Por
Sérgio Feldman:
A
grande dúvida de alguns amigos meus é se a modernização
do Judaísmo não levará ao seu desaparecimento.
Acreditam que para conservá-lo, não podemos
alterá-lo e nem aceitar influências do meio em
que vivemos. O que seria correto?
O judaísmo sobreviveu por dois milênios de Diáspora
e supõe-se que exista há três ou quatro
mil anos. Alguns apologistas afirmariam que se trata de uma
capacidade judaica inata; até mesmo, de uma predestinação
divina que gerou esta superioridade. Pessoalmente, não
creio e nunca acreditei em superioridade de nenhum tipo. O
último que pregou tais diferenças entre os seres
humanos matou seis milhões e meio de judeus e muitos
milhões de não judeus, a maioria vítimas
inocentes de um ideal de superioridade. Acredito, sim, que
há inúmeras razões relativas e nenhuma
resposta absoluta a essa questão. Entre as diversas
razões e opiniões válidas, gostaria de
expor aquela que considero a mais importante: a capacidade
de se transformar e evoluir nas suas formas, sem alterar o
seu conteúdo global e nem a sua essência, que
seria uma parte fundamental desse enigma da sobrevivência
do Judaísmo. Em todos os períodos da História,
os judeus foram defrontados com adversários de todos
os tipos. Alguns violentos como Haman, Amalek e Hitler; outros
que seduziram os judeus com os valores de outras culturas.
É o caso do helenismo, uma cultura de inegável
valor e de profundos e avançados saberes.
A tradição judaica tenta às vezes resumir
o encontro das duas culturas (judaica e helenista), na luta
dos macabeus, celebrada na festa de Chanuká, como sendo
a resistência e a vitória do Judaísmo
sobre o Helenismo. Isso é impreciso. Os macabeus venceram
de maneira parcial e lenta os reis seleucidas da Síria,
helenizados e que tentavam impor a sua cultura aos seus súditos
judeus. Os reis macabeus (ou hashmoneus) vencem e expulsam
os seleucidas, mas em poucas décadas seguem influenciados
pela cultura contra a qual lutaram. Um contato tenso e repleto
de contratempos, mas que ao final resultou enriquecedor para
as duas culturas.
O melhor exemplo é o que ocorreu com os judeus de Alexandria.
Os conflitos entre judeus e egípcios helenizados foram
constantes. Houve até choques armados e mortes. Em
outro ângulo da questão tivemos Fílon
de Alexandria, filósofo e exegeta judeu. Conhecia profundamente
a Torá e fez uma tentativa de conciliar as idéias
metafísicas de Platão com a Torá e os
Profetas. Inúmeros sábios judeus e cristãos
farão o mesmo, a partir de Fílon, no final do
Mundo Antigo e por toda a Idade Média. Haveria lógica
e fundamentos filosóficos na Lei divina?
Essa capacidade de síntese dialética entre duas
tendências opostas, não foi feita com facilidade.
Ocorreram choques e dificuldades. A intolerância e a
tentativa de destruir o Judaísmo não provinha
só de inimigos externos: os nossos radicais e intolerantes
exerciam uma força centrífuga que objetivava
que o judaísmo não sofresse influências
do mundo externo. È irônico a gente ver algumas
pessoas que se declaram judias, nos dias de hoje, argumentando
sobre a imutabilidade e defendendo um monolitismo arcaico
e retrógado que é um anti-judaísmo.
O radicalismo e a intolerância nunca nos ajudou e nem
fez evoluir. Geralmente foi prejudicial. O caminho do diálogo
com o mundo não judaico, através de sínteses
que não jogassem os valores básicos e a essência
judaica, foi o segredo vital da sobrevivência judaica.
Um exemplo inicial: a revolta contra Roma em 66-70 d.E.C.
os romanos estavam em vias de destruir Jerusalém e
são auxiliados pelas lutas fraticidas entre zelotes,
pacifistas, sicários e outros dissidentes. O já
superado, mas sempre utilizado Dubnow diz deste episódio:
“em vez de se aliarem todos esses partidos em uma luta
contra o inimigo comum, travaram um combate violento entre
si mesmos...” (Dubnow Historia Judaica, 1948, p. 232).
O segundo exemplo, encontrei em 1985 durante as celebrações
do Ano Internacional da Unesco. O tema foi Maimônides,
célebre rabino, médico e filósofo. Um
gênio da humanidade e um judeu militante e respeitado
até hoje. Duas orações do Sidur (livro
de orações) têm sua autoria. O seu saber
era enciclopédico: Talmud, Medicina, Astrologia e muito
mais. Escreveu “Responsas” (correspondência
rabínica) para inúmeras comunidades judaicas.
