Por
Jane Bichmacher de Glasman:
Arte
e Judaísmo
O conceito de arte judaica pode parecer, a alguns, uma contradição
devido à proibição explícita do
quarto mandamento: “Não farás para ti
imagem de escultura, nem qualquer semelhança do que
há em cima, nos céus, nem embaixo, na terra,
nem nas águas abaixo da terra” (Êxodo 20:4),
que em Deuteronômio 4:16-8, ao proibir imagens esculpidas,
particulariza em termos que não deixam lugar a ambigüidade:
“à semelhança de macho ou fêmea,
de qualquer animal que esteja na terra, de qualquer ave alada
que voa nos céus, de qualquer peixe que esteja na água
abaixo da terra.”
Esta interdição, vista como antagônica
a todo desenvolvimento artístico, implicaria numa visão
muito estreita do escopo e funções da arte,
pois nem toda arte é representativa e, mesmo nesta,
existem motivos desvinculados de figura humana ou animal.
O certo é que nem sempre foi interpretada assim, mesmo
entre judeus mais observantes. O próprio Pentateuco,
com as suas instruções detalhadas a respeito
do querubim que seria colocado na Arca, sugere que a proibição
do Decálogo deveria ser lida em conjunção
com o versículo seguinte: “Não te curvarás
ante elas e não as servirás” – isto
é, que nenhuma imagem deve ser feita com o propósito
de idolatria, tanto representando quanto substituindo a Divindade.
Através da história judaica atitudes e interpretações
variaram por regiões e gerações. Às
vezes a proibição era total; em outras, chegava-se
ao extremo oposto, incorporando figuras humanas até
a objetos ritualísticos. Era mantida somente no que
se refere a “imagens esculpidas” tridimensionais
de seres humanos, isto é, bustos e estátuas.
Estes só começam a aparecer nos séculos
17 e 18, embora, mesmo no período clássico,
ocorreressem algumas exceções significativas,
como belos exemplos de mosaicos e afrescos em ruínas
de sinagogas dos seis primeiros séculos e.c., como
Dura Europos.
Era também proibida a reprodução dos
utensílios do Templo. Por extensão, não
se poderia usar qualquer forma de arte em partes do culto
religioso.
No período medieval uma forma que possibilitou aos
judeus expressão artística foi a dos manuscritos
iluminados, com variados tipos de ilustração,
dependendo da origem, por exemplo “páginas de
tapete” entre os judeus de países islâmicos,
ou figuras humanas (obviamente chinesas) em Meguilot (Rolos,
livros bíblicos) usados pelos judeus da China. Uma
forma comum era a micrografia, que consistia em escrever um
texto em letras minúsculas formando uma figura. Um
dos textos favoritos dos ilustradores era a Hagadá
de Pessach, pois, sendo lida em casa não era levada
à sinagoga, permitindo ao artista maior liberdade de
criação. A invenção da imprensa
marcou o fim da iluminura, embora tenha permanecido na decoração
de Ketubot (contratos matrimoniais) e até nas primeiras
versões impressas do Mahzor (livro de orações
para Iamim Noraim).
A atitude judaica era condicionada por duas forças
opostas: repulsão e atração. O fato é
que as artes foram desenvolvidas e acompanharam o percurso
do povo judeu, em todas as formas de expressão. Objetos
ritualísticos artísticos são usados no
ciclo da vida judaica e adornam os lares, identificando-os
desde sua entrada, com as mezuzot. Obras de artistas plásticos
judeus figuram nos museus do mundo, além de crescerem
os museus especificamente judaicos. A literatura em hebraico,
idiomas e dialetos judaicos e outras línguas é
a base da religião além de constituir a expressão
da alma humana, através dos tempos. “A área
de maior criatividade artística não foi a das
artes plásticas, mas a de expressão sonora:
música, canto e, em particular, a arte de contar histórias,
porque nelas a imaginação foi capaz de voar
livremente, sem limitações.” (Unterman,
p.32)
Todos estes aspectos marcam o testemunho da presença
judaica no mundo, mesmo, ou principalmente, de onde fomos
banidos, expulsos ou massacrados.
Arte
Judaica e Holocausto
Este tema desdobra-se em inúmeras questões,
desde o que foi preservado da arte judaica após o abalo
apocalíptico nazista, o que foi produzido durante e
como o Holocausto foi representado nas artes, por testemunhas,
sobreviventes e pelos que não viveram pessoalmente.
Há ainda o aspecto da múltipla representação
artística, em todas as suas manifestações,
das artes plásticas e visuais, como pintura, escultura,
arquitetura e arte ritualística, até a literatura,
hebraica, judaica e universal.
O Prof. Salo Baron (1970) baseado num memorando quando convidado
a depor no Processo Eichman em 1961 sobre as comunidades judaicas
destruídas pelos nazistas, escreveu que: “Foi
por reconhecer a importância cultural dos judeus que
os nazistas, quase imediatamente após terem chegado
ao poder, procuraram combatê-los intelectualmente.”Estabeleceram
uma divisão especial de pesquisa judaica em Munique,
no Reichsinstitut seguida pelo lnstitut zur Erforschuing der
Judenfrage em Frankfurt, dirigido pelo ideólogo do
movimento nazista, Alfred Rosenberg, que reuniu uma biblioteca
judaica e hebraica para utilizar no ataque aos judeus e ao
judaísmo, confiscando coleções francesas
e alemãs, incluindo os arquivos Rothschild e a biblioteca
da Alliance Israélite Universelle. Com a expansão
da Nova Ordem, os alemães estabeleceram instituições
similares para o estudo da "questão judaica"
em Paris e em Lodz. Sob a pressão nazista, a Itália
criou instalações, em 1942, para o estudo da
raça e das questões judaicas nas universidades
de Florença, Bolonha, Trieste e Milão.
