Por
Antonio Carlos Coelho:
O
monte Sion guarda locais de importância para judeus
e cristãos, conforme vimos na última edição.
Além disso, do monte pode-se ter ampla visão
das montanhas que cercam Jerusalém. Olhando-se a partir
do oeste vê-se o monte das oliveiras, o monte Scopus,
onde está a Universidade Hebraica de Jerusalém
(o monte tem o nome de Scopus porque foi de lá que
Flavio Josefo teve a última vista da cidade), a Augusta
Vitória, a Viri Galilei ou Jardim do Caçador,
onde está o palácio do patriarca greco-ortodoxo,
o monte da Ascensão e o monte da Ofensa, local que,
segundo conta-se, Salomão permitiu a construção
de um templo para os ídolos da sua mulher (1Reis 11:7).
A porta de Sion é uma das sete entradas da antiga Jerusalém.
Esta porta teve conservada a forma de L, sistema que garantia
maior segurança durante ataques inimigos. Nela há
uma mezuzah de ferro e, se a minha memória não
falha, esta é a única das portas que possui
essa marca judaica. Pode-se ver ainda, nas pedras que emolduram
a porta, as marcas dos combates da guerra de 48.
Entrando pela porta de Sion, seguindo à esquerda, pela
rua Ha-Patriarkhiya chega-se ao bairro armênio, um dos
bairros cristãos da cidade antiga; pela direita, chega-se
à rua Habad, uma das entradas do bairro judeu. Este
bairro foi totalmente destruído entre dezembro de 47
a maio de 48, na Guerra da Independência. Em junho de
67, Israel o reconquistou, reconstruindo-o totalmente, preservando
a característica arquitetônica da cidade: traçado
das ruas, desenho dos edifícios, tipos de pedras, etc.
Muitos são os locais de interesse neste bairro. Temos
o Museu da Antiga Comunidade, que preserva relíquias
da vida judaica no bairro, quando este não passava
de um gueto. Neste museu se pode também ver objetos
que mostram as diferenças de estilos artísticos
entre as comunidades sefaradita e asquenazita. Nas proximidades
do museu está a Casa Habad e o Cardo Maximus –
a Champs Elysées do período romano e bizantino
em Jerusalém.
O cardo (coração), rua principal da cidade romana
– foi restaurado, mantendo a forma tradicional das antigas
ruas da Jerusalém conquistada por Roma, quando passou
a ser chamada de Aelia Capitolina. Passando pelo cardo, pode-se
imaginar como eram as antigas ruas do comércio. Na
sua parte coberta – uma galeria – encontram-se
luxuosas lojas de artes, artigos religiosos, moda, etc. No
nível inferior do piso, pode-se ver as ruínas
dos séculos II e I a.e.c. Elas são um exemplo
da influência helênica na cultura hebraica durante
dinastia hasmonea (142-63 a.e.c). Há ainda, no nível
inferior do piso, restos do muro de proteção
da antiga cidade. Na diferença das suas pedras é
possível distinguir os diferentes períodos de
dominações por que passou Jerusalém ao
longo dos seus 3007 anos.
Retornando-se do cardo, sentido bairro judeu, pode-se comer
um bom falafel, um belo pedaço de pizza ou uma bureka
gigante numa das lanchonetes situadas na praça vizinha
à Sinagoga Hurva.
A antiga sinagoga de Ramban, fundada por Rabi Moshê
ben Nachman – Nachmanides (famoso exegeta que, após
ser exilado da Espanha, criou em Jerusalém a mais antiga
comunidade judaica após a destruição
do Templo), serviu de base para a construção
da Sinagoga Hurva. Esta sinagoga, que data do princípio
do século XVIII, foi idealizada pelo Rabi Yehuda Hahasid
(discípulo de Sabbatai Zevi) que veio da Polônia
acompanhado de um pequeno grupo de seguidores para habitar
em Eretz Israel. Em 1721 foi destruída pelos otomanos
– quando passou a ser chamada de Hurva (ruína
– destruição). Foi reconstruída
no início do século XIX pela comunidade asquenazita,
tornando-se a mais importante sinagoga de Israel. Em 1898,
a sinagoga símbolo do retorno a Sion, foi visitada
por Theodor Herzl. Após a Guerra da Independência,
foi novamente destruída pelos jordanianos.
Atualmente a antiga Casa da Comunidade é lembrada por
um imenso arco que invade o azul do céu, dominando
a paisagem do bairro, simbolizando a destruição
no passado, o renascimento do presente e a continuidade futura
da vida judaica em Jerusalém.
Antonio Carlos Coelho
Professor, diretor do Instituto Ciência e Fé. |