Por: Nahum Sirotsky
A idade e saúde de Yasser Arafat, o líder palestino, são
grande preocupação para Israel, e a questão está em
estudo nos mais altos meios. A conclusão a que se chega que o ideal
seria que ele tivesse a melhor saúde possível e vivesse longos
anos.
Arafat vive na Mokada, uma residência que resta de um centro cívico
em Ramala, uma de suas capitais, (Gaza é a outra) que fica a cinco
minutos de Jerusalém. Ele raramente aparece. Tem gente que gostaria
de acertá-lo. Palestinos. Além do mais, está avisado
pelos israelenses que tem liberdade de ir para aonde quiser. Sem o direito
de volta.
A coisa é seriíssima. Com mais de 70 anos, cansado de guerras
e lutas políticas, ele é o símbolo da resistência
palestina. Da determinação de criar um estado independente.
Um herói para a massa árabe. E obstáculo à tomada
do poder pelos setores extremistas e fundamentalistas como o Hamas, sunita,
e o Jihad, xiíta. Para ambos, seria ideal que ele se fosse para o
outro mundo. Poderiam criar uma Palestina de leis muçulmanas. Não
faltam fanáticos prontos a enviá-lo para o Paraíso.
Arafat não tem substituto designado. Não há ninguém
com o prestigio para assumir o lugar dele com os poderes e influência
dele. É a questão. Uma delas.
Existem grupos que imaginam abrir um túmulo para ele na colina do
Templo. Onde ficam a Al Aksa, a terceira mais sagrada mesquita árabe,
e Omar, a da pedra, cobrindo o local onde, por tradição Abrahão,
o patriarca do monoteísmo, teria deitado seu primogênito para
sacrificá-lo para Eloim, D-us, como prova de fé e amor. Foi
quando aparece um carneiro que o anjo informa que D-us mandou para ser sacrificado
em lugar do filho. E onde nasceu a expressão a ovelha de D-us do cristianismo.
E a briga entre árabes e judeus.Os árabes alegam que o primogênito
foi Ismael, filho da serva Hagar, de Sara, mulher de Abrahão. Os judeus,
que vieram antes, insistem que foi Itzhak, filho da velhice de Sara que engravida
aos 90 anos, um dos milagres narrados no Testamento. Quem não lê o
Velho Livro perde uma leitura incomparável em beleza, qualidade literária,
aventuras fantásticas, sagradas. Os árabes se consideram ismaelitas,
descendentes de Ismael. Os judeus traçam sua origem a Itzhak, pai
de Jacó, que foi pai dos 12 que deram origem às 12 tribos das
quais, pela tradição, sobrevivem Benjamin e Judá, daí o
nome judeu. As dez outras desaparecerem na história.
Na Colina do Templo o rei Davi instalou as Pedras das Leis recebidas por
Moisés, o profeta, no monte Sinai. Guerreiro, mãos sujas de
sangue, não foi autorizado por Eloim a construir o Templo. A missão
coube a seu filho, Salomão, o rei sábio. Foi o Primeiro Templo,
destruído pelos babilônios (que vivam no que hoje é o
Iraque). Depois, exilados os judeus para a Babilônia, no regresso construíram
um pequeno templo, o Segundo. Herodes, o rei construtor, construiria oTerceiro
e último que as legiões romanas arrasaram e destruíram
Jerusalém. Restou o Muro Ocidental. Muro das Lamentações
onde até hoje os judeus ortodoxos choram a destruição
do Templo. E o seu lugar mais sagrado.
Na Colina do Templo não existe um só túmulo. Na cidade
murada eram proibidos os túmulos. Jesus, por exemplo, foi enterrado
perto do que veio a ser o Santo Sepulcro. Era sexta-feira, véspera
de shabat, dia sagrado no qual é proibido o trabalho. Foi enterrado
num jardim próximo e transferido para fora dos muros no domingo, conta
uma tradição donde ascendeu.
Existem grupos árabes muçulmanos que querem um túmulo
para Arafat na Colina do Templo onde, com certeza, acabaria sendo local de
adoração. Proibido por lei religiosa judia e muçulmana.
A cidade, no dia dos funerais, seria invadida por centenas de milhares de
peregrinos, grave problema de segurança. Risco de que optem por nela
permanecerem, certeza de choques militares. Problemão para Israel.
Como evitá-lo? Ideal seria que, doente, removido para tratamento em
outro país, não seria uma saída?
Outro problema que preocupa: se Arafat morre em Ramala o mundo árabe
dirá que foi morto pelos judeus. O melhor é que morra vigiado
por não-judeus. A massa árabe é perigosa quando histérica.
Se bota na cabeça que judeus mataram Arafat virão para vingá-lo.
Israel quer evitar tal suspeita em todas as hipóteses e por todos
os meios.
E tem mais: Arafat não tem herdeiro político. A morte deixaria
uma vazio que logo os diversos grupos que querem o poder tentarão
preencher. Seria a confusão e guerra civil. Outra grande ameaça à estabilidade
da região. O melhor mesmo é que Arafat para a eternidade, conclui-se...
*Nahum
Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e do Último
Segundo/IG em Israel. A publicação desta coluna tem a autorização
do autor.