Assassinato dos atletas israelenses foi o episódio mais trágico
de 106 anos dos jogos
Há exatamente
32 anos, uma tragédia chocou o mundo. Durante as Olimpíadas,
a maior das festas esportivas, uma ação terrorista
palestina contra a delegação israelense deixou
o mundo atônito. Os Jogos Olímpicos, pela sua importância
e grande cobertura de mídia, já haviam sido palco
de outros incidentes - e os boicotes seriam a tônica das
edições seguintes, em Moscou e Los Angeles. Mas
tudo parecia correr bem em Munique, sede das Olimpíadas
de 1972.
A cidade era fortemente vigiada por mais de 15 mil policiais que representavam
a segurança que a então Alemanha Ocidental queria mostrar
ao mundo 36 anos depois da Olimpíada organizada no país
sob o regime nazista de Adolf Hitler. A chamada “Guerra Fria” tinha
dividido o país em dois (Alemanha Ocidental, capitalista, e
Oriental, comunista) e dividira ao meio a antiga capital, Berlim. A
Alemanha Ocidental procurava mostrar-se democrática e rica,
para fugir à sombra de Hitler e do comunismo e ao mesmo tempo
da pobreza da Alemanha Oriental.
A operação — Eram 4h30 da manhã de 5 de
setembro, durante a última semana dos jogos, quando cinco terroristas
usando roupas esportivas escalaram a grade que cercava a vila olímpica.
Já dentro da vila onde os atletas dos quatro continentes estavam
alojados, eles se encontraram com mais três que já haviam
entrado com credenciais. No espaço de 24 horas, 11 israelenses,
5 terroristas e um policial alemão morreriam, manchando de sangue
a até então tranqüila Vila Olímpica e para
sempre a memória dos jogos olímpicos.
Pouco antes das 5h da manhã, os terroristas já estavam
no setor da delegação israelense, que tinha um grande
esquema de segurança para os jogos. Mesmo com as medidas de
proteção, o grupo armado não encontrou dificuldade
para sua ação. Assim que che garam ao andar da delegação,
bateram na porta do quarto do técnico israelense Moshe Weinberg
que a abriu, mas percebeu que havia algo errado e começou a
gritar. Weinberg e o halterofilista Joseph Romano tentaram segurar
a porta enquanto os outros atletas escapavam, mas ambos foram mortos.
Logo depois, os terroristas cercaram nove israelenses e os fizeram
reféns.
À s 9h30, os terroristas anunciaram-se palestinos, pertencentes ao desconhecido
grupo “Setembro Negro”. Em troca dos reféns, exigiam a libertação
de 234 prisioneiros árabes em prisões israelenses e de dois terroristas
alemães que estavam detidos em Frankfurt. Eles também exigiram
um avião para deixar o país. O governo israelense não negocia
com terroristas. Assim, quem deveria zelar pela vida dos reféns eram os
alemães, que organizavam os jogos. Foram horas de negociações
e de uma tensão que envolveu até os demais participantes daquelas
Olimpíadas.
Alguns atletas judeus, como o norte-americano Mark Spitz, maior recordista
da história da natação até aquele momento,
resolveram antecipar a volta para casa. As delegações
inteiras de Noruega e Holanda também se retiraram. Para tentar
salvar a vida dos reféns, a polícia de Munique resolveu
simular uma concessão. Foi combinado que os terroristas iriam
de helicóptero até a base aérea da Otan em Firstenfeldbruck
e depois pegariam um avião para o Cairo, onde supostamente seriam
recebidos sem nenhuma punição. Atiradores de elite do
exército alemão foram posicionados na base com ordens
de matar todos os terroristas mesmo antes da entrega dos reféns.
A tragédia — Os terroristas pousaram na base às
22h30. Era o início da tragédia: os palestinos perceberam
a emboscada e lançaram uma granada no helicóptero onde
estavam os nove reféns. Todos foram mortos, dando início
a um terrível tiroteio, em que cinco terroristas, um dos cinco
atiradores da polícia e o piloto de um dos helicópteros
morreram. Três palestinos foram capturados e levados a uma prisão
alemã.
Tudo levaria a crer que ali se encerrariam as Olimpíadas de
Munique. Mas o Comitê Olímpico Internacional (COI) resistiu
e manteve o andamento dos jogos, realizando uma cerimônia dedicada à memória
dos atletas. As Olimpíadas se desenrolaram até o seu
final. Mas nada conseguiu apagar aquele acontecimento, o mais trágico
nos 106 anos de história dos Jogos Olímpicos da Era Moderna.
Na verdade, até hoje não se sabe exatamente por que o
incidente terminou em tragédia.
É um dos mistérios que cercam o fatídico caso. Na época,
a mídia internacional responsabilizou de certa forma as autoridades alemãs,
que não tiveram calma para negociar com o grupo e optaram por tentar matá-los
mesmo sem ter garantias de vida para os atletas israelenses. A polícia
de Munique disse que não teve outra alternativa, pois o governo israelense
se negou a atender as exigências do grupo. Mais de 20 anos depois, o único
terrorista ainda vivo colocou a culpou na então primeira-ministra de Israel,
Golda Meir, e no serviço secreto israelense, Mossad. Um mês depois
do “massacre de Munique”, terroristas que diziam ser do mesmo “Setembro
Negro” supostamente seqüestraram um avião da Lufthansa e exigiram
que os terroristas de Munique fossem libertados. Temendo novas mortes, os alemães,
em mais uma história mal explicada, aceitaram as exigências dos
palestinos e libertaram os três assassinos de Munique.
