Visão Judaica - Edição N° 26
:. Arafat — problema se morre .:


Por: Nahum Sirotsky

A idade e saúde de Yasser Arafat, o líder palestino, são grande preocupação para Israel, e a questão está em estudo nos mais altos meios. A conclusão a que se chega que o ideal seria que ele tivesse a melhor saúde possível e vivesse longos anos.
Arafat vive na Mokada, uma residência que resta de um centro cívico em Ramala, uma de suas capitais, (Gaza é a outra) que fica a cinco minutos de Jerusalém. Ele raramente aparece. Tem gente que gostaria de acertá-lo. Palestinos. Além do mais, está avisado pelos israelenses que tem liberdade de ir para aonde quiser. Sem o direito de volta.
A coisa é seriíssima. Com mais de 70 anos, cansado de guerras e lutas políticas, ele é o símbolo da resistência palestina. Da determinação de criar um estado independente. Um herói para a massa árabe. E obstáculo à tomada do poder pelos setores extremistas e fundamentalistas como o Hamas, sunita, e o Jihad, xiíta. Para ambos, seria ideal que ele se fosse para o outro mundo. Poderiam criar uma Palestina de leis muçulmanas. Não faltam fanáticos prontos a enviá-lo para o Paraíso.
Arafat não tem substituto designado. Não há ninguém com o prestigio para assumir o lugar dele com os poderes e influência dele. É a questão. Uma delas.
Existem grupos que imaginam abrir um túmulo para ele na colina do Templo. Onde ficam a Al Aksa, a terceira mais sagrada mesquita árabe, e Omar, a da pedra, cobrindo o local onde, por tradição Abrahão, o patriarca do monoteísmo, teria deitado seu primogênito para sacrificá-lo para Eloim, D-us, como prova de fé e amor. Foi quando aparece um carneiro que o anjo informa que D-us mandou para ser sacrificado em lugar do filho. E onde nasceu a expressão a ovelha de D-us do cristianismo. E a briga entre árabes e judeus.Os árabes alegam que o primogênito foi Ismael, filho da serva Hagar, de Sara, mulher de Abrahão. Os judeus, que vieram antes, insistem que foi Itzhak, filho da velhice de Sara que engravida aos 90 anos, um dos milagres narrados no Testamento. Quem não lê o Velho Livro perde uma leitura incomparável em beleza, qualidade literária, aventuras fantásticas, sagradas. Os árabes se consideram ismaelitas, descendentes de Ismael. Os judeus traçam sua origem a Itzhak, pai de Jacó, que foi pai dos 12 que deram origem às 12 tribos das quais, pela tradição, sobrevivem Benjamin e Judá, daí o nome judeu. As dez outras desaparecerem na história.
Na Colina do Templo o rei Davi instalou as Pedras das Leis recebidas por Moisés, o profeta, no monte Sinai. Guerreiro, mãos sujas de sangue, não foi autorizado por Eloim a construir o Templo. A missão coube a seu filho, Salomão, o rei sábio. Foi o Primeiro Templo, destruído pelos babilônios (que vivam no que hoje é o Iraque). Depois, exilados os judeus para a Babilônia, no regresso construíram um pequeno templo, o Segundo. Herodes, o rei construtor, construiria oTerceiro e último que as legiões romanas arrasaram e destruíram Jerusalém. Restou o Muro Ocidental. Muro das Lamentações onde até hoje os judeus ortodoxos choram a destruição do Templo. E o seu lugar mais sagrado.
Na Colina do Templo não existe um só túmulo. Na cidade murada eram proibidos os túmulos. Jesus, por exemplo, foi enterrado perto do que veio a ser o Santo Sepulcro. Era sexta-feira, véspera de shabat, dia sagrado no qual é proibido o trabalho. Foi enterrado num jardim próximo e transferido para fora dos muros no domingo, conta uma tradição donde ascendeu.
Existem grupos árabes muçulmanos que querem um túmulo para Arafat na Colina do Templo onde, com certeza, acabaria sendo local de adoração. Proibido por lei religiosa judia e muçulmana. A cidade, no dia dos funerais, seria invadida por centenas de milhares de peregrinos, grave problema de segurança. Risco de que optem por nela permanecerem, certeza de choques militares. Problemão para Israel.
Como evitá-lo? Ideal seria que, doente, removido para tratamento em outro país, não seria uma saída?
Outro problema que preocupa: se Arafat morre em Ramala o mundo árabe dirá que foi morto pelos judeus. O melhor é que morra vigiado por não-judeus. A massa árabe é perigosa quando histérica. Se bota na cabeça que judeus mataram Arafat virão para vingá-lo.
Israel quer evitar tal suspeita em todas as hipóteses e por todos os meios.
E tem mais: Arafat não tem herdeiro político. A morte deixaria uma vazio que logo os diversos grupos que querem o poder tentarão preencher. Seria a confusão e guerra civil. Outra grande ameaça à estabilidade da região. O melhor mesmo é que Arafat para a eternidade, conclui-se...

*Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e do Último Segundo/IG em Israel. A publicação desta coluna tem a autorização do autor.





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