É difícil ser preciso acerca das perdas totais
judaicas na Europa, pois os alemães destruíram
não só o povo, mas também os documentos
em que cálculos mais apurados poderiam ter-se baseado.
A maioria das estimativas converge ao redor de seis milhões
de judeus mortos, número citado no processo dos criminosos
de guerra em Nuremberg.
A tragédia foi maior onde a vida comunitária
cultural judaica era mais florescente. Tesouros culturais
seculares, 3000 Kehilot e suas instituições
desapareceram. Grandes escolas de instrução
superior, jornais, revistas, editores e centros artísticos
foram arrasados. Além da enorme porcentagem de judeus
mortos durante a Shoá, sua elite intelectual estava
tão dizimada, que sobreviventes procurando realizar
algo, estavam privados de seus líderes, fossem rabinos,
literatos ou eruditos.
Atualmente o mundo tem participado das pesquisas e debates
sobre os tesouros roubados pelos nazistas, além do
resgate (?) dos mesmos e da questão das indenizações.
Mas seria possível atribuir qualquer tipo de valor
material à arte perdida, roubada ou destruída?
E a vida humana: tem preço? Parece-me mais que óbvio
que não.
Outra questão, mais complexa a meu ver, é tentar
compreender: como no seio da barbárie, conseguia a
alma humana criar, pintar, escrever e até cantar?
A
Fênix Judaica: Arte e Cinzas
Em um artigo sobre o Museu de Arte do Holocausto, parte do
Yad Vashem, Yehudit Inbar escreveu que durante o Holocausto,
artistas registraram o que testemunhavam e sentiam em sucatas
de papel, usando lápis, carvão ou qualquer coisa
que servisse para esboçar uma linha. É difícil
entender de onde eles tiravam força psicológica
para serem criativos, quando sua preocupação
precípua era a sobrevivência imediata. Como eles
reuniram força expressiva que irrompe tão poderosamente
dos seus esboços desesperados? Como tal arte foi produzida
na escuridão daquele período de horror?
Para alguns artistas a arte era um modo de descrever o que
eles e os ao seu redor viam e vivenciavam. Sendo a arte a
única ferramenta documental com a qual eles estavam
familiarizados, usaram-na para aquele fim.
Para outros, a arte foi um mecanismo que tornou a sobrevivência
psicológica possível. Era o seu modo pessoal
de confrontar-se com a crise que os tinha acometido. Alguns
pintaram o passado, para escapar do presente por alguns momentos
passageiros; outros pintaram para o futuro.
Todas estas obras de arte têm uma qualidade notável,
a maioria manifesta no seu dualismo de força e fragilidade.
O Museu de Arte de Yad Vashem possui a maior coleção
de Arte do Holocausto no mundo. Arte criada predominantemente
por artistas judeus que viveram sob a ocupação
alemã, em cidades, guetos e campos de concentração
durante a Segunda Guerra. Seu testemunho permite, embora brevemente,
que nos aproximemos de uma realidade que é tão
freqüentemente descrita como indescritível. Estes
esboços, desenhos e pinturas são acima de tudo
a manifestação de uma das formas mais altas
de heroísmo, um gesto de desafio que proclama o triunfo
do espírito. Arte criada em condições
onde a simples tarefa de encontrar materiais era uma realização
maior e onde habilidades eram usadas para sobreviver é
uma afirmação do ímpeto criativo tão
forte que não sucumbiu sob as condições
mais atrozes. Para muitos, tal coragem custou suas vidas.
A preservação destas obras de arte assume uma
feição milagrosa, bem como sua recuperação.
O próximo dia 19 de agosto (21 de Av) marca 50 anos
da fundação do Yad Vashem. Envie felicitações
para o e-mail international.relations@yadvashem.org.il E visite
o Museu on-line http://www.yadvashem.org.il
Referências
Bibliográficas:
UNTERMAN, Alen. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições.
RJ: Zahar, 1992.
BARON, Salo. História e Historiografia. SP, Perspectiva,
1974.
ENCICLOPÉDIA JUDAICA. RJ, Ed. Tradição,
1967.
INBAR, Yehudit. Art in the Face of Adversity: The New Museum
of Holocaust Art. Copyright ©2001 Yad Vashem The Holocaust
Martyrs' and Heroes' Remembrance Authority http://www.yadvashem.org.il
The Art Institute of Chicago. Eileen Harakal, Executive Director
of Public Affairs Copyright © 2000
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Jane Bichmacher de Glasman é doutora em Língua
Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica-USP, professora adjunta,
fundadora e ex-diretora do Programa de Estudos Judaicos–UERJ,
professora e coordenadora do Setor de Hebraico-UFRJ (aposentada),
coordenadora do Grupo de Estudos Beer Miriam–ARI e escritora.
(janebg@hotmail.com ou janeglasman@terra.com.br) |