liberdade de emigração dos judeus, através das ruas do Bom Retiro. O regime militar permitiu por se tratar de crítica ao comunismo, mas limitou a passeata a poucas quadras. Os membros do movimento juvenil num ato de ousadia e desrespeito, seguiram até o final da rua José Paulino. Aplaudidos pelos lojistas, ainda então na sua maioria judeus (hoje seriam coreanos!), não houve como deter-nos. Os policiais e os agentes do DOPS optaram por não agir de maneira truculenta, visto não se tratar de crítica ao regime e sim de crítica à URSS. Rimos de nossa ousadia e achamos que éramos verdadeiros heróis, ao desafiar o sistema. Era a época do “ame-o ou deixe-o”, lema traduzido do inglês e que se relacionava aos refratários à guerra do Vietnã.

No Dror, éramos alheios à realidade: a nossa utopia era o kibutz; o nosso anseio democrático era Israel. Nada fizemos contra o sistema e nunca nos opusemos de fato ao regime militar. Fechados na nossa sede social (snif), vivíamos alheios a tudo e a todos, numa auto-suficiência juvenil e idealista, numa fuga da realidade que nos protegeu da violência que grassava contra os jovens que ousavam pensar e contestar.

Na verdade não seria certo dizer que nunca fomos atingidos pela repressão. Pelo menos três vezes isto ocorreu de maneira direta, e que quase terminou mal. Numa destas, ocorrida em janeiro de 1967, fomos detidos na fronteira do Uruguai, na localidade de Chuí, pois se constatou que alguns elementos do grupo haviam comprado alguns livros editados na URSS. Havia obras de Marx, de Engels, e outros, ao lado de obras do Prêmio Nobel de Literatura, Sokolov, ou de Boris Pasternak. Fomos interrogados duas vezes: uma pelo exército, na base do Chuí; e uma outra em Porto Alegre pelo DEOPS local. Uma experiência exemplar, de como se confundem jovens sionistas-socialistas, com revolucionários “a mando de Leonel Brizola”. Eu que nunca gostei do Brizola, e sempre o achei um demagogo, fiquei admirado e perplexo com as perguntas dos interrogadores. Um deles me interpelou: você é comunista? E eu lhe respondi sem vacilar: se eu pudesse saber o que é isso, poderia tomar uma posição, mas se não podemos ler os livros que explicam as idéias, como posso te responder? O pior de tudo era que estes livros eram vendidos em SP e no RJ livremente, na Editora Civilização Brasileira. Na loja que ficava nas imediações da Praça da República, havia exemplares de todas as obras de Marx e Engels, editadas em português pelo menos até 1968. Só foram recolhidas após o AI-5. Fomos vítimas de nossa ingenuidade e da truculência do regime político.

A outra vez foi pior. Eu estava em Israel em 1968, fazendo o curso de monitores da OSM, denominado Machon. Em janeiro de 1969, eu ainda estava no caminho de volta, quando se realizou um acampamento nas imediações do bairro de Butantã, muito próximo do Cemitério Israelita de SP. O local se chamava Educandário. Nas duas ultimas noites os membros do movimento realizaram um acampamento nos bosques locais. Eram duas sedes que deviam construir barracas com lonas, fazer equipamentos de escoteiros, cozinhar com lenha, preparar banheiros de campanha, montar uma torre de vigia, seguindo o modelo dos escoteiros. E, ao final de dois dias, na ultima noite, deviam fazer um jogo de “roubar a bandeira” do acampamento inimigo. Nada mais bucólico e juvenil, do que estar em contato com a natureza e aprender a acampar. E uma dose de emoção através de um jogo. Mas naquela noite ao iniciar o jogo, os jovens de idades entre 14 e 18 anos se viram surpreendidos por um batalhão de choque do DEOPS, que irrompe no acampamento e aprisionou todo o grupo. Havia uma suspeita de que estudantes que haviam escapado do congresso da UNE em Ibiúna, no final de 1968, haviam se infiltrado na região próxima, estavam fazendo treinamento de guerrilha. Isso de fato ocorreria no Vale da Ribeira.

Todo mundo foi levado para DEOPS, que se localizava entre as estações de trem da Sorocabana e da Luz. Passamos alguns momentos de medo e de profunda apreensão. Entre os detidos um monitor argentino (apelidado Inki), foi deportado imediatamente para Buenos Aires, mas saiu ileso. Che Guevara ainda era vivo e a presença de argentinos jovens e com barba era motivo de receio. Ao final dos fichamentos e interrogatórios, todos foram devolvidos vivos e ilesos. No Dror, passamos um ano com vigilância do DEOPS na frente e não se discutiu Marx e nem Borochov por muito tempo.

As contradições não cessaram. Seguíamos nosso trabalho educativo e nos alienávamos do meio circundante até onde era possível.

