Ela
entrou em vigor dias atrás e deverá ser válida
por três meses. Não espere que os jornais e TVs
digam a você o que é hudna. Para a grande mídia,
que não consegue traduzir nem Road Map to Peace para
Roteiro da Paz, hudna significa trégua. Só que
"trégua" no sentindo ocidental da palavra,
enquanto ela é proferida por muçulmanos mais
fundamentalistas ou menos fundamentalistas no seu próprio
conceito geopolítico e não no nosso.
Nas agências de notícias internacionais, hudna
está sendo traduzida como truce (em inglês) que
significa claramente "suspensão (temporária)
das hostilidades". "Trégua" em português
tem o mesmo significado. No contexto militar ocidental uma
trégua é declarada
para recolher feridos no campo de batalha, por exemplo, para
evacuar civis, ou num momento de exaustão das forças
que leva há um rendição e fim de conflito
maior ou localizado. A Segunda Guerra Mundial, por exemplo,
não terminou após uma trégua: terminou
a após a tomada da capital da Alemanha e uma rendição
incondicional. A guerra do Vietnã terminou com a fuga
do exército americano e a invasão de Saigon
pelas
tropas do Norte. A Guerra da Coréia ainda não
terminou...
A Associated Press declarou que "o sucesso do processo
de paz pode ficar estagnado em um conceito legal datando do
nascimento do Islã: a hudna, ou trégua de duração
fixa".
O New York Times acrescentou que a hudna vai constituir "o
maior avanço... após 33 meses de violência".
Hudna tem um significado distinto para os fundamentalistas
islâmicos bem versados em sua própria história:
o profeta Maomé declarou uma lendária hudna
de 10 anos com a tribo Quraysh que controlava Meca no século
VII. Durante os dois anos seguintes, Maomé rearmou
seu exército e usou uma desculpa de quebra da hudna
por uma infração
cometida pela tribo Quraysh para lançar um ataque total
e conquistar Meca, a cidade mais sagrada para o Islã.
Portanto, o significado islâmico de hudna é:
o meu lado fazer uma trégua para que o meu lado se
prepare para a conquista final do inimigo. Como um dos objetivos
dos fundamentalistas islâmicos é a idealização
de uma sociedade islâmica como nos tempos do profeta,
é por aí que eles devem estar pensando. A hudna
não é uma trégua técnica: é
um trégua estratégica.
Para a mídia ocidental a declaração de
uma hudna pelo Hamas significa um compromisso com um resolução
pacífica, quando na verdade significa a preparação
para esmagar o inimigo.
Essa não é a primeira hudna declarada no processo
de paz entre israelenses e palestinos. Em 1994, Yasser Arafat
explicou, em árabe, para os palestinos que os acordos
de Oslo eram uma hudna no caminho para Jerusalém. Depois,
em 2000, usando como pretexto a visita de Ariel Sharon à
Esplanada das Mesquitas, criou a tal da "pequena infração
inimiga" quebrando a hudna e se lançando à
nova guerra, conhecida como Intifada de Al Aqsa, ou Intifada
II.
Em relação ao Hamas, a coisa não é
muito diferente. Nos últimos 10 anos o grupo declarou
10 situações de cessar-fogo, mas nunca parou
de lutar. Essa é apenas a décima-primeira.
É claro que qualquer pessoa racional espera que os
termos ocidentais da "trégua" prevaleçam
e é muito improvável que isso ocorra. Nestes
próximos 3 meses deverão ser implementados outros
itens e fases do Roteiro da Paz. Um deles é a continuação
da construção do muro de 350 km de extensão.
Já pipocam na mídia militante as comparações
de que esse muro (dentro de Israel) e que não cerca
os territórios
palestinos é pior que o muro de 14 km do Gueto de Varsóvia,
que enclausurava os judeus para o extermínio pela fome
e doença dentro da capital polonesa. Dentro do direito
internacional, cada país cuida de suas fronteiras,
de seu lado, como quiser. Poucos se importam com os muros
e fossos entre os Estados Unidos e México para tentar
conter a
imigração ilegal.
Mas cá entre nós: quanto tempo você acha
que a hudna vai durar? Três meses? Uma semana? Um dia?
Algumas horas? Agora se trata de achar o tal do incidente
catalisador da quebra da hudna. Como os israelenses não
têm hudna nenhuma, estão cumprindo sua parte
do acordo e retirando o exército da Faixa de Gaza imediatamente.
E o que os
palestinos fizeram?
No primeiro dia, depois da meia-noite, hora de Israel, com
a hudna já em vigor um morteiro atingiu Gush Katif,
um míssil antitanque foi disparado contra posições
do Exército de Israel em Nvei Dekalim e outro posto
do Exército foi atacado a tiros em Rafiach. Pela manhã,
os palestinos, num ato heróico de sublime coragem atacaram
um grupo de trabalhadores que asfaltava um trecho de estrada
perto de Kalkilya, matando Raskov Karisto, 45, trabalhador
búlgaro estrangeiro. Isso ocorreu algumas horas depois
da Brigada dos Mártires de Al Aqsa, parte da Fatah
dirigida por Yasser Arafat declarar que vai aceitar a hudna.
Na sua declaração oficial de propaganda após
o assassinato, este grupo declarou que o ataque "é
em resposta à hudna". Você entendeu? Nem
precisa: os eles têm o direito de continuar assassinando
quem bem quiserem enquanto os ocidentais pensam em trégua
e paz.
Às primeiras horas de segunda-feira, foram passando
e a estrada Tancher, em Gaza foi reaberta para a circulação
de palestinos. Menos de quatro horas depois da reabertura,
posições do exército israelense foram
atacadas a tiros por palestinos a partir dessa estrada. Essa
é a grande trégua pacífica islâmica.
Para os palestinos, o primeiro dia da hudna foi como qualquer
outro. Será que amanhã as coisas serão
diferentes?
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