Visão Judaica - Edição N° 26
:. Os assassinos da memória (Museu do Holocausto em Curitiba) .:


Por: Sergio Feldman

O calendário judaico é uma lição de História: Pessach conta sobre o Êxodo do Egito; Purim sobre os judeus na Diáspora (Império Persa); Sucot sobre os quarenta anos no deserto; Iom Haatzmaut sobre a criação do Estado de Israel. Se o povo judeu é denominado o Povo do Livro, pode também ser considerado, o povo da História. Durante a longa Dispersão (Galut ou Diáspora) e apesar das perseguições através das épocas, sobreviveu a tudo isso e chegou a seu renascimento com a criação do Estado de Israel (1948). A memória é parte integrante da sua identidade e parte fundamental de sua continuidade. Se a maioria das datas e celebrações do calendário judaico tem um contexto histórico, isso demonstra esta tese.
A Hagadá de Pessach frisa a necessidade de recordar e manter viva a memória coletiva: vehigadeta lebincha (e contarás a teu filho). E adiante, na mesma narrativa, o texto frisa com grande veemência: “Em toda geração deve o homem considerar a si mesmo como se tivesse saído do Egito” (Bechol dor vador chaiav a Adam....). A história é parte fundamental da identidade judaica. Tenho sentido a necessidade de propor aos membros da comunidade de Curitiba, que voltemos a estudar nossa história. Isso diante de certa agressividade que voltou à tona contra os judeus e contra Israel. Em parte isso provém da mídia, e se relaciona com a crise do Oriente Médio. Mas há também uma onda revisionista que surgiu há algumas décadas e que insiste na tese de que o Holocausto não ocorreu. Trata-se de uma tentativa de apagar a “História com uma borracha” e reescrevê-la de outra maneira. Isso não é uma novidade. Já se fez isso em ditaduras e em democracias. Não é algo específico contra os judeus. Os stalinistas “apagavam” a presença de Trotsky nas fotos oficiais do PC soviético. Apesar da democracia os americanos também apagam certas lembranças. Isso é só um exemplo e não é exclusivamente contra algum grupo ou facção. São os “assassinos da memória”.
Dei-me conta que o silêncio, por vezes é uma forma de consentimento. Calar-se é aceitar; e às vezes nos calamos por pura omissão, indiferença ou falta de vontade de ler, estudar e falar sobre temas por vezes desagradáveis. Seríamos cúmplices deste “assassinato”? Estamos dando um enorme apoio aos revisionistas que tentam apagar a memória do Holocausto, se não mantivermos a memória deste deprimente período acesa. Mas como fazê-lo?
Nos anos que trabalhei na comunidade, como diretor de cultura judaica da Escola Israelita Brasileira Salomão Guelmann tentei estimular certas atitudes e procurei diversas vezes resgatar a memória comunitária e a memória do Holocausto. Num certo período eu ainda estava na EIBSG e já trabalhava na Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), quando recebi a proposta de minha coordenadora, para que realizasse minha pesquisa acadêmica institucional sobre a memória judaica. Fiquei bastante receoso, pois já conhecia as tentativas de criar um projeto de memória judaica realizado por um grupo de valorosos membros da segunda geração: o denominado Instituto Cultural Bernardino Schulmann. Projeto este que teve o apoio e a dedicação de gente do calibre de Sara Schulmann, Célia Galbinsky, Luiz Mazer z”l, Moysés Bronfman, Juca Zokner e muitos outros de enorme valor pessoal e de intensa atividade comunitária. Se eles não conseguiram, quem seria eu, um simples moré (professor), vindo de outras paragens e sem raízes locais para tocar este projeto? Estimulado pelos meus predecessores que diziam eu ter o perfil adequado por ser historiador, fui à luta. Fiz algumas entrevistas, mas senti que para fazer alguma coisa, mesmo pequena, deveria ter uma estrutura maior: monitores, digitadores, verbas e local para arquivar este material. Tentei obter patrocínios, mas não consegui. A pesquisa se encerrou e eu fiquei com muitas entrevistas não processadas e uma enorme frustração. Escrevi dois artigos sobre os Roite Idn (judeus progressistas), um sobre a SOCIB e outro sobre sua presença no Brasil. Um destes textos, eu publiquei nestas páginas. Ambos publiquei em revistas de estudos históricos. Percebi a falta de interesse de grande parte da liderança comunitária em tratar da memória e sobretudo do Holocausto. Isso evidencia a maneira como se permite esquecer a memória. Três de meus entrevistados já faleceram e apenas um havia autorizado a publicação dos textos de sua entrevista. Meu projeto terminou menor do que eu acreditava: dois artigos e umas cinco entrevistas editadas.
Sinto que os revisionistas não precisam mentir e fantasiar que o Holocausto não existiu. Os judeus às vezes são muito desmemoriados e às vezes, de propósito, não querem falar de recordações tristes. Acham que lembrar de genocídio e de pobreza não é agradável. Não entendem o dever de reler e repetir a Hagadá e a Meguilá de Ester (Purim). Mas nem tudo são decepções e desinteresse. Tivemos alguns sucessos notáveis.
