Por: Edda
Bergmann
O Papa João Paulo II reclama da nova carta da Comunidade
Européia, praticamente o seu novo estatuto. A seu ver
está faltando a fundamentação cristã do
Continente Europeu, como base de sua civilização,
ou seja, da civilização européia.
Mas será que as origens da Europa e de seus povos e populações é cristã?
Será que os romanos, os godos e visigodos, os vikings,
os indo-europeus, os gregos, os hunos e os bárbaros que
invadiram o império romano eram cristãos?
Será que devemos esquecer que a Europa em suas origens
tem um emaranhado de tradições religiosas e crenças
diversificadas e diferentes nos vários países?
Que foi só Constantino que declarou a religião
cristã como oficial do Império Romano, e sua mãe
a rainha Helena esteve em Jerusalém para inaugurar a Igreja
que hoje leva o seu nome e contém a pedra do Gólgota?
Que o cristianismo muitas vezes foi imposto a ferro e fogo a
populações fracas e indefesas, e ao longo dos séculos
tem muita responsabilidade nas costas por muitos dos massacres
europeus, como a inquisição, por exemplo, que durante
335 anos legislou poderosa e infalível e provocou inúmeras
vitimas em terra européia, alcançando inclusive
a América, o Brasil e o Peru, por exemplo?
Será que a Europa pode ser definida como um continente
cristão hoje, apesar de toda a influência da mentalidade
cristã que ainda possui?
Não existe raça pura, toda raça é uma
mistura! A Europa hoje de fato não pode apresentar a pureza
do cristianismo nas veias de seus habitantes, diga-se o cristianismo,
porque o catolicismo ainda seria mais errado.
O Papa está com saudades de um mundo cristão? Com
toda a certeza sim. Está!
Talvez os europeus também estejam, provavelmente sim.
Mas isto não chega ao ponto de colocar entre características
quantitativas e qualificativas a origem e a tradição
cristã dos povos europeus, o que em verdade não
correspondia à realidade, a esta realidade intensamente
vivida por povos e nações diferenciadas, e seus
habitantes mais diferenciados ainda. A Europa é uma mistura
de povos e tradições.
Infelizmente para o gênero humano na Europa já se
tentou fazer várias limpezas étnicas.
Em nenhum continente do mundo o ser humano foi tão desrespeitado
quanto na Europa, que se diz civilizada, coerente e humanamente
superior.
Na Europa cristã além de uma inquisição,
houve uma Revolução Francesa, um Holocausto, várias
e variadas limpezas étnicas e tentativas contínuas
de enaltecimento da Raça Pura, de uma pureza ultrajante,
estúpida e incoerente para o ser humano pensante, mas
que, no entanto perdura através dos tempos e dos milênios.
E ainda alcança povos e governos europeus, neste momento
e neste instante, apesar da ONU, dos Direitos Humanos e de todas
as milhares de obras escritas a respeito do assunto.
A Europa é na realidade uma mistura de povos, de origens
e de religiões diferentes e diferenciadas. Os turcos dominaram
recentemente grande parte da Europa durante 400 anos, e os ressentimentos
ainda estão presentes.
Os países europeus decidiram fazer dos países americanos,
asiáticos e africanos suas colônias, dirigidas a
ferro e fogo, e hoje têm em troca populações
diferentes e diversificadas em seus próprios países,
mal colocadas, mal situadas, mal protegidas e por vezes antagonizadas
e antagônicas como inferiores ou deslocadas, refugiadas
e mal acomodadas em terra européias.
A Holanda, apesar do tribunal de Haia, acaba de expulsar os refugiados
de seu território europeu. E onde está a tradição
cristã em tudo isso?
Simplesmente não está!
*Edda Bergmann é vice-presidente Internacional da B´nai
B´rith.