Visão Judaica - Edição N° 26
:. O Papa e a tradição cristã do Ocidente .:


Por: Edda Bergmann

O Papa João Paulo II reclama da nova carta da Comunidade Européia, praticamente o seu novo estatuto. A seu ver está faltando a fundamentação cristã do Continente Europeu, como base de sua civilização, ou seja, da civilização européia.
Mas será que as origens da Europa e de seus povos e populações é cristã? Será que os romanos, os godos e visigodos, os vikings, os indo-europeus, os gregos, os hunos e os bárbaros que invadiram o império romano eram cristãos?
Será que devemos esquecer que a Europa em suas origens tem um emaranhado de tradições religiosas e crenças diversificadas e diferentes nos vários países?
Que foi só Constantino que declarou a religião cristã como oficial do Império Romano, e sua mãe a rainha Helena esteve em Jerusalém para inaugurar a Igreja que hoje leva o seu nome e contém a pedra do Gólgota?
Que o cristianismo muitas vezes foi imposto a ferro e fogo a populações fracas e indefesas, e ao longo dos séculos tem muita responsabilidade nas costas por muitos dos massacres europeus, como a inquisição, por exemplo, que durante 335 anos legislou poderosa e infalível e provocou inúmeras vitimas em terra européia, alcançando inclusive a América, o Brasil e o Peru, por exemplo?
Será que a Europa pode ser definida como um continente cristão hoje, apesar de toda a influência da mentalidade cristã que ainda possui?
Não existe raça pura, toda raça é uma mistura! A Europa hoje de fato não pode apresentar a pureza do cristianismo nas veias de seus habitantes, diga-se o cristianismo, porque o catolicismo ainda seria mais errado.
O Papa está com saudades de um mundo cristão? Com toda a certeza sim. Está!
Talvez os europeus também estejam, provavelmente sim.
Mas isto não chega ao ponto de colocar entre características quantitativas e qualificativas a origem e a tradição cristã dos povos europeus, o que em verdade não correspondia à realidade, a esta realidade intensamente vivida por povos e nações diferenciadas, e seus habitantes mais diferenciados ainda. A Europa é uma mistura de povos e tradições.
Infelizmente para o gênero humano na Europa já se tentou fazer várias limpezas étnicas.
Em nenhum continente do mundo o ser humano foi tão desrespeitado quanto na Europa, que se diz civilizada, coerente e humanamente superior.
Na Europa cristã além de uma inquisição, houve uma Revolução Francesa, um Holocausto, várias e variadas limpezas étnicas e tentativas contínuas de enaltecimento da Raça Pura, de uma pureza ultrajante, estúpida e incoerente para o ser humano pensante, mas que, no entanto perdura através dos tempos e dos milênios.
E ainda alcança povos e governos europeus, neste momento e neste instante, apesar da ONU, dos Direitos Humanos e de todas as milhares de obras escritas a respeito do assunto.
A Europa é na realidade uma mistura de povos, de origens e de religiões diferentes e diferenciadas. Os turcos dominaram recentemente grande parte da Europa durante 400 anos, e os ressentimentos ainda estão presentes.
Os países europeus decidiram fazer dos países americanos, asiáticos e africanos suas colônias, dirigidas a ferro e fogo, e hoje têm em troca populações diferentes e diversificadas em seus próprios países, mal colocadas, mal situadas, mal protegidas e por vezes antagonizadas e antagônicas como inferiores ou deslocadas, refugiadas e mal acomodadas em terra européias.
A Holanda, apesar do tribunal de Haia, acaba de expulsar os refugiados de seu território europeu. E onde está a tradição cristã em tudo isso?
Simplesmente não está!

*Edda Bergmann é vice-presidente Internacional da B´nai B´rith.


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