Por: Vittorio
Corinaldi
Tel Aviv acaba de ser reconhecida pela Unesco como “Patrimônio
da Humanidade”. Precedida por Brasilia, é agora a segunda
cidade moderna a ser contemplada com tal qualificação.
Para muitos de seus cidadãos, este fato veio como uma inesperada
surpresa: não só porque o público israelense não
deposita grande confiança em tudo o que provêm da ONU, onde
uma automática maioria se mostra em geral hostil a tudo o que se
relaciona com este país. Mas também porque esta dinâmica
cidade nunca se deu ao trabalho de uma auto-avaliação.
E então para muitos, a declaração da Unesco foi o
ponto de partida para uma observação mais ponderada de um
patrimônio que não sabiam estivesse em seu poder.
Trata-se do excepcional acervo de arquiteturas dos anos 30 que aqui surgiu
naquele período, e que resulta ser quantitativa e qualitativamente
um dos mais significativos existentes: praticamente toda a cidade daqueles
anos, que continua razoavelmente preservada, resistindo ao desgaste do
tempo e aos assédios da especulação — se coloca
hoje como um documento vivo do Movimento Moderno ou “Estilo Internacional”.
Aqui, este aspecto da história da arquitetura costuma ser designado
como “Arquitetura Bauhaus”. Isto porque muitos dos arquitetos
que o viveram eram formados naquela escola ou provinham de ambientes europeus
que propugnavam a renovação ética e estética
contida na mensagem do Movimento Moderno.
E chegando aqui em refúgio das incipientes discriminações
e perseguições do nazismo, defrontaram-se com uma realidade
que permitiu facilmente assimilar e aplicar aqueles postulados: uma necessidade
de soluções rápidas e econômicas para a habitação
das ondas de imigrantes; uma economia em formação, na qual
faltavam os recursos e a mão-de-obra para arquiteturas mais “sofisticadas”;
uma sociedade igualitária, aberta e solidária, que buscava
uma expressão simples e direta para seus anseios de normalização;
e uma atmosfera luminosa de clima ameno, que incentivava o emprego de geometrias
limpas e elementares, que o jogo de luz e sombra enriquecia e fazia vibrar.
Coloca-se então hoje em foco uma geração de talentosos
arquitetos que finalmente saem de um anonimato imposto pelas dificuldades
dos primeiros anos do nascente Estado. E dirige-se uma renovada atenção
ao tecido urbano peculiar em que suas arquiteturas se desenvolveram: uma
silhueta bastante uniforme de edifícios de 3-4 andares, agrupados
em núcleos de escala amistosa, ao redor de pequenas praças
ajardinadas; uma justa hierarquia de ruas que — nas condições
da época — assegurava uma boa qualidade de vida, selecionando
os vários tipos de trânsito com evidente preocupação
ambiental pelo morador; um dosado equilíbrio entre áreas
livres e áreas construídas, garantindo índices de
ventilação e salubridade próprios de um ambiente moderno.
Estas qualidades foram codificadas em alguns planos urbanísticos
que a municipalidade fez elaborar em etapas várias do crescimento
da cidade. Um deles é o do urbanista escocês Sir Patrick Geddes,
que ainda nos anos 20 foi encarregado de regularizar o crescimento do nascente
subúrbio de Jaffa para uma população de 100.000 habitantes.
Esta meta, hoje muito superada, demonstrou-se real para toda a fase em
que o perímetro assinalado pela declaração da Unesco
se desenvolveu. E assim, se as autoridades municipais souberem manter o
compromisso de preservação implícito no reconhecimento,
estaremos diante de um fenômeno bastante raro de orgânica simbiose
entre tecido urbano e arquitetura.
Naturalmente este fenômeno terá que ser, agora mais do que
antes da láurea internacional, revitalizado e revalorizado em âmbito
maior do que o exercido até hoje. E são sobejamente conhecidas
as dificuldades orçamentárias, os conflitos de interesses,
as políticas de pressão aplicadas por grupos de influência,
as contradições provenientes de legítimas necessidades
da expansão urbana, etc. — todas manifestações
características da problemática de defesa de patrimônio.
A “Tel Aviv patrimônio” declarada pela Unesco era uma
branca cidade pioneira, equilibrada e amistosa. Hoje, a Leste, Norte e
Sul ela cresceu e vem se transformando numa frenética metrópole.
A antiga Jaffa já de há muito foi incorporada a seu perímetro;
a “cidade Bauhaus” permanece no seu centro, rodeada de bairros
novos, sujeita a pressões que ameaçam seu caráter;
diversos municípios autônomos vizinhos (Ramat Gan, Petach
Tikva, Holon, Bat Yam, Rishon leZion, Ramle, Lod, Ramat Hasharon, Raanana,
Herzlia) são na verdade parte inseparável de sua conurbação.
Os problemas decorrentes de tal concentração são típicos
das metrõpoles em desenvolvimento, e podem facilmente ser imaginados
pelo leitor. Muitos deles estão agora na agenda da prefeitura, que
se beneficiaria de um estudo da experiência de Curitiba para uma
atitude anti-megalômana no enfrentá-los. Outros, pelo seu
caráter mais amplo e pela posição de pólo de
atração a nível nacional que a cidade exerce, passam à responsabilidade
do governo. As soluções variam pela maior ou menor qualidade
de projeto; pela diferente medida em que recursos limitados são
empregados com honestidade e inteligência; pela visão de futuro
que se faz necessária na complexa realidade israelense de hoje.
Mas o núcleo dos anos 30, com sua escala humana e suas arquiteturas
claras, despretensiosas e únicas, agora protegido por um pacto de
preservação que terá que ser constantemente lembrado
e revisto, permanece como um marco orientador para políticos, arquitetos
e urbanistas.
E o Movimento Moderno, manifestação autêntica e insubstituível
da cultura contemporênea, terá daqui para diante em Tel Aviv
um dos documentos mais relevantes: ao lado dos conhecidos nomes de artistas
que o divulgaram internacionalmente com obras e com vigor polêmico,
contar-se-ão tantos outros, que deixaram com modéstia e fé sua
lembrança, num trabalho profissional de qualidade, sem as intenções
exibicionisticas que hoje explodem em gestos dramáticos de falso
brilho.
Que a lição da “Cidade Branca” seja assimilada
como atitude civil digna de continuação.
*Vittorio Corinaldi é arquiteto e mora em Tel Aviv,
Israel.