Visão Judaica - Edição N° 15
:.Turismo: Jerusalém (3) - Porta de Sion – bairro judeu (1).:

 

Por Antonio Carlos Coelho:

O monte Sion guarda locais de importância para judeus e cristãos, conforme vimos na última edição. Além disso, do monte pode-se ter ampla visão das montanhas que cercam Jerusalém. Olhando-se a partir do oeste vê-se o monte das oliveiras, o monte Scopus, onde está a Universidade Hebraica de Jerusalém (o monte tem o nome de Scopus porque foi de lá que Flavio Josefo teve a última vista da cidade), a Augusta Vitória, a Viri Galilei ou Jardim do Caçador, onde está o palácio do patriarca greco-ortodoxo, o monte da Ascensão e o monte da Ofensa, local que, segundo conta-se, Salomão permitiu a construção de um templo para os ídolos da sua mulher (1Reis 11:7).
A porta de Sion é uma das sete entradas da antiga Jerusalém. Esta porta teve conservada a forma de L, sistema que garantia maior segurança durante ataques inimigos. Nela há uma mezuzah de ferro e, se a minha memória não falha, esta é a única das portas que possui essa marca judaica. Pode-se ver ainda, nas pedras que emolduram a porta, as marcas dos combates da guerra de 48.
Entrando pela porta de Sion, seguindo à esquerda, pela rua Ha-Patriarkhiya chega-se ao bairro armênio, um dos bairros cristãos da cidade antiga; pela direita, chega-se à rua Habad, uma das entradas do bairro judeu. Este bairro foi totalmente destruído entre dezembro de 47 a maio de 48, na Guerra da Independência. Em junho de 67, Israel o reconquistou, reconstruindo-o totalmente, preservando a característica arquitetônica da cidade: traçado das ruas, desenho dos edifícios, tipos de pedras, etc.
Muitos são os locais de interesse neste bairro. Temos o Museu da Antiga Comunidade, que preserva relíquias da vida judaica no bairro, quando este não passava de um gueto. Neste museu se pode também ver objetos que mostram as diferenças de estilos artísticos entre as comunidades sefaradita e asquenazita. Nas proximidades do museu está a Casa Habad e o Cardo Maximus – a Champs Elysées do período romano e bizantino em Jerusalém.
O cardo (coração), rua principal da cidade romana – foi restaurado, mantendo a forma tradicional das antigas ruas da Jerusalém conquistada por Roma, quando passou a ser chamada de Aelia Capitolina. Passando pelo cardo, pode-se imaginar como eram as antigas ruas do comércio. Na sua parte coberta – uma galeria – encontram-se luxuosas lojas de artes, artigos religiosos, moda, etc. No nível inferior do piso, pode-se ver as ruínas dos séculos II e I a.e.c. Elas são um exemplo da influência helênica na cultura hebraica durante dinastia hasmonea (142-63 a.e.c). Há ainda, no nível inferior do piso, restos do muro de proteção da antiga cidade. Na diferença das suas pedras é possível distinguir os diferentes períodos de dominações por que passou Jerusalém ao longo dos seus 3007 anos.
Retornando-se do cardo, sentido bairro judeu, pode-se comer um bom falafel, um belo pedaço de pizza ou uma bureka gigante numa das lanchonetes situadas na praça vizinha à Sinagoga Hurva.
A antiga sinagoga de Ramban, fundada por Rabi Moshê ben Nachman – Nachmanides (famoso exegeta que, após ser exilado da Espanha, criou em Jerusalém a mais antiga comunidade judaica após a destruição do Templo), serviu de base para a construção da Sinagoga Hurva. Esta sinagoga, que data do princípio do século XVIII, foi idealizada pelo Rabi Yehuda Hahasid (discípulo de Sabbatai Zevi) que veio da Polônia acompanhado de um pequeno grupo de seguidores para habitar em Eretz Israel. Em 1721 foi destruída pelos otomanos – quando passou a ser chamada de Hurva (ruína – destruição). Foi reconstruída no início do século XIX pela comunidade asquenazita, tornando-se a mais importante sinagoga de Israel. Em 1898, a sinagoga símbolo do retorno a Sion, foi visitada por Theodor Herzl. Após a Guerra da Independência, foi novamente destruída pelos jordanianos.
Atualmente a antiga Casa da Comunidade é lembrada por um imenso arco que invade o azul do céu, dominando a paisagem do bairro, simbolizando a destruição no passado, o renascimento do presente e a continuidade futura da vida judaica em Jerusalém.
Antonio Carlos Coelho
Professor, diretor do Instituto Ciência e Fé.

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