Por: Sergio Feldman
O calendário judaico é uma lição de História:
Pessach conta sobre o Êxodo do Egito; Purim sobre os judeus na Diáspora
(Império Persa); Sucot sobre os quarenta anos no deserto; Iom Haatzmaut
sobre a criação do Estado de Israel. Se o povo judeu é denominado
o Povo do Livro, pode também ser considerado, o povo da História.
Durante a longa Dispersão (Galut ou Diáspora) e apesar das
perseguições através das épocas, sobreviveu a
tudo isso e chegou a seu renascimento com a criação do Estado
de Israel (1948). A memória é parte integrante da sua identidade
e parte fundamental de sua continuidade. Se a maioria das datas e celebrações
do calendário judaico tem um contexto histórico, isso demonstra
esta tese.
A Hagadá de Pessach frisa a necessidade de recordar e manter viva a memória
coletiva: vehigadeta lebincha (e contarás a teu filho). E adiante, na
mesma narrativa, o texto frisa com grande veemência: “Em toda geração
deve o homem considerar a si mesmo como se tivesse saído do Egito” (Bechol
dor vador chaiav a Adam....). A história é parte fundamental da
identidade judaica. Tenho sentido a necessidade de propor aos membros da comunidade
de Curitiba, que voltemos a estudar nossa história. Isso diante de certa
agressividade que voltou à tona contra os judeus e contra Israel. Em parte
isso provém da mídia, e se relaciona com a crise do Oriente Médio.
Mas há também uma onda revisionista que surgiu há algumas
décadas e que insiste na tese de que o Holocausto não ocorreu.
Trata-se de uma tentativa de apagar a “História com uma borracha” e
reescrevê-la de outra maneira. Isso não é uma novidade. Já se
fez isso em ditaduras e em democracias. Não é algo específico
contra os judeus. Os stalinistas “apagavam” a presença de
Trotsky nas fotos oficiais do PC soviético. Apesar da democracia os americanos
também apagam certas lembranças. Isso é só um exemplo
e não é exclusivamente contra algum grupo ou facção.
São os “assassinos da memória”.
Dei-me conta que o silêncio, por vezes é uma forma de consentimento.
Calar-se é aceitar; e às vezes nos calamos por pura omissão,
indiferença ou falta de vontade de ler, estudar e falar sobre temas por
vezes desagradáveis. Seríamos cúmplices deste “assassinato”?
Estamos dando um enorme apoio aos revisionistas que tentam apagar a memória
do Holocausto, se não mantivermos a memória deste deprimente período
acesa. Mas como fazê-lo?
Nos anos que trabalhei na comunidade, como diretor de cultura judaica da Escola
Israelita Brasileira Salomão Guelmann tentei estimular certas atitudes
e procurei diversas vezes resgatar a memória comunitária e a memória
do Holocausto. Num certo período eu ainda estava na EIBSG e já trabalhava
na Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), quando recebi a proposta de minha
coordenadora, para que realizasse minha pesquisa acadêmica institucional
sobre a memória judaica. Fiquei bastante receoso, pois já conhecia
as tentativas de criar um projeto de memória judaica realizado por um
grupo de valorosos membros da segunda geração: o denominado Instituto
Cultural Bernardino Schulmann. Projeto este que teve o apoio e a dedicação
de gente do calibre de Sara Schulmann, Célia Galbinsky, Luiz Mazer z”l,
Moysés Bronfman, Juca Zokner e muitos outros de enorme valor pessoal e
de intensa atividade comunitária. Se eles não conseguiram, quem
seria eu, um simples moré (professor), vindo de outras paragens e sem
raízes locais para tocar este projeto? Estimulado pelos meus predecessores
que diziam eu ter o perfil adequado por ser historiador, fui à luta. Fiz
algumas entrevistas, mas senti que para fazer alguma coisa, mesmo pequena, deveria
ter uma estrutura maior: monitores, digitadores, verbas e local para arquivar
este material. Tentei obter patrocínios, mas não consegui. A pesquisa
se encerrou e eu fiquei com muitas entrevistas não processadas e uma enorme
frustração. Escrevi dois artigos sobre os Roite Idn (judeus progressistas),
um sobre a SOCIB e outro sobre sua presença no Brasil. Um destes textos,
eu publiquei nestas páginas. Ambos publiquei em revistas de estudos históricos.
Percebi a falta de interesse de grande parte da liderança comunitária
em tratar da memória e sobretudo do Holocausto. Isso evidencia a maneira
como se permite esquecer a memória. Três de meus entrevistados já faleceram
e apenas um havia autorizado a publicação dos textos de sua entrevista.
Meu projeto terminou menor do que eu acreditava: dois artigos e umas cinco entrevistas
editadas.
Sinto que os revisionistas não precisam mentir e fantasiar que o Holocausto
não existiu. Os judeus às vezes são muito desmemoriados
e às vezes, de propósito, não querem falar de recordações
tristes. Acham que lembrar de genocídio e de pobreza não é agradável.
Não entendem o dever de reler e repetir a Hagadá e a Meguilá de
Ester (Purim). Mas nem tudo são decepções e desinteresse.
Tivemos alguns sucessos notáveis.
Permitam-me relatar uma experiência excepcional que ilustra que nem tudo
está perdido. Em 1993, realizamos pela primeira vez, um evento denominado “Holocausto:
Ser testemunha”. A versão inicial do mesmo foi feita pela Federação
Israelita do Paraná, por iniciativa da então vice-presidente da
FIP, Noemy Rozemblum. Tive a honra de ser convidado para participar. Muita gente
se envolveu e tivemos um publico enorme composto por colegiais de Curitiba. Desde
1994, eu trabalho na Universidade (UTP). Aproveitei a estrutura da exposição
da Federação Israelita realizada em 1993 e reeditei a exposição
original em 1999, pela UTP, fazendo acréscimos e ampliando a exposição
do Instituto Yad Vashem (Museu do Holocausto, de Jerusalém). Tive apoio
de dois membros da comunidade, que ofereceram patrocínios. Um através
de sua empresa e outro como doador anônimo. O sucesso extrapolou o previsto:
fizemos mostras na Biblioteca Pública do Paraná (Curitiba), UTP,
viagens a Cascavel, Cândido Rondon, Assis (SP), Ponta Grossa, etc. A exposição
foi reeditada em diversos locais de Curitiba pelas monitoras (alunas da UTP -
História) que só receberam pagamento pelos estudos iniciais. Várias
apresentações nas escolas públicas de Curitiba se sucederam.
Depois de seis anos de reedições a exposição está se
desfazendo (fisicamente), pois os banners estavam carcomidos de tanto uso. Em
2004, ela aparentemente desapareceu. O fato é que sem dúvida cumpriu
seu papel e valeu o esforço. Mas seguem me ligando e pedindo para levá-la
a escolas e entidades. O interesse pelo tema segue existindo.
A memória do genocídio e do extermínio está se perdendo?
Podemos fazer algo? Muitos sobreviventes já faleceram. Outros estão
sem lembranças claras e lucidez.
Não ajudem aos assassinos da memória!! Este termo é de Pierre
Vidal Naquet, historiador francês que denomina assim os revisionistas que
querem apagar a memória do Holocausto com borracha. Podemos investir mais.
Um exemplo. Temos alunos da UTP e da UFPR que têm interesse em pesquisar
o Holocausto. São poucos, mas são importantes e devem ser estimulados.
Por que não criar fundos de auxilio a graduandos que queiram fazer monografias
de graduação em temas de memória judaica? Trata-se de valores
pequenos: mas é uma forma de se salvar um pouco da memória. Ofereça
uma bolsa de pesquisa.
Apesar da comunidade não ter investido em memória, tivemos um pouco
de sorte, pois nem tudo se perdeu. Em 1997 veio a Curitiba, a Fundação
Survivors of the Shoa, de Spielberg, e entrevistou (gravando em vídeo)
a todos os sobreviventes do Holocausto de Curitiba que aceitaram fazê-lo. “Abençoado” Spielberg.
Um grande número de entrevistas se fez. Há chances de salvarmos
a memória.
Temos boas notícias e uma certa perspectiva. Um ativista bastante conhecido
e empreendedor me convidou para iniciar um projeto de Museu do Holocausto. Em
meados de 2003 fizemos os primeiros contatos e um pré-projeto foi elaborado.
Viajei para Jerusalém e pesquisei, sob orientação do professor
Alberto Milgram (Tito), que viveu sua juventude em Curitiba. No arquivo do Yad
Vashem elaborei uma pesquisa de imagens iconográficas: fotos do acervo
do museu-arquivo. O trabalho me gerou um certo sofrimento, mas a consciência
de que não podemos desistir. Confesso que pouco se sabe e pouco se entende
da tragédia e da violência que sofreram nossos irmãos judeus
durante esse período de violências e crueldades. Convenci-me de
que não podemos desistir deste projeto custe o que custar e demore quanto
demorar.
O projeto está em andamento, mas sem local definido. Deve ser efetivado
de maneira lenta e gradual, mas há garantia de que ocorrerá. Por
isso estou conclamando os membros da Kehilá e os sobreviventes do Holocausto
e seus descendentes para se integrar neste “resgate da memória”.
Os profissionais do projeto são pequenos diante da missão. Pessoalmente
me considero um modesto historiador, diante da maior missão de sua vida.
Preciso da sua ajuda. Como poderiam me ajudar? Cedendo ou emprestando para copiar,
objetos, documentos, fotos e principalmente as entrevistas feitas pelos sobreviventes
do Holocausto à fundação dirigida por Steven Spielberg,
em Curitiba. Se existirem sobreviventes que vivam em Curitiba e tenham ancestrais
entrevistados em outros centros urbanos, também nos interessam. As fitas
seriam copiadas e devolvidas aos seus donos. Os objetos serão guardados
em lugar seguro até a definição do local exato do museu,
que deve ser feita nos próximos meses. Tudo isso depende da ajuda dos
sobreviventes e dos filhos de sobreviventes do Holocausto. Contamos com sua ajuda
para impedir que “os assasssinos da memória” matem “pela
segunda vez”, nossos ancestrais que pereceram “al Kidush HaShem”.
Com emoção e o sentimento de que o silêncio é cumplicidade,
rogo que nos apóiem.
* Sergio Feldman é professor adjunto de História Antiga do
Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutorando
em História pela UFPR.