Visão Judaica - Edição N° 26
:. Herzl – a figura que mudou o curso de nossa história .:


Por: Aharon Erlich

"Se quiseres, não será uma lenda"
Theodor Herzl (1860-1904)

A idéia de Herzl era extremamente simples.
A criação de um Lar Nacional para o Povo Judeu na Terra Histórica de Israel. Para acabar dessa forma com o sofrimento, com as perseguições, nos quase 2000 anos da extensa dispersão dos judeus.
Mas para muitos, essa idéia era irrealizável, completamente despojada da realidade e constituía uma verdadeira loucura. E muitos outros foram os que taxaram Herzl como uma pessoa que havia perdido suas faculdades mentais.
E o que hoje pareceria ser algo tão natural como a existência do Estado de Israel, posicionando-nos cem anos atrás, era uma proposta que parecia que tratava de desafiar as leis da história.
Primeiro Herzl teve que tratar de convencer os seus próprios irmãos. É que eram poucos os judeus que desde o princípio adotaram as idéias de Herzl como próprias. Depois foi necessário que as idéias de Herzl fossem aprovadas em algum registro internacional. E tudo isso o fez Herzl sem abreviar esforços. Contra tudo e contra todos.
E apesar de não ter podido ver concretizado seu projeto em vida, soube que havia posto em marcha uma visão, uma ilusão, uma esperança que iria converter-se em realidade, tal como a expressou em seu diário pessoal.
Suas idéias foram as que mudaram o curso da história do nosso povo. Para todos está muito claro que o sentido de nossa história mudou radicalmente a partir de Herzl. Por isso é que no nosso entendimento, a figura, a importância e o legado de Theodor Herzl, se agigantam com o tempo.

O processo que mudou uma vida
— Meu único crime é ter nascido judeu!
As palavras do recém-degradado capitão Alfred Dreyfus se perderam entre os gritos da multidão:
— Morte ao traidor! ... Morte aos judeus!
O lugar era a França. Corria o ano de 1895.
Encenava-se um novo processo de puro caráter anti-semita. O capitão Alfred Dreyfus, representante dos círculos judeus assimilados da França, era uma vítima a mais da intolerância que não podia admitir a compatibilidade entre ser judeu e ocupar um cargo de importância, neste caso, dentro do exército francês.
Entre os presentes aquele dia na Escola Militar de Paris havia uma pessoa que ficou profundamente impressionada com o que tinha visto. Tratava-se do jovem jornalista e escritor Theodor Herzl e o fato em menção não só mudou sua vida, mas iria mudar também o curso da história do povo judeu nos anos seguintes.
Herzl sentiu a raiz do problema, a tragédia do judeu perseguido, o que despertou nele seu orgulho nacional latente e a partir desse momento se atribuiu a tarefa de encontrar uma solução ao dito problema.

Foram só nove anos
Theodor Herzl morreu aos 44 anos. Suas idéias começaram a amadurecer pouco depois do Processo Dreyfus, em 1895. E a partir de então escreveu vários livros sobre o tema. Reuniu-se com diversas personalidades do mundo judaico e da política internacional.
Foi o iniciador do Movimento Sionista e dos primeiros Congressos Sionistas. Viajou incansavelmente por todo o mundo para encontrar cada vez mais adeptos de suas idéias.
Foram só nove anos. Nove anos de uma obra titânica que hoje em dia e através do tempo, assume uma dimensão maior.