Quem eram os terroristas de Munique? — No início da década
de 70, grupos militantes islâmicos palestinos na Jordânia,
como a OLP, o Fatah e a FPLP (Frente Popular para a Libertação
da Palestina), começaram uma campanha de terror. Lançaram
diversos ataques nos territórios ocupados por Israel e seqüestraram
aviões comerciais. As ações terroristas lançadas
por estes e a tentativa de derrubar o rei Hussein, levou-o então
a reprimir os palestinos. Em setembro de 1971, tropas jordanianas atacaram
as bases dos palestinos. Milhares de pessoas morreram, e o ataque ficou
conhecido como “Setembro Negro”. Desse episódio
nasceu o suposto grupo “Setembro Negro”, “suposto” porque
até hoje muitos afirmam que tal grupo nunca existiu.
Afirma-se que foi o líder da OLP (atual Autoridade Palestina),
Yasser Arafat, quem forjou o grupo para poder lançar ataques
terroristas sem “sujar” o nome da sua organização.
Evidências nesse sentido foram encontradas pelo Governo de Israel
e depois o único terrorista de Munique sobrevivente, Abu Daoud,
disse na autobiografia “Memórias de um Terrorista Palestino”,
lançada 1999, que Yasser Arafat ordenou o ataque à vila
olímpica de Munique e escreveu ainda que o grupo não
tinha intenção de matar os israelenses. Daoud disse também
que o ataque foi perpetrado pelo Fatah, organização militar
de Arafat, e que o nome “Setembro Negro” foi usado para
proteger a imagem internacional do Fatah e os interesses políticos
da OLP. Daoud disse em seu livro: “Não havia a organização ‘Setembro
Negro’. O Fatah anunciou a operação sob esse nome
para o grupo não aparecer como responsável direto da
operação”. Arafat diz que tais acusações
fazem parte da estratégia israelense de desmoralizá-lo.
Reação — Após o massacre de 11 israelenses
inocentes, a necessidade de uma resposta à altura chegou ao
gabinete do governo de Israel. A então primeira-ministra de
Israel Golda Meir deu instruções para que o serviço
secreto eliminasse todos os envolvidos no ataque. No dia 12 de setembro
de 1972 ela disse ao Parlamento: “Nós não temos
outra opção. Temos que atacar as organizações
terroristas de todas as formas. Essa é uma obrigação
nossa e para a estabilidade mundial. Devemos cumprir isso”.
Anos mais tarde revelou-se que foram mortos cinco terroristas envolvidos
diretamente na ação de Munique. Foram eliminados outros
quatro terroristas associados com outros crimes contra Israel. Só Abu
Daoud sobreviveu.
Livros e filmes - A tragédia olímpica foi tema de livros
e filmes. Além do livro de Abu Daoud, um documentário
feito em 2000 ressuscitou os mistérios do massacre. Feito pelo
jovem diretor escocês Kevin MacDonald, o filme “One Day
in September” (Um Dia em Setembro), que reconstitui o trágico
ataque de 1972, recebeu o Oscar de melhor documentário em 2000.
MacDonald caçou as mais reveladoras imagens de arquivo para
recompor a dramática evolução do seqüestro.
Entrevistou protagonistas, testemunhas e familiares das vítimas.
O maior triunfo do filme foi apresentar a tese de que foi uma farsa
o seqüestro de um avião da Lufthansa que, sete semanas
após o ataque, levou à libertação dos três
agressores palestinos que sobreviveram ao confronto e ficaram presos
na Alemanha. Essa nova revelação se acrescenta aos mistérios
ainda não esclarecidos. Por que a segurança alemã foi
inoperante? Por que a ação terminou em tragédia?
Houve de fato um seqüestro de um avião da Lufthansa? Por
que os alemães libertaram os três responsáveis
pela assustadora tragédia? Perguntas que ainda exigem respostas.
Israel fora do site das Olimpíadas - O site oficial das Olimpíadas
2004 na Grécia traz um resumo das informações
de todos os países participantes. Estranhamente, a referência
a Israel ignora Jerusalém como sua Capital. No lugar do nome
da Cidade Santa, a mais reverenciada no mundo todo, consta assim: Israel
capital *. Só um asterisco. Pode? O site, www.athens2004.com,
deixou também Israel fora do mapa. De acordo com a homepage,
Israel não é um país soberano, mas um povo espalhado
pela Europa. Israel é um membro do Comitê Olímpico
Europeu (COE), mas não está localizado em seu mapa oficial.
Em 8 de junho, a B’nai B’rith International enviou uma
carta ao presidente do Comitê Olímpico, solicitando a
correção do mapa. Até o momento não houve
qualquer resposta, nem o site foi modificado.