Visão Judaica - Edição N° 15
:. O que é hudna?.:

 

Ela entrou em vigor dias atrás e deverá ser válida por três meses. Não espere que os jornais e TVs digam a você o que é hudna. Para a grande mídia, que não consegue traduzir nem Road Map to Peace para Roteiro da Paz, hudna significa trégua. Só que "trégua" no sentindo ocidental da palavra, enquanto ela é proferida por muçulmanos mais
fundamentalistas ou menos fundamentalistas no seu próprio conceito geopolítico e não no nosso.
Nas agências de notícias internacionais, hudna está sendo traduzida como truce (em inglês) que significa claramente "suspensão (temporária) das hostilidades". "Trégua" em português tem o mesmo significado. No contexto militar ocidental uma trégua é declarada
para recolher feridos no campo de batalha, por exemplo, para evacuar civis, ou num momento de exaustão das forças que leva há um rendição e fim de conflito maior ou localizado. A Segunda Guerra Mundial, por exemplo, não terminou após uma trégua: terminou a após a tomada da capital da Alemanha e uma rendição incondicional. A guerra do Vietnã terminou com a fuga do exército americano e a invasão de Saigon pelas
tropas do Norte. A Guerra da Coréia ainda não terminou...
A Associated Press declarou que "o sucesso do processo de paz pode ficar estagnado em um conceito legal datando do nascimento do Islã: a hudna, ou trégua de duração fixa".
O New York Times acrescentou que a hudna vai constituir "o maior avanço... após 33 meses de violência".
Hudna tem um significado distinto para os fundamentalistas islâmicos bem versados em sua própria história: o profeta Maomé declarou uma lendária hudna de 10 anos com a tribo Quraysh que controlava Meca no século VII. Durante os dois anos seguintes, Maomé rearmou seu exército e usou uma desculpa de quebra da hudna por uma infração
cometida pela tribo Quraysh para lançar um ataque total e conquistar Meca, a cidade mais sagrada para o Islã. Portanto, o significado islâmico de hudna é: o meu lado fazer uma trégua para que o meu lado se prepare para a conquista final do inimigo. Como um dos objetivos dos fundamentalistas islâmicos é a idealização de uma sociedade islâmica como nos tempos do profeta, é por aí que eles devem estar pensando. A hudna não é uma trégua técnica: é um trégua estratégica.
Para a mídia ocidental a declaração de uma hudna pelo Hamas significa um compromisso com um resolução pacífica, quando na verdade significa a preparação para esmagar o inimigo.
Essa não é a primeira hudna declarada no processo de paz entre israelenses e palestinos. Em 1994, Yasser Arafat explicou, em árabe, para os palestinos que os acordos de Oslo eram uma hudna no caminho para Jerusalém. Depois, em 2000, usando como pretexto a visita de Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas, criou a tal da "pequena infração inimiga" quebrando a hudna e se lançando à nova guerra, conhecida como Intifada de Al Aqsa, ou Intifada II.
Em relação ao Hamas, a coisa não é muito diferente. Nos últimos 10 anos o grupo declarou 10 situações de cessar-fogo, mas nunca parou de lutar. Essa é apenas a décima-primeira.
É claro que qualquer pessoa racional espera que os termos ocidentais da "trégua" prevaleçam e é muito improvável que isso ocorra. Nestes próximos 3 meses deverão ser implementados outros itens e fases do Roteiro da Paz. Um deles é a continuação da construção do muro de 350 km de extensão. Já pipocam na mídia militante as comparações de que esse muro (dentro de Israel) e que não cerca os territórios
palestinos é pior que o muro de 14 km do Gueto de Varsóvia, que enclausurava os judeus para o extermínio pela fome e doença dentro da capital polonesa. Dentro do direito internacional, cada país cuida de suas fronteiras, de seu lado, como quiser. Poucos se importam com os muros e fossos entre os Estados Unidos e México para tentar conter a
imigração ilegal.
Mas cá entre nós: quanto tempo você acha que a hudna vai durar? Três meses? Uma semana? Um dia? Algumas horas? Agora se trata de achar o tal do incidente catalisador da quebra da hudna. Como os israelenses não têm hudna nenhuma, estão cumprindo sua parte do acordo e retirando o exército da Faixa de Gaza imediatamente. E o que os
palestinos fizeram?
No primeiro dia, depois da meia-noite, hora de Israel, com a hudna já em vigor um morteiro atingiu Gush Katif, um míssil antitanque foi disparado contra posições do Exército de Israel em Nvei Dekalim e outro posto do Exército foi atacado a tiros em Rafiach. Pela manhã, os palestinos, num ato heróico de sublime coragem atacaram um grupo de trabalhadores que asfaltava um trecho de estrada perto de Kalkilya, matando Raskov Karisto, 45, trabalhador búlgaro estrangeiro. Isso ocorreu algumas horas depois da Brigada dos Mártires de Al Aqsa, parte da Fatah dirigida por Yasser Arafat declarar que vai aceitar a hudna. Na sua declaração oficial de propaganda após o assassinato, este grupo declarou que o ataque "é em resposta à hudna". Você entendeu? Nem precisa: os eles têm o direito de continuar assassinando quem bem quiserem enquanto os ocidentais pensam em trégua e paz.
Às primeiras horas de segunda-feira, foram passando e a estrada Tancher, em Gaza foi reaberta para a circulação de palestinos. Menos de quatro horas depois da reabertura, posições do exército israelense foram atacadas a tiros por palestinos a partir dessa estrada. Essa é a grande trégua pacífica islâmica.
Para os palestinos, o primeiro dia da hudna foi como qualquer outro. Será que amanhã as coisas serão diferentes?

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