Visão Judaica - Edição N° 15
:. O Judaísmo acredita em uma vida após a vida? .:

 

Moshe Maimônides, o Rambam (1135-1204) compilou os 13 Princípios Básicos do Judaísmo. O décimo e o décimo-primeiro princípio declaram que D-us sabe de todas nossas ações e que Ele recompensa e pune conforme nossas atitudes. Uma vez que não enxergamos o mal ser sempre punido ou o bem ser sempre recompensado, é lógico que, se existe um D-us bom e justo, deve existir um Mundo de Almas, uma vida após a vida, que seja o grande equalizador. Lá, o mal que não foi punido neste mundo é castigado e os bons atos que não foram recompensados são sim premiados.
Existem alusões à vida após a vida na Torá, embora não explicitamente escritas ou declaradas (o Talmud, no Tratado Sanhedrin, capítulo 10, discute o assunto ‘vida após a vida’). Quando o Patriarca Yaácov (Jacob) faleceu, a Torá relata: “... ele morreu e uniu-se ao seu Povo (Gênesis 49:33)”. A Torá então nos informa que os egípcios ficaram de luto por Yaácov por 70 dias antes que seu filho, Yossêf (José) recebesse permissão para enterrar seu pai na Caverna Hamachpelá, em Hebron, Israel. O que a Torá quis dizer com “ele uniu-se ao seu Povo?” A resposta é que esta é uma referência de que sua alma foi levada para uma vida após a vida.
Mais adiante, no livro de Bamidbár (Números), a Torá relata a história de Bilaam, o diabólico profeta gentio, que foi contratado pelo rei Balak para amaldiçoar o Povo de Israel. Em meio à história, Bilaam manifesta-se da seguinte maneira: “Permita-me morrer a morte dos justos e que meu fim seja como o deles (os Judeus justos) (Números 23:10)”. Será que os justos morrem melhor que os malvados? Na verdade Bilaam estava querendo dizer: “Deixe-me viver minha vida nos meus termos e segundo meus próprios desejos, mas quando chegar para a vida após a vida, permita que minha alma seja recompensada como os justos são recompensados”.
Creio que estas duas alusões são válidas, mas não emocionalmente convincentes. Se a vida após a vida é uma parte tão essencial da fé Judaica, por que a Torá a aborda de uma maneira indireta? A Torá poderia ter descrito o Mundo Vindouro em detalhes, mas preferiu não fazê-lo. Por que?
Por dois motivos:
1) A Torá é um livro de instruções para esta vida. Ela estabelece instruções sobre como vivermos uma vida sagrada, elevada e cheia de significado, e como melhorarmos a nós e ao mundo em que vivemos. O Todo-Poderoso deseja que foquemos nossos esforços em nossas obrigações nesta vida. A vida após a vida irá se manifestar por si só.
2) Mesmo se a Torá descrevesse detalhadamente a vida após a vida, como alguém poderia verificar sua existência? Ninguém jamais retornou do Mundo Vindouro para confirmar ou negar qualquer coisa.
Muitas pessoas e seitas fazem um retrato da vida após a vida. O Talmud nos ensina: “Aquele que quer mentir diz que suas testemunhas estão em algum lugar longínquo”. Por exemplo: Uma pessoa vai a um juiz alegando que fulano está lhe devendo uma enorme quantia de dinheiro. O fulano é intimado e fala o seguinte para o juiz: “Já lhe devolvi o dinheiro, mas acontece por acaso que minhas testemunhas estão viajando pela Europa”. É como alguém dizer: “Tenha fé em nós e você ganhará o paraíso”. Em ambos os casos, não há maneira de validar o que foi alegado.
Apesar de o Judaísmo crer na vida após a vida, um Mundo Vindouro, a Torá não faz nenhuma promessa ‘longínqua’. A Torá nos conta sobre as recompensas e punições neste mundo, em resposta às nossas ações e atitudes. Na verdade não precisamos ir mais longe do que o que está escrito nesta porção semanal da Torá: “Se vocês seguirem Meus decretos e cumprirem Meus mandamentos, Eu irei prover-lhes chuvas no momento certo, e a terra dará sua produção e as arvores darão seus frutos ... e comerão pão até se saciarem e morarão em segurança em sua terra. Garantirei paz em sua terra e vocês poderão dormir sem preocupações... Farei vocês florescerem e se multiplicar... (Vaikrá25:3-9)”
Por que a recompensa e a punição são tão importantes para nós? O Rabino Yaácov Weinberg, em seu livro ‘Fundamentals and Faith’, nos responde: “Um mundo sem recompensa ou punição é um mundo de absoluta indiferença, e a indiferença é a maior demonstração possível de rejeição. Uma pessoa não pode viver com indiferença. Para que haja um relacionamento entre D-us e o homem, D-us precisa reagir às ações do homem. Nosso reconhecimento desta reação (através de recompensas ou punições) nos informa que o Todo-Poderoso se importa conosco e que nossas atitudes realmente fazem diferença para ele. Sem recompensa e punição a vida não tem significado e também é injusta, pois o que o homem faz ou deixa de fazer não fará nenhuma diferença!”

Extraído do semanário Meor Hashabat, de autoria do Rabino Kalman Packouz, com permissão do autor

* Kalman Packouz é rabino, especialista em tecnologia e educador. Vive nos Estados Unidos e graduou-se Bacharel em Psicologia pela Universidade de Washington em Seattle. Em Jerusalém conheceu o Êsh Hatorá, então um pequeno centro de estudos para judeus que queriam aprender mais sobre sua herança espiritual. Através dos estudos, reflexão e avaliação, o Rabino Packouz descobriu que o estilo de vida proporcionado pela Torá satisfaz tanto a nível intelectual como emocional. Publicou livros e fundou o Serviço Judaico para Encontro de Casais via Computador (the Jewish Computer Dating Service). Packouz é casado e pai de nove filhos. Coordena as atividades da Organização Êsh HaTorá a nível internacional como diretor executivo e abriu um escritório americano para os programas mundiais do Êsh Hatorá, de onde escreve o Meór HaShabat Fax semanal, proporcionando uma visão moderna e entusiasmante sobre a vida, crescimento pessoal e a Torá. Este boletim é lido hoje por mais de 150 mil leitores via e-mail em todo o mundo, em inglês, português, persa e russo. Em 1997 o Rabino Packouz criou a homepage ‘Aish HaTorah Window on the
Wall’ (thewall.org), a primeira câmara on-line com a vista do Muro das Lamentações, em Jerusalém, um site que já contabiliza mais de 6.300.000 acessos. Através dele é possível enviar, via e-mail, uma mensagem que é impressa e colocada no Muro por um aluno do Êsh HaTorá.

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