O Shuk – Mahané Yehuda
Antonio Carlos Coelho *
Não lembro o nome do filme. Lembro que se tratava de
um homem que escrevia guias de turismo. Era um americano. Recomendava
que o viajante procurasse um McDonald’s nas cidades por
onde passasse para não se submeter aos sabores estranhos.
Nada contra o McDonald’s, mas não posso imaginar
visitar um país sem conhecer o sabor das suas comidas.
A comida, para mim, é tão importante quanto os
museus, as ruas, as lojas e o contato com o povo em seu cotidiano.
Quando viajo gosto de andar pelas ruas, pegar ônibus, metrôs.
Gosto de sentar numa mesa de bar e pedir o mais comum. Os grupos
de turismo organizados não dão muita liberdade
para freqüentar locais onde a maioria da população
freqüenta.
Em Jerusalém há um lugar único, o Mahané Yehuda.
Entre as ruas Jaffa e Agripas, estão as galerias do genuíno
mercado de frutas, verduras, especiarias e artigos de uso doméstico,
que, pela sua originalidade, mereceria ser um dos locais de atração
turística assim como tantos outros na cidade.
O shuk, como é chamado, tem alma. As formas de expor e
negociar as mercadorias são únicas. Lembra os mercados
de céu aberto que existem no Oriente. O perfume das especiarias
está no ar. A variedade de cores das frutas, verduras,
queijos e doces, de rara beleza, faz a decoração
das galerias superlotadas de pessoas que olham, perguntam, negociam
e comem sempre um pouquinho para experimentar. Aliás,
experimentar, comidas em Israel, é um habito comum. Ninguém
compra sem antes dar uma beliscada, e que beliscada!
As pessoas passam, empurram, implicam umas com as outras quando
se sentem atrapalhadas no seu trajeto. Mas nada acontece. No
Mahané tudo pode, pois assim é Israel. Todo mundo
acha que pode tudo e que sempre tem razão. Os mais humildes
argumentam, outros, nem isso fazem, a razão está com
eles e não a dividem com ninguém. O Mahané traduz
muito do espírito do habitante de Jerusalém e reflete
as diferentes origens dos judeus que se estabeleceram em Israel
no último século.
Visitar o shuk da Rua Jaffa, ouvir os gritos dos vendedores,
sentir o perfume do cardamomo, da zatar, das pimentas, do curry,
comer burekas quentes e ser empurrado pelos mais impacientes, é obrigatório
para o visitante que quer conhecer um pouco mais da alma do povo
de Jerusalém. Visitar Jerusalém não é só rezar
no Muro, comprar camisetas na Ben Yehuda. Tem que se ir ao shuk,
e de preferência, na sexta-feira pela manhã.
* Antonio Carlos Coelho é professor, colaborador do jornal
Visão Judaica e diretor do Instituto Ciência e Fé.
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