Visão Judaica - Edição N° 15
:. Intolerância X evolução .:

Por Sérgio Feldman:

A grande dúvida de alguns amigos meus é se a modernização do Judaísmo não levará ao seu desaparecimento. Acreditam que para conservá-lo, não podemos alterá-lo e nem aceitar influências do meio em que vivemos. O que seria correto?
O judaísmo sobreviveu por dois milênios de Diáspora e supõe-se que exista há três ou quatro mil anos. Alguns apologistas afirmariam que se trata de uma capacidade judaica inata; até mesmo, de uma predestinação divina que gerou esta superioridade. Pessoalmente, não creio e nunca acreditei em superioridade de nenhum tipo. O último que pregou tais diferenças entre os seres humanos matou seis milhões e meio de judeus e muitos milhões de não judeus, a maioria vítimas inocentes de um ideal de superioridade. Acredito, sim, que há inúmeras razões relativas e nenhuma resposta absoluta a essa questão. Entre as diversas razões e opiniões válidas, gostaria de expor aquela que considero a mais importante: a capacidade de se transformar e evoluir nas suas formas, sem alterar o seu conteúdo global e nem a sua essência, que seria uma parte fundamental desse enigma da sobrevivência do Judaísmo. Em todos os períodos da História, os judeus foram defrontados com adversários de todos os tipos. Alguns violentos como Haman, Amalek e Hitler; outros que seduziram os judeus com os valores de outras culturas. É o caso do helenismo, uma cultura de inegável valor e de profundos e avançados saberes.
A tradição judaica tenta às vezes resumir o encontro das duas culturas (judaica e helenista), na luta dos macabeus, celebrada na festa de Chanuká, como sendo a resistência e a vitória do Judaísmo sobre o Helenismo. Isso é impreciso. Os macabeus venceram de maneira parcial e lenta os reis seleucidas da Síria, helenizados e que tentavam impor a sua cultura aos seus súditos judeus. Os reis macabeus (ou hashmoneus) vencem e expulsam os seleucidas, mas em poucas décadas seguem influenciados pela cultura contra a qual lutaram. Um contato tenso e repleto de contratempos, mas que ao final resultou enriquecedor para as duas culturas.
O melhor exemplo é o que ocorreu com os judeus de Alexandria. Os conflitos entre judeus e egípcios helenizados foram constantes. Houve até choques armados e mortes. Em outro ângulo da questão tivemos Fílon de Alexandria, filósofo e exegeta judeu. Conhecia profundamente a Torá e fez uma tentativa de conciliar as idéias metafísicas de Platão com a Torá e os Profetas. Inúmeros sábios judeus e cristãos farão o mesmo, a partir de Fílon, no final do Mundo Antigo e por toda a Idade Média. Haveria lógica e fundamentos filosóficos na Lei divina?
Essa capacidade de síntese dialética entre duas tendências opostas, não foi feita com facilidade. Ocorreram choques e dificuldades. A intolerância e a tentativa de destruir o Judaísmo não provinha só de inimigos externos: os nossos radicais e intolerantes exerciam uma força centrífuga que objetivava que o judaísmo não sofresse influências do mundo externo. È irônico a gente ver algumas pessoas que se declaram judias, nos dias de hoje, argumentando sobre a imutabilidade e defendendo um monolitismo arcaico e retrógado que é um anti-judaísmo.
O radicalismo e a intolerância nunca nos ajudou e nem fez evoluir. Geralmente foi prejudicial. O caminho do diálogo com o mundo não judaico, através de sínteses que não jogassem os valores básicos e a essência judaica, foi o segredo vital da sobrevivência judaica.
Um exemplo inicial: a revolta contra Roma em 66-70 d.E.C. os romanos estavam em vias de destruir Jerusalém e são auxiliados pelas lutas fraticidas entre zelotes, pacifistas, sicários e outros dissidentes. O já superado, mas sempre utilizado Dubnow diz deste episódio: “em vez de se aliarem todos esses partidos em uma luta contra o inimigo comum, travaram um combate violento entre si mesmos...” (Dubnow Historia Judaica, 1948, p. 232).
