Visão Judaica - Edição N° 26
:.Introdução à Música, Literatura e Judaísmo. .:


Por: Jane Bichmacher de Glasman

A palavra “lírica” deriva do grego lyrikós e se refere à lira, instrumento musical primitivo com quatro cordas. A poesia lírica nasceu de hinos religiosos e da tradição popular. A poesia cantada era associada a cantigas de ninar, lamentos, hinos, cantigas de amor, de alegria ou de tristeza, enfim todas as nuanças da vida.
Música e literatura são dois componentes fundamentais para a caracterização da cultura de um povo. No caso judaico, música e literatura, principalmente poesia, sempre estiveram interligadas, como produção íntima da alma do povo judeu.
Um exemplo significativo é a própria palavra shir que pode ser usada tanto para se referir à canção quanto a poesia.
Esta ligação vem desde o período bíblico, onde quase toda poesia é cântico, chegando a possuir indicações precisas de orquestração e participação de solistas e coro, como nos Salmos. A leitura semanal da Torá segue uma melodia, indicada por sinais no texto sagrado, que constituem uma das mais antigas pautas musicais da humanidade.
Através dos tempos, foi mantida a tradição da integração poético-musical, por exemplo, através dos pyutim desde a Idade Média. Nos quase 2.000 anos em que o hebraico não era falado no cotidiano, não cessou a produção literária no idioma, num elo ininterrupto.
Há cerca de 100 anos voltou a ser língua “viva”, em todos os âmbitos. Os escritores da época produziram também literatura infantil, para que seus filhos, criados com o hebraico como língua materna, nele aprendessem, desde cedo, poesias e canções como um alicerce de sua educação, de sua formação de valores e objetivos.
Pedagogicamente, a música sempre foi utilizada como recurso mnemônico. Todos nós guardamos cantigas que aprendemos na escola e até canções de ninar mesmo que não entendamos as palavras (quem teve pais imigrantes sabe bem disto...).
Na Diáspora aprendemos hebraico como língua que lembra o povo a que pertencemos, remete a uma pátria à qual ansiamos voltar (mesmo sem objetivos concretos para tal). Este singular idioma nos une a pessoas em diferentes lugares no mundo, fala da nossa cultura - um elemento catalisador para a formação da identidade judaica.
Quem estudou em escola judaica, guarda canções hebraicas das festas, folclóricas e até litúrgicas. Mesmo que se afaste da vivência, ao ouvir um trecho delas, sua alma palpita como a lembrar que “algo judaico” ainda vive dentro dela...
Certas orientações pedagógicas pressupõem que o aprendizado deve ser mais solene, como passagem a idades mais maduras; um afastamento a “isto é coisa de criança”.
Um adulto pode aprender de forma mais rápida e intensiva que uma criança.
No entanto, se ambos forem colocados em contato com uma nova língua em um país estrangeiro, a criança começará a aprendê-la mais rapidamente no estágio inicial ou sentirá menores dificuldades de se comunicar com as pessoas desde o início.
Um adulto possui bloqueios, tem medo de falar errado e de mostrar sua real fragilidade. A criança se preocupa mais em se integrar socialmente, participar e criar elos afetivos do que temerosa da percepção dos outros em relação ao seu desempenho intelectual, como os adultos. Também existe a barreira da pronúncia - a aquisição de uma nativa é feita no máximo até a adolescência.
E como entra a música neste quadro? Considerando os aspectos mencionados, ela constitui elemento facilitador tanto para um quanto para o outro. Serve para “quebrar o gelo”. É mais fácil de um adulto dispor-se a cantar em língua estrangeira do que recitar uma poesia na mesma. Por outro lado, é também mais fácil aprendê-la. Quanto à pronúncia, ela não pode ser “resolvida” através da música, mas pode ser atenuada. Afinal o que é pronúncia senão a musicalidade de um idioma?

*Jane Bichmacher de Glasman é doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica pela USP e professora da UERJ.



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