Visão Judaica - Edição N° 15
:. Holocausto e arte.:

Por Jane Bichmacher de Glasman:

Arte e Judaísmo
O conceito de arte judaica pode parecer, a alguns, uma contradição devido à proibição explícita do quarto mandamento: “Não farás para ti imagem de escultura, nem qualquer semelhança do que há em cima, nos céus, nem embaixo, na terra, nem nas águas abaixo da terra” (Êxodo 20:4), que em Deuteronômio 4:16-8, ao proibir imagens esculpidas, particulariza em termos que não deixam lugar a ambigüidade: “à semelhança de macho ou fêmea, de qualquer animal que esteja na terra, de qualquer ave alada que voa nos céus, de qualquer peixe que esteja na água abaixo da terra.”
Esta interdição, vista como antagônica a todo desenvolvimento artístico, implicaria numa visão muito estreita do escopo e funções da arte, pois nem toda arte é representativa e, mesmo nesta, existem motivos desvinculados de figura humana ou animal. O certo é que nem sempre foi interpretada assim, mesmo entre judeus mais observantes. O próprio Pentateuco, com as suas instruções detalhadas a respeito do querubim que seria colocado na Arca, sugere que a proibição do Decálogo deveria ser lida em conjunção com o versículo seguinte: “Não te curvarás ante elas e não as servirás” – isto é, que nenhuma imagem deve ser feita com o propósito de idolatria, tanto representando quanto substituindo a Divindade.
Através da história judaica atitudes e interpretações variaram por regiões e gerações. Às vezes a proibição era total; em outras, chegava-se ao extremo oposto, incorporando figuras humanas até a objetos ritualísticos. Era mantida somente no que se refere a “imagens esculpidas” tridimensionais de seres humanos, isto é, bustos e estátuas. Estes só começam a aparecer nos séculos 17 e 18, embora, mesmo no período clássico, ocorreressem algumas exceções significativas, como belos exemplos de mosaicos e afrescos em ruínas de sinagogas dos seis primeiros séculos e.c., como Dura Europos.
Era também proibida a reprodução dos utensílios do Templo. Por extensão, não se poderia usar qualquer forma de arte em partes do culto religioso.
No período medieval uma forma que possibilitou aos judeus expressão artística foi a dos manuscritos iluminados, com variados tipos de ilustração, dependendo da origem, por exemplo “páginas de tapete” entre os judeus de países islâmicos, ou figuras humanas (obviamente chinesas) em Meguilot (Rolos, livros bíblicos) usados pelos judeus da China. Uma forma comum era a micrografia, que consistia em escrever um texto em letras minúsculas formando uma figura. Um dos textos favoritos dos ilustradores era a Hagadá de Pessach, pois, sendo lida em casa não era levada à sinagoga, permitindo ao artista maior liberdade de criação. A invenção da imprensa marcou o fim da iluminura, embora tenha permanecido na decoração de Ketubot (contratos matrimoniais) e até nas primeiras versões impressas do Mahzor (livro de orações para Iamim Noraim).
A atitude judaica era condicionada por duas forças opostas: repulsão e atração. O fato é que as artes foram desenvolvidas e acompanharam o percurso do povo judeu, em todas as formas de expressão. Objetos ritualísticos artísticos são usados no ciclo da vida judaica e adornam os lares, identificando-os desde sua entrada, com as mezuzot. Obras de artistas plásticos judeus figuram nos museus do mundo, além de crescerem os museus especificamente judaicos. A literatura em hebraico, idiomas e dialetos judaicos e outras línguas é a base da religião além de constituir a expressão da alma humana, através dos tempos. “A área de maior criatividade artística não foi a das artes plásticas, mas a de expressão sonora: música, canto e, em particular, a arte de contar histórias, porque nelas a imaginação foi capaz de voar livremente, sem limitações.” (Unterman, p.32)
Todos estes aspectos marcam o testemunho da presença judaica no mundo, mesmo, ou principalmente, de onde fomos banidos, expulsos ou massacrados.

Arte Judaica e Holocausto
Este tema desdobra-se em inúmeras questões, desde o que foi preservado da arte judaica após o abalo apocalíptico nazista, o que foi produzido durante e como o Holocausto foi representado nas artes, por testemunhas, sobreviventes e pelos que não viveram pessoalmente.
Há ainda o aspecto da múltipla representação artística, em todas as suas manifestações, das artes plásticas e visuais, como pintura, escultura, arquitetura e arte ritualística, até a literatura, hebraica, judaica e universal.
O Prof. Salo Baron (1970) baseado num memorando quando convidado a depor no Processo Eichman em 1961 sobre as comunidades judaicas destruídas pelos nazistas, escreveu que: “Foi por reconhecer a importância cultural dos judeus que os nazistas, quase imediatamente após terem chegado ao poder, procuraram combatê-los intelectualmente.”Estabeleceram uma divisão especial de pesquisa judaica em Munique, no Reichsinstitut seguida pelo lnstitut zur Erforschuing der Judenfrage em Frankfurt, dirigido pelo ideólogo do movimento nazista, Alfred Rosenberg, que reuniu uma biblioteca judaica e hebraica para utilizar no ataque aos judeus e ao judaísmo, confiscando coleções francesas e alemãs, incluindo os arquivos Rothschild e a biblioteca da Alliance Israélite Universelle. Com a expansão da Nova Ordem, os alemães estabeleceram instituições similares para o estudo da "questão judaica" em Paris e em Lodz. Sob a pressão nazista, a Itália criou instalações, em 1942, para o estudo da raça e das questões judaicas nas universidades de Florença, Bolonha, Trieste e Milão.
É difícil ser preciso acerca das perdas totais judaicas na Europa, pois os alemães destruíram não só o povo, mas também os documentos em que cálculos mais apurados poderiam ter-se baseado. A maioria das estimativas converge ao redor de seis milhões de judeus mortos, número citado no processo dos criminosos de guerra em Nuremberg.
A tragédia foi maior onde a vida comunitária cultural judaica era mais florescente. Tesouros culturais seculares, 3000 Kehilot e suas instituições desapareceram. Grandes escolas de instrução superior, jornais, revistas, editores e centros artísticos foram arrasados. Além da enorme porcentagem de judeus mortos durante a Shoá, sua elite intelectual estava tão dizimada, que sobreviventes procurando realizar algo, estavam privados de seus líderes, fossem