Visão Judaica - Edição N° 15
:. Schindler brasileiro é reconhecido em Jerusalém.:

 

Por Daniela Kresch:

O Brasil teve seu próprio Oscar Schindler. Como o famoso empresário retratado no filme de Steven Spielberg, o diplomata Luiz Martins de Souza Dantas (1876-1954), embaixador brasileiro em Paris de 1922 até 1942, foi reconhecido oficialmente pelo Museu do Holocausto (Yad Vashem) em Jerusalém, por ter emitido centenas de vistos durante os anos mais duros da repressão nazista na Europa.
Sem alarde e lutando contra recomendações oficiais do governo Getúlio Vargas, Souza Dantas salvou comprovadamente 475 pessoas de morrerem em campos de extermínio.
O número certo de pessoas — judeus, homossexuais, comunistas e outras vítimas do nazismo — que encontraram a salvação graças à assinatura de Souza Dantas não é conhecido. O historiador carioca Fábio Koifman, 38 anos, diretor de Pesquisas da Universidade Estácio de Sá, acredita que possa passar de mil. Foi graças a Koifman e a seu livro Quixote nas Trevas, que o diplomata foi reconhecido, por unanimidade, com meio século de atraso, pelo conselho do museu, no dia 2 de junho. Koifman deve ir a Jerusalém para a cerimônia, a ser realizada ainda este ano, na qual o diplomata receberá, postumamente, honrarias.
Só 18 diplomatas foram reconhecidos, até hoje, como ''Justos entre as Nações'' (denominação dada aos que arriscaram suas vidas para ajudar vítimas do Holocausto). Souza Dantas é o 19º. Não fosse por ele, o ator e teatrólogo polonês Zbignew Ziembinski, por exemplo, nunca teria chegado ao Brasil.
Outro que teria perecido na Europa seria o ''anônimo'' brasileiro, nascido em Antuérpia, Raphael Zimetbaum, 75 anos, morador do Rio.
— Ele falou para os meus pais e tios que tinha certeza de que estaria salvando as nossas vidas — conta Zimetbaum, que nunca conheceu o diplomata pessoalmente, mas o idolatra.
Na lista dos 18 diplomatas ''justos'' figura uma brasileira: Aracy de Carvalho-Guimarães Rosa, que foi assistente do embaixador brasileiro em Berlim durante a Segunda Guerra Mundial. Também pouco conhecida, ela salvou cerca de 80 pessoas, emitindo vistos por conta própria. O feito de Souza Dantas, no entanto, é considerado bem maior, não pela quantidade de pessoas a quem conseguiu dar asilo, mas pelo risco pessoal que correu.
Souza Dantas foi várias vezes advertido pelo Ministério das Relações Exteriores e ficou numa espécie de prisão domiciliar alemã por 14 meses. Além disso, escapou por pouco das penalidades de um inquérito administrativo aberto pessoalmente por Getúlio Vargas, em outubro de 1941. O processo só não foi até o fim porque, no ano seguinte, o Brasil cortaria relações com a Alemanha e Getúlio decidiu abafar o caso.
— Estamos muito felizes com o reconhecimento oficial. Naquela época, poucos governos estavam abertos a dar asilo às vítimas dos nazistas — diz Eitan Surkis, ministro conselheiro da Embaixada de Israel em Brasília.
O historiador Fábio Koisman não esconde sua admiração pelo personagem que decidiu desvendar, há seis anos. Conversando com a documentarista Kátia Lerner, que ajudava na coleta de entrevistas de sobreviventes do Holocausto para a Fundação Shoá, do cineasta Steven Spielberg, descobriu que o Brasil teve seu próprio Oscar Schindler — o empresário que salvou 1.200 judeus durante a guerra.
No caso brasileiro, tratava-se de um diplomata: Luiz Martins de Souza Dantas (1876-1954), embaixador do Brasil na França de 1922 a 1944. Assinando pessoalmente vistos e passaportes diplomáticos, Souza Dantas salvou comprovadamente 475 pessoas. Mas o número pode passar dos mil.
— Sua humildade e humanismo fizeram com que o embaixador não deixasse muitos documentos — conta Koifman, diretor de pesquisas da Universidade Estácio de Sá.
''Fiz o que teria feito, com a nobreza d'alma dos brasileiros, o mais frio deles, movido pelos mais elementares sentimentos de piedade cristã'', diz Souza Dantas, ao explicar por que dava os vistos, num dos 7.500 documentos arquivados por Koifman.
O embaixador, que não figura em nenhum livro de História brasileiro, foi reconhecido pelo Museu do Holocausto de Jerusalém (Yad Vashem), como Justo entre as Nações. Só quem preenche pelo menos uma de três condições merece o título concedido pelo museu: arriscar cargo e posição social, arriscar a própria vida e salvar um número expressivo de pessoas. O diplomata não arriscou sua vida, mas quase perdeu o emprego e o status por assinar centenas de vistos para perseguidos do nazismo na França ocupada.
Na época, Souza Dantas ficou conhecido como um exemplo de diplomata. Quando voltou ao Brasil, em maio de 1944, planejou-se uma grande festa com desfile em carro aberto pela Avenida Rio Branco e decretação de feriado nas escolas do Rio. Assessores de Getúlio Vargas, porém, desmobilizaram as boas-vindas.
— O grande vilão da história é Getúlio — diz Koifman. - Como esse humanista pôde, até hoje, passar desapercebido no hall dos heróis nacionais? (Colaborou Pedro Malburg)
* Daniela Kresch é jornalista da Folha de S. Paulo

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