O segundo exemplo, encontrei em 1985 durante as celebrações do Ano Internacional da Unesco. O tema foi Maimônides, célebre rabino, médico e filósofo. Um gênio da humanidade e um judeu militante e respeitado até hoje. Duas orações do Sidur (livro de orações) têm sua autoria. O seu saber era enciclopédico: Talmud, Medicina, Astrologia e muito mais. Escreveu “Responsas” (correspondência rabínica) para inúmeras comunidades judaicas. Muitos de seus contemporâneos consideravam-no um herético. Por que? Por ter feito uma síntese harmoniosa entre o Judaísmo e a Filosofia grega (mundo externo!). Ele seguia a senda de grandes rabinos como Saadia Gaon e Fílon. O pior sobreveio alguns anos após sua morte, quando estalou uma violenta crise no sul da França em virtude da propagação das idéias de Maimônides e outros sábios judeus que eram considerados “livres pensadores”.
Numa absurda “caça às bruxas” alguns rabinos tradicionalistas liderados pelo rabino Salomão de Montpellier, denunciaram os livros de Maimônides aos frades dominicanos, responsáveis pela Inquisição que na época perseguia os hereges albigenses, no sul da França. Como a Inquisição não cuidava de judeus, mas sim de hereges, os opositores de Maimônides disseram que ele era um herético judeu muito perigoso. Afirmaram que se os dominicanos exterminavam os hereges cristãos, deveriam exterminar “também aos nossos, queimando-lhes os livros daninhos” (Dubnow Historia Judaica, 1948, p. 347). Com o apoio de tão renomados rabinos, houve busca, coleta e queima publica do “Guia dos Perplexos” e do “Livro da Ciência” em Montpellier em 1232 e mais tarde em Paris. Uma horrenda aliança entre rabinos e inquisidores contra as obras do genial Maimônides. Tudo em nome da intolerância e da crença que há apenas uma única verdade: nada mais anti-judaico. Na analise do autor Hans Borger, essa queima de livros foi inspiradora de outra: “Não tardou e, em 1242, já não era mais Maimônides, mas o próprio Talmud que era condenado à morte” (Borger, Uma história do povo judeu, 1999, p. 400). Sob a ridícula acusação de blasfêmias contra Cristo, o Talmud foi julgado e condenado: grandes fogueiras foram ateadas em pilhas de livros. Um “remake” será feito de maneira tão trágica por Hitler. O modelo e a inspiração foi a intolerância anti Maimônides.
O terceiro e último caso é a intolerância dos grandes sábios judeus com o rabi Israel ben Eliezer, mais conhecido como Baal Shem Tov, o fundador do Chassidismo. Um grande e inspirado rabino, repleto de uma sensibilidade ímpar e da compreensão das necessidades de seus irmãos judeus da Polônia, realizando uma sutil transformação da vida judaica. O que eu chamaria de maneira simplista: uma “popularização e participação popular” dos judeus empobrecidos na cultura e na religião. A miséria que grassava nas aldeias judaicas após os massacres dos cossacos ocorridos na metade do séc. XVII (c.1648/1650) deixara uma amarga herança: um vazio cultural com altos índices de analfabetismo e ignorância. As massas miseráveis da Europa Oriental não podiam mais estudar o dia todos as Escrituras e os comentários talmúdicos e rabínicos. Baal Shem Tov propôs uma alternativa real a isto: os líderes chassídicos, denominados tsadikim intermediavam entre seus seguidores e todo este saber, tratando de fazê-lo acessível às massas empobrecidas e ignorantes. A música e a dança ajudavam o fiel na tentativa de aproximação à D-us; a alegria era indispensável; as parábolas chassídicas passavam de maneira simples, os valores e o saber judaico. Os rabinos eruditos liderados pelo Gaon de Vilna ficaram indignados: era uma vulgarização do Judaísmo, uma heresia, uma absurda simplificação da cultura e da religião. Os chassidim foram perseguidos e anatemizados.
Hoje o que vemos? Muitos defendem visões monolíticas de uma verdade única para o Judaísmo e para alguém ser judeu. Negam posturas mais modernas para entender e praticar o Judaísmo. Optam por excluir a mulher de participação igualitária nos serviços religiosos; por manter relativa rigidez de tradições negando a modernidade; por tentar manter uma espécie de gueto cultural e isolando o Judaísmo do mundo. A sobrevivência do Judaísmo não se deve à rigidez e ao fanatismo, mas sim a capacidade de seguir com seus valores e com sua essência, mas sabendo modificar sua forma, adequando-se a novas realidades: como Fílon, Maimônides e Baal Shem Tov. O debate está aberto.

* Sérgio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutorando em História pela UFPR.

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