Muitos de seus contemporâneos consideravam-no um herético.
Por que? Por ter feito uma síntese harmoniosa entre
o Judaísmo e a Filosofia grega (mundo externo!). Ele
seguia a senda de grandes rabinos como Saadia Gaon e Fílon.
O pior sobreveio alguns anos após sua morte, quando
estalou uma violenta crise no sul da França em virtude
da propagação das idéias de Maimônides
e outros sábios judeus que eram considerados “livres
pensadores”.
Numa absurda “caça às bruxas” alguns
rabinos tradicionalistas liderados pelo rabino Salomão
de Montpellier, denunciaram os livros de Maimônides
aos frades dominicanos, responsáveis pela Inquisição
que na época perseguia os hereges albigenses, no sul
da França. Como a Inquisição não
cuidava de judeus, mas sim de hereges, os opositores de Maimônides
disseram que ele era um herético judeu muito perigoso.
Afirmaram que se os dominicanos exterminavam os hereges cristãos,
deveriam exterminar “também aos nossos, queimando-lhes
os livros daninhos” (Dubnow Historia Judaica, 1948,
p. 347). Com o apoio de tão renomados rabinos, houve
busca, coleta e queima publica do “Guia dos Perplexos”
e do “Livro da Ciência” em Montpellier em
1232 e mais tarde em Paris. Uma horrenda aliança entre
rabinos e inquisidores contra as obras do genial Maimônides.
Tudo em nome da intolerância e da crença que
há apenas uma única verdade: nada mais anti-judaico.
Na analise do autor Hans Borger, essa queima de livros foi
inspiradora de outra: “Não tardou e, em 1242,
já não era mais Maimônides, mas o próprio
Talmud que era condenado à morte” (Borger, Uma
história do povo judeu, 1999, p. 400). Sob a ridícula
acusação de blasfêmias contra Cristo,
o Talmud foi julgado e condenado: grandes fogueiras foram
ateadas em pilhas de livros. Um “remake” será
feito de maneira tão trágica por Hitler. O modelo
e a inspiração foi a intolerância anti
Maimônides.
O terceiro e último caso é a intolerância
dos grandes sábios judeus com o rabi Israel ben Eliezer,
mais conhecido como Baal Shem Tov, o fundador do Chassidismo.
Um grande e inspirado rabino, repleto de uma sensibilidade
ímpar e da compreensão das necessidades de seus
irmãos judeus da Polônia, realizando uma sutil
transformação da vida judaica. O que eu chamaria
de maneira simplista: uma “popularização
e participação popular” dos judeus empobrecidos
na cultura e na religião. A miséria que grassava
nas aldeias judaicas após os massacres dos cossacos
ocorridos na metade do séc. XVII (c.1648/1650) deixara
uma amarga herança: um vazio cultural com altos índices
de analfabetismo e ignorância. As massas miseráveis
da Europa Oriental não podiam mais estudar o dia todos
as Escrituras e os comentários talmúdicos e
rabínicos. Baal Shem Tov propôs uma alternativa
real a isto: os líderes chassídicos, denominados
tsadikim intermediavam entre seus seguidores e todo este saber,
tratando de fazê-lo acessível às massas
empobrecidas e ignorantes. A música e a dança
ajudavam o fiel na tentativa de aproximação
à D-us; a alegria era indispensável; as parábolas
chassídicas passavam de maneira simples, os valores
e o saber judaico. Os rabinos eruditos liderados pelo Gaon
de Vilna ficaram indignados: era uma vulgarização
do Judaísmo, uma heresia, uma absurda simplificação
da cultura e da religião. Os chassidim foram perseguidos
e anatemizados.
Hoje o que vemos? Muitos defendem visões monolíticas
de uma verdade única para o Judaísmo e para
alguém ser judeu. Negam posturas mais modernas para
entender e praticar o Judaísmo. Optam por excluir a
mulher de participação igualitária nos
serviços religiosos; por manter relativa rigidez de
tradições negando a modernidade; por tentar
manter uma espécie de gueto cultural e isolando o Judaísmo
do mundo. A sobrevivência do Judaísmo não
se deve à rigidez e ao fanatismo, mas sim a capacidade
de seguir com seus valores e com sua essência, mas sabendo
modificar sua forma, adequando-se a novas realidades: como
Fílon, Maimônides e Baal Shem Tov. O debate está
aberto.
* Sérgio
Feldman é professor adjunto de História Antiga
do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná
e doutorando em História pela UFPR. |