Theodor Herzl - de sua obra "O Estado Judeu"
O pensamento que desenvolveu neste livro é antiqüíssimo: o restabelecimento do Estado Judeu.
O mundo ressoa com o clamor contra os judeus e isto desperta o dito pensamento adormecido.
Antes de tudo é necessário que se tenha bem em conta, em cada ponto de minha exposição, que eu não invento nada. Não invento nem a situação dos judeus, que é o resultado do desenvolvimento histórico, nem os meios para remediá-la.
O plano é, de forma resumida, extremadamente simples e deve sê-lo se se quer que todos o compreendam: “Que nos dêem a soberania sobre um pedaço da superfície terrestre que satisfaça nossas justas necessidades como povo, que de tudo o mais nos encarregaremos nós mesmos”.
“ Por isso acredito que surgirá da terra uma geração de judeus admiráveis. Ressurgirão os macabeus”.
Repitamos as palavras do princípio: os judeus que o quiserem terão seu Estado. No fim iremos viver como homens livres, em nosso próprio solo e iremos morrer tranquilamente em nossa pátria.
O mundo se libera com nossa liberdade, se enriquece com nossa riqueza e se engrandece com nossa grandeza.
E o que experimentaremos ali em nosso benefício, trabalhará poderosa e afortunadamente em proveito de todos os homens.

Theodor Herzl - de seu diário
6 de setembro de 1897. Uma recordação da Basiléia.
Por consideração aos sentimentos religiosos fui ao templo no sábado anterior ao Congresso. O presidente da comunidade me chamou para a leitura da Torá. Marcos de Maran, o cunhado do meu bom amigo Beer, de Paris, me havia ensinado a benção. Mas
subindo os degraus do altar me senti muito agitado como não havia estado antes.
E as poucas palavras hebraicas da benção me causaram uma emoção maior que ao pronunciar meus discursos de abertura e de encerramento do Congresso e ao dirigir os debates.

De Ben Ami - um delegado no Primeiro Congresso Sionista
O Congresso foi aberto com três golpes de martelo.
O decano do Congresso, doutor Lippe de Chassi, chovev zion desde o dia da fundação das primeiras colônias, colocou o chapéu e pronunciou com voz trêmula o "Shehecheianu", a antiga oração judaica de ação de graças. Após uma breve alocução, o decano declarou aberto o Congresso.
Herzl se pôs de pé, e pausadamente encaminhou-se até a tribuna, com segurança, altivo, e abstraído. Todos o olhavam. Mas, coisa estranha. O que ocorreu? Não é o mesmo doutor Herzl que conheço e com quem conversei de noite.
Diante de nós aparece uma maravilhosa e augusta figura de rei, com os olhos profundos, majestosos, que revelam o quieto pesar.
Já não é o elegante doutor Herzl de Viena.
Diante de nós surge como de uma tumba, um descendente real de David, com a grandeza e a formosura que em torno dele teceram a fantasia e a lenda.
Todo o mundo está comovido, como se houvesse operado um milagre histórico. E, para dizer a verdade, não foi um milagre o que aí ocorreu?
Durante quinze minutos o ambiente todo estremeceu-se pelas aclamações, os gritos de júbilo, aplausos e o agitar dos lenços. O sonho do nosso povo há dois mil anos parecia próximo de converter-se em realidade.

A tumba de Herzl
Os restos mortais de Theodor Herzl foram trasladados em 1951 para seu eterno descanso, de Viena à cidade de Jerusalem, capital do Estado de Israel, de quem Herzl foi seu visionário.
O Monte Herzl, em cujo topo se encontra a tumba de Herzl converteu-se no lugar onde além de Herzl se encontram as maiores personalidades da breve vida política de Israel, assim como também o Cemitério Militar onde se encontram os restos mortais daqueles que caíram na interminável guerra pelar manutenção do nosso solo independente.
Naa esplanada em frente ao túmulo de Herzl se realiza ano após ano a cerimônia que marca o encerramento do evento oficial do Dia da Recordação pelos Caídos (Iom Hazicaron) e o início dos festejos do Dia da Independência do Estado de Israel (Iom Haatzmaut).
...E não foi uma lenda...

* Aharon Erlich é arquiteto em Israel e responsável pela publicação eletrônica em espanhol "De Todo un Poco", de caráter particular que se divulga pela internet através das listas de amizade, de familiares ou de interessados em fazê-la circular entre as pessoas que encontram alguma afinidade com seu conteúdo. “De tudo um pouco” tem como lema “A realidade nossa de todos os dias e uma opinião desapaixonada a partir de Jerusalém”. O presente artigo comemora o centenário da morte do jornalista Theodor Herzl.Tradução: Szyja Lorber


 



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