Visão Judaica - Edição N° 26
:. É justa a insistência árabe-palestina no direito de retorno? .:


Por: Maoz Azaryahu

Para alguns, o Shavuót tem a ver principalmente com “cheesecakes” (doces de queijo). Para outros, ainda familiarizados com as antigas tradições judaicas, ele é o festival dos primeiros frutos, como antigamente celebrado nos ‘kibbutzim’ e nas escolas primárias. Para muitos, ele comemora a entrega da Lei no Monte Sião, no centro da qual encontram-se os Dez Mandamentos.
A divina providência da Lei apresenta-se de forma absoluta, diferentemente das leis praticadas pelos humanos mortais. Ainda inacessível à teologia, o poder dos Mandamentos encontra-se na maneira como eles formulam noções fundamentais sobre justiça. Como a Lei e sua aplicação são a quintessência da Justiça, para que eles sejam assim interpretados os Mandamentos devem corresponder a um instintivo entendimento humano de justiça e comportamento moral.
As leis são as regras do jogo. E aplicar as regras do jogo é essencial para produzir-se um senso de justiça. Essa questão é tão humana que muitos daqueles que acreditam nas regras também presumem que elas se aplicam principalmente aos outros. Parece que até mesmo se todos sinceramente se comprometessem a aplicar os Dez Mandamentos, ou ao menos aqueles que regulam as relações humanas, o mundo não seria muito diferente.
O problema está no enunciado: “Não matarás” – segunda pessoa, não “eu”. O problema é que muito freqüentemente encontramos a premissa de que o que se aplica aos outros não necessariamente obriga também a mim.
Este entendimento seletivo enfraquece os fundamentos morais de justiça. Isto aparece de forma cristalinamente evidente no caso do chamado direito de retorno, um poderoso argumento moral, pré-condição e síntese de uma “paz justa” como demandada pelos árabes e seus iluminados aliados.
Como a demanda por uma “paz justa” é quase universalmente aceita, parece apropriado examiná-la atentamente.
Quão justa é a insistência árabe-palestina no direito de retorno às vilas e cidades das quais eles fugiram ou foram forçados a sair na Guerra de Independência de Israel?
Como repetidamente enfatizado pelos árabes e seus aliados, o direito de retorno para os refugiados árabes-palestinos da Guerra de 1948 é uma questão de justiça e, por conseqüência, sobre o que é moral e o que não é.
Campeões do direito de retorno alegam clamar não somente por uma condição humanitária a pessoas deslocadas que perderam suas casas ao longo da Guerra. Eles sustentam que pretendem retificar um pecado, combater o mal e restaurar a ordem moral que supostamente foi tão rudemente abalada pela vitória de Israel.
Sendo o pecado original do Estado sionista, a recusa de Israel em aceitar o direito de retorno dos árabes-palestinos é considerada não só uma violação básica dos direitos humanos, mas também uma falha moral fundamental que solapa a fundação do estado judeu.
Até mesmo a questão de justiça, se propriamente abordada, é muito diferente do suposto assunto hiper-moral apresentado pelos árabes e seus aliados.
Considerando-se a noção de que toda negociação humana, seja entre indivíduos ou entre grupos, equivale a um jogo com regras específicas, a questão da justiça é, na verdade, sobre as regras do jogo e como elas foram formuladas e aceitas pelos jogadores.
A metáfora do jogo não insinua que uma guerra – mesmo uma guerra justa – seja apenas um jogo. Guerra é um tema cruel: ela deixa morte e destruição em seu rastro, perdas, privações e luto. Mas ela é, no entanto, um jogo no sentido de que sua condução é sujeita a certas regras bem conhecidas por ambos os jogadores.
Assim colocada, a regra fundamental da Guerra de 1948 era surpreendentemente simples: o vencedor leva tudo. Os árabes, que desafiaram o direito dos judeus à autodeterminação declararam ser a aniquilação da existência judaica seu objetivo supremo. Os judeus entenderam muito bem o que isto significava em termos de sobrevivência.
Muito já foi escrito sobre as vilas e cidades árabes que foram apagadas do mapa ao longo das vitórias militares de Israel. Entretanto, estas vilas e cidades árabes não ficaram flutuando livremente num vácuo moral. Do outro lado da equação moral estão os assentamentos judaicos que também desapareceram do mapa durante a guerra. Como este lado da equação está comumente ausente na discussão, algum detalhamento parece apropriado.
A lista dos assentamentos judeus inclui Beit Ha’araya, na costa do Mar Morto, e Atarot e Neve Ya’akov, ao norte de Jerusalém; Kfar Darom, Yad Mordechai e Nitzaniim, que estavam na rota de invasão do exército do Egito; os quatro assentamentos Etzion ao sul de Jerusalém (os moradores do Kibbutz Kfar Etzion foram massacrados, os sobreviventes dos outros assentamentos foram enviados ao cativeiro); o Bairro Judeu da Velha Jerusalém, que foi forçado a render-se ao cerco da legião árabe da Transjordânia; Mishmar ayarden, que foi conquistada pelas tropas sírias.
Alguns desses assentamentos foram restabelecidos mais tarde, depois que as tropas israelenses as reocuparam.
O destino desses 11 assentamentos judaicos demonstra duas coisas muito simples. Uma, quais eram as regras do jogo e o quanto os árabes foram ardorosos em aplicá-las sempre que pudessem. Em todos os lugares onde um exército árabe conquistou um assentamento judaico, este assentamento deixou de existir.
A segunda é a magnitude da vitória judaica. O fato de o número de vilas e vizinhanças árabes destruídas ter sido muito maior que o de assentamentos judaicos é apenas prova de que os judeus ganhavam a guerra, embora, diferentemente de seus adversários árabes, eles nem sempre estivessem sendo tão enfáticos na aplicação das regras que os árabes aplicavam sempre que pudessem.
PARA RESUMIR: As regras da Guerra de 1948 estavam claras para árabes e judeus igualmente. Os árabes foram mais rígidos que os judeus em aplicar uma limpeza étnica, embora tenham tido menos oportunidades de fazê-lo. Entretanto, é o princípio o que importa – e aqui os fatos são inequívocos: nenhum assentamento judaico permaneceu nas áreas controladas pelos árabes.
Mais ainda: a persistente demanda árabe pelo direito de retorno é moralmente errada porque implica em mudar as regras – as mesmas regras que os árabes determinaram à época da Guerra – depois de terminado o jogo.
Depois de 1948, os árabes demonstraram claramente que sua única intenção era retificar sua derrota, ao declararem que as regras do jogo que eles haviam aplicado não eram mais válidas. Porém, as regras do jogo aplicavam-se ainda mais aos judeus. O direito de retorno dos árabes jamais foi um fator na equação moral por eles formulada.
O direito de retorno tão veementemente demandado pelos árabes não é uma medida de justiça. É exatamente o contrário. Porque mudar as regras do jogo depois da derrota afronta qualquer noção de honestidade. E sem honestidade, não há justiça.

* Maoz Azaryahu é geógrafo da Universidade de Haifa, especializando-se em cultura sionista e memória nacional.Tradução: Gisella Gonçalves.



 



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