O fato que agora narrarei ocorreu em 1971. Estava ainda na tnuá (movimento juvenil judaico) Dror. Eu vivia em São Paulo e estava empregado na Unificada, cumprindo uma múltipla função de secretário do Departamento de Juventude e ao mesmo tempo era o vice-presidente e secretário do Conselho Juvenil Judaico. Fui indicado para participar, com custeio pleno, num Congresso Latino-Americano de Juventude Judaica, que se realizaria em paralelo ao Congresso Judaico Latino-Americano, em Santiago do Chile. Era o primeiro semestre de 1971. Era meu encontro com o Chile de Allende, que colocara no poder uma coalizão socialista. Fiquei emocionado e viajei na maior expectativa. O encontro foi bom e a cidade de Santiago me deixou embevecido pela liberdade, pelo debate público entre partidários e opositores do regime. Podia andar nas ruas até muito tarde, sem medo de que me pedissem documentos ou me prendessem, por causa da barba e da “cara de estudante”. Havia no ar uma certa dose de magia que me fazia viver aquele delicioso momento, de maneira acrítica. O congresso foi morno e cumprimos nossa agenda, mas aproveitamos para ir ao teatro (sem censura) e ler jornais, ver noticiários e sentir um pouco daquela experiência democrática e socialista. Os jovens judeus latino-americanos, quase todos sionistas como eu, sentiam um misto de curiosidade e de identidade com tudo aquilo. Na noite anterior à nossa volta, fomos ao teatro, e ao sair, nos deparamos com uma surpresa: nevava em plena Santiago. De manhã, por causa da neve, ao chegamos ao aeroporto de Santiago iniciou-se uma longa espera. Passamos todo o dia por lá. Na falta do que fazer, passamos a descobrir celebridades. Eu já havia descoberto a atriz do cinema novo Norma Benguel, no saguão do nosso hotel, um dia antes da nevada. Estava voltando de uma filmagem na Ilha de Páscoa. Então convidei o Enio para irmos falar de novo com ela. Ele disse que havia gente mais importante no bar do aeroporto. Eu perguntei: Quem? Ele respondeu: o poeta russo Yevgeni (Eugênio) Yevtushenko. Eu falei sem titubear: o autor de Babi Yar? Enio retrucou: o próprio! Explico aos leitores: um poeta russo da era pós-stalinista (1955 e anos seguintes) que criticava o regime com poesias e críticas artísticas. Escreveu o poema Babi Yar, relatando os massacres de dezenas de milhares de judeus ucranianos, pelos nazistas em 1941. Criticou a maneira que o governo russo tratara o local, descoberto apenas uma década depois da guerra. O monumento em homenagem aos mártires, que foram enterrados em covas coletivas, após os massacres foi identificado. Os soviéticos denominaram os mortos como ucranianos e russos, mesmo se haviam morrido como judeus. O jovem poeta Yevtushenko considerara isso uma hipocrisia e escrevera o poema em homenagem aos mortos: judeus. Era um digno crítico do preconceito e da violência.

Não tive dúvida. Aproximei-me e entabulei conversa com o poeta. A língua era um espanhol meio estilizado. E fiz um convite. Entre nós havia um cinegrafista argentino que ficara em Santiago após sua equipe. Viera para entrevistar Allende para uma TV de Buenos Aires, mas o repórter voltara antes da nevasca e ele ficara. Tinha câmera e filmes virgens e achou legal se pudéssemos entrevistar o poeta. Um dos nossos amigos judeus argentinos se propôs a fazer às vezes de entrevistador. O problema era convencer o poeta a concordar. Sentado no bar, conversando com uma loira linda e esperando o reinício dos vôos, não queria mais do que beber sua vodka e relaxar. Dirijo-me a ele e lhe digo: “Poderia fazer uma entrevista para a TV Argentina”? Ele disse que não. Insisti: ele era um digno representante das idéias progressistas e tinha como missão difundi-las com sua arte e poesia. Relutou. Eu falei que seria rápido. Condicionou à apenas quatro breves perguntas. Preparássemos tudo e o chamassem. Em 15 minutos estávamos lá com luzes e a câmera. As três primeiras perguntas foram fáceis. Falavam da realidade latino-americana. Ele pregou o socialismo, e de maneira maniqueísta criticou a violência e a miséria do capitalismo e do Ocidente. Havia preparado a cartilha e sabia décor. Já não era um crítico do sistema soviético. Vinha como um embaixador e um defensor da ideologia dominante na URSS. O pior aconteceu quando nosso repórter improvisado fez a última pergunta em tom suave e cordial: o que ele, autor de Babi Yar e defensor dos direitos das minorias achava das proibições e restrições à imigração que o governo russo fazia aos judeus que queriam sair da URSS e ir para Israel?

Os olhos claros do poeta se inflamaram e de sua boca saíram labaredas de raiva e indignação. Proferiu impropérios ao sionismo e à propaganda ocidental que inventavam e faziam campanhas anti-soviéticas. Saiu imediatamente sem olhar para trás. Fiquei perplexo, mas tendo sido o “mentor” da entrevista, achei por bem aclarar com o poeta que não havia má-fé e não se tratava de provocação. Subi atrás dele e encontrei-o ainda tenso. Aproximei-me e pedi para falar. Disse que não havia intenção de provocar, mas apenas perguntar sobre sua visão do problema. Ele chamou os judeus de cabrones (traidores, em espanhol). Me contive e retomei o diálogo. Ele estava sentado e eu estava de pé, a seu lado. Ao me curvar para dizer alguma coisa, se soltou de dentro de minha camisa, uma estrela de David. Ela surgiu como uma mensagem, um sinal de que havia terminado o diálogo. O poeta mudou seu tom de conversa, me olhou com seus olhos claros e falou: “Entonces usted también es judio”. Percebi que acabara a possibilidade de se obter uma aproximação e radicalizei também: “Entonces usted también es un antisemita”. Dei a volta, e sai depressa das proximidades. O poeta que Kruschev não conseguira calar emudeceu diante desta ousada afirmação. Senti que estava diante de um diálogo de surdos: ele defendia a URSS e eu defendia minha etnia, sua identidade, e seus direitos de imigração, e de criação de uma nação própria. Seu papel na História se cumprira, mas agora ele era apenas um embaixador de um sistema que estava em decadência e que viria a se desfazer na era Gorbachev.

* Sérgio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutor em História pela UFPR.