Permitam-me relatar uma experiência excepcional que ilustra que nem tudo está perdido. Em 1993, realizamos pela primeira vez, um evento denominado “Holocausto: Ser testemunha”. A versão inicial do mesmo foi feita pela Federação Israelita do Paraná, por iniciativa da então vice-presidente da FIP, Noemy Rozemblum. Tive a honra de ser convidado para participar. Muita gente se envolveu e tivemos um publico enorme composto por colegiais de Curitiba. Desde 1994, eu trabalho na Universidade (UTP). Aproveitei a estrutura da exposição da Federação Israelita realizada em 1993 e reeditei a exposição original em 1999, pela UTP, fazendo acréscimos e ampliando a exposição do Instituto Yad Vashem (Museu do Holocausto, de Jerusalém). Tive apoio de dois membros da comunidade, que ofereceram patrocínios. Um através de sua empresa e outro como doador anônimo. O sucesso extrapolou o previsto: fizemos mostras na Biblioteca Pública do Paraná (Curitiba), UTP, viagens a Cascavel, Cândido Rondon, Assis (SP), Ponta Grossa, etc. A exposição foi reeditada em diversos locais de Curitiba pelas monitoras (alunas da UTP - História) que só receberam pagamento pelos estudos iniciais. Várias apresentações nas escolas públicas de Curitiba se sucederam. Depois de seis anos de reedições a exposição está se desfazendo (fisicamente), pois os banners estavam carcomidos de tanto uso. Em 2004, ela aparentemente desapareceu. O fato é que sem dúvida cumpriu seu papel e valeu o esforço. Mas seguem me ligando e pedindo para levá-la a escolas e entidades. O interesse pelo tema segue existindo.
A memória do genocídio e do extermínio está se perdendo? Podemos fazer algo? Muitos sobreviventes já faleceram. Outros estão sem lembranças claras e lucidez.
Não ajudem aos assassinos da memória!! Este termo é de Pierre Vidal Naquet, historiador francês que denomina assim os revisionistas que querem apagar a memória do Holocausto com borracha. Podemos investir mais. Um exemplo. Temos alunos da UTP e da UFPR que têm interesse em pesquisar o Holocausto. São poucos, mas são importantes e devem ser estimulados. Por que não criar fundos de auxilio a graduandos que queiram fazer monografias de graduação em temas de memória judaica? Trata-se de valores pequenos: mas é uma forma de se salvar um pouco da memória. Ofereça uma bolsa de pesquisa.
Apesar da comunidade não ter investido em memória, tivemos um pouco de sorte, pois nem tudo se perdeu. Em 1997 veio a Curitiba, a Fundação Survivors of the Shoa, de Spielberg, e entrevistou (gravando em vídeo) a todos os sobreviventes do Holocausto de Curitiba que aceitaram fazê-lo. “Abençoado” Spielberg. Um grande número de entrevistas se fez. Há chances de salvarmos a memória.
Temos boas notícias e uma certa perspectiva. Um ativista bastante conhecido e empreendedor me convidou para iniciar um projeto de Museu do Holocausto. Em meados de 2003 fizemos os primeiros contatos e um pré-projeto foi elaborado. Viajei para Jerusalém e pesquisei, sob orientação do professor Alberto Milgram (Tito), que viveu sua juventude em Curitiba. No arquivo do Yad Vashem elaborei uma pesquisa de imagens iconográficas: fotos do acervo do museu-arquivo. O trabalho me gerou um certo sofrimento, mas a consciência de que não podemos desistir. Confesso que pouco se sabe e pouco se entende da tragédia e da violência que sofreram nossos irmãos judeus durante esse período de violências e crueldades. Convenci-me de que não podemos desistir deste projeto custe o que custar e demore quanto demorar.
O projeto está em andamento, mas sem local definido. Deve ser efetivado de maneira lenta e gradual, mas há garantia de que ocorrerá. Por isso estou conclamando os membros da Kehilá e os sobreviventes do Holocausto e seus descendentes para se integrar neste “resgate da memória”. Os profissionais do projeto são pequenos diante da missão. Pessoalmente me considero um modesto historiador, diante da maior missão de sua vida. Preciso da sua ajuda. Como poderiam me ajudar? Cedendo ou emprestando para copiar, objetos, documentos, fotos e principalmente as entrevistas feitas pelos sobreviventes do Holocausto à fundação dirigida por Steven Spielberg, em Curitiba. Se existirem sobreviventes que vivam em Curitiba e tenham ancestrais entrevistados em outros centros urbanos, também nos interessam. As fitas seriam copiadas e devolvidas aos seus donos. Os objetos serão guardados em lugar seguro até a definição do local exato do museu, que deve ser feita nos próximos meses. Tudo isso depende da ajuda dos sobreviventes e dos filhos de sobreviventes do Holocausto. Contamos com sua ajuda para impedir que “os assasssinos da memória” matem “pela segunda vez”, nossos ancestrais que pereceram “al Kidush HaShem”. Com emoção e o sentimento de que o silêncio é cumplicidade, rogo que nos apóiem.

* Sergio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutorando em História pela UFPR.


 



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