A imagem pública de Einstein fica incompleta sem
sua atividade política. Parte dessa atividade é relativamente
conhecida — em especial a carta ao presidente Roosevelt,
em 1939, pedindo que os EUA se adiantassem na construção
da bomba atômica, antes que Hitler o fizesse. Menos
conhecido é o seu papel na época em que a sociedade
americana foi tomada pela histeria anticomunista do macartismo
.
O substantivo histeria não é casual: parcelas
influentes das elites americanas foram tomadas por um espírito
irracional na época, especialmente depois que a União
Soviética detonou sua primeira bomba atômica,
em 1949. O alvo da histeria era o próprio cidadão
americano, posto sob suspeita de estar colaborando com o
inimigo soviético. Muitos perderam o emprego, outros
se exilaram. O casal Julius e Ethel Rosenberg foi condenado à cadeira
elétrica em 1953, sob acusação de ter
revelado aos russos o segredo da bomba.
O apelo de Einstein para a construção da bomba
atômica tem sido objeto de controvérsia. Afinal,
ele foi contra a 1ª Guerra e manteve uma posição
pacifista ao longo de toda a década de 1920. Como
entender que ele tenha adotado uma posição
de conseqüências tão trágicas para
a história?
A carta não pode, entretanto, ser julgada com os olhos
de hoje. Einstein abandonou o pacifismo depois da ascensão
do nazismo na Europa e sustentou que as nações
democráticas deviam se preparar para a eventualidade
da agressão nazista. Os físicos sabiam que,
depois da descoberta da fissão nuclear, a Alemanha
poderia ser a primeira a construir a bomba.
Quanto ao macartismo, a história desse período
nos EUA é também a história da resistência
ao ambiente político dominante, e aqui Einstein desempenhou
um papel significativo. Procurado por William Frauenglass,
um professor de inglês que havia sido demitido após
ter se recusado a comparecer perante a comissão de
caça aos comunistas presidida pelo senador Joseph
McCarthy, Einstein enviou-lhe uma carta na qual sugeria o
caminho da não-cooperação, adotado por
Gandhi, na Índia, contra os britânicos.
A carta afirmava que "todo intelectual intimado por
um desses comitês deveria se recusar a testemunhar,
isto é, ele deve estar preparado para a prisão
e para a ruína econômica, em suma, para o sacrifício
de seu bem-estar pessoal, no interesse do bem-estar cultural
do país". Einstein concluiu a carta afirmando
que ela não precisava ser considerada "confidencial".
Publicada no jornal "The New York Times", a carta
se transformou num símbolo da resistência ao
macartismo.
Einstein foi também solidário com o físico
David Bohm, que, perseguido pelo macartismo, se exilou no
Brasil. Escreveu para professores da USP e para Getúlio
Vargas. Com o apoio de Einstein e dos brasileiros, Bohm trabalhou
na USP por mais de três anos.
Einstein também adotou posições públicas
contra o racismo. Ele foi solidário com o historiador
W. E. B. Du Bois e manteve uma duradoura amizade com o atleta,
cantor e ativista Paul Robeson, negros e vítimas de
perseguição.
Os biógrafos de Einstein subestimaram essa história,
que só foi resgatada recentemente, no livro "The
Einstein File", escrito pelo jornalista Fred Jerome
com base no dossiê do FBI sobre o físico.
O dossiê revela que Einstein tinha inimigos nos EUA,
antes mesmo de emigrar para o país, e que o todo-poderoso
chefe do FBI, Edgar Hoover, planejou, sem sucesso, desencadear
um processo para expulsá-lo dos Estados Unidos, acusando-o
de espionagem para os soviéticos. O dossiê,
de acesso público (foia.fbi.gov/foiaindex/einstein.htm) é o
resultado desse plano.
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Olival Freire Jr. é pesquisador do Instituto Dibner
para a História da Ciência, no MIT (Estados
Unidos), e da Universidade Federal da Bahia. Publicado na
Folha de S.Paulo em 5/6/2005