Por: Jane
Bichmacher de Glasman
A palavra “lírica” deriva do grego lyrikós
e se refere à lira, instrumento musical primitivo com quatro
cordas. A poesia lírica nasceu de hinos religiosos e da
tradição popular. A poesia cantada era associada
a cantigas de ninar, lamentos, hinos, cantigas de amor, de alegria
ou de tristeza, enfim todas as nuanças da vida.
Música e literatura são dois componentes fundamentais
para a caracterização da cultura de um povo. No caso
judaico, música e literatura, principalmente poesia, sempre
estiveram interligadas, como produção íntima
da alma do povo judeu.
Um exemplo significativo é a própria palavra shir
que pode ser usada tanto para se referir à canção
quanto a poesia.
Esta ligação vem desde o período bíblico,
onde quase toda poesia é cântico, chegando a possuir
indicações precisas de orquestração
e participação de solistas e coro, como nos Salmos.
A leitura semanal da Torá segue uma melodia, indicada por
sinais no texto sagrado, que constituem uma das mais antigas pautas
musicais da humanidade.
Através dos tempos, foi mantida a tradição
da integração poético-musical, por exemplo,
através dos pyutim desde a Idade Média. Nos quase
2.000 anos em que o hebraico não era falado no cotidiano,
não cessou a produção literária no
idioma, num elo ininterrupto.
Há cerca de 100 anos voltou a ser língua “viva”,
em todos os âmbitos. Os escritores da época produziram
também literatura infantil, para que seus filhos, criados
com o hebraico como língua materna, nele aprendessem, desde
cedo, poesias e canções como um alicerce de sua educação,
de sua formação de valores e objetivos.
Pedagogicamente, a música sempre foi utilizada como recurso
mnemônico. Todos nós guardamos cantigas que aprendemos
na escola e até canções de ninar mesmo que
não entendamos as palavras (quem teve pais imigrantes sabe
bem disto...).
Na Diáspora aprendemos hebraico como língua que lembra
o povo a que pertencemos, remete a uma pátria à qual
ansiamos voltar (mesmo sem objetivos concretos para tal). Este
singular idioma nos une a pessoas em diferentes lugares no mundo,
fala da nossa cultura - um elemento catalisador para a formação
da identidade judaica.
Quem estudou em escola judaica, guarda canções hebraicas
das festas, folclóricas e até litúrgicas.
Mesmo que se afaste da vivência, ao ouvir um trecho delas,
sua alma palpita como a lembrar que “algo judaico” ainda
vive dentro dela...
Certas orientações pedagógicas pressupõem
que o aprendizado deve ser mais solene, como passagem a idades
mais maduras; um afastamento a “isto é coisa de criança”.
Um adulto pode aprender de forma mais rápida e intensiva
que uma criança.
No entanto, se ambos forem colocados em contato com uma nova língua
em um país estrangeiro, a criança começará a
aprendê-la mais rapidamente no estágio inicial ou
sentirá menores dificuldades de se comunicar com as pessoas
desde o início.
Um adulto possui bloqueios, tem medo de falar errado e de mostrar
sua real fragilidade. A criança se preocupa mais em se integrar
socialmente, participar e criar elos afetivos do que temerosa da
percepção dos outros em relação ao
seu desempenho intelectual, como os adultos. Também existe
a barreira da pronúncia - a aquisição de uma
nativa é feita no máximo até a adolescência.
E como entra a música neste quadro? Considerando os aspectos
mencionados, ela constitui elemento facilitador tanto para um quanto
para o outro. Serve para “quebrar o gelo”. É mais
fácil de um adulto dispor-se a cantar em língua estrangeira
do que recitar uma poesia na mesma. Por outro lado, é também
mais fácil aprendê-la. Quanto à pronúncia,
ela não pode ser “resolvida” através
da música, mas pode ser atenuada. Afinal o que é pronúncia
senão a musicalidade de um idioma?
*Jane Bichmacher de Glasman é doutora em Língua
Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica pela USP e professora da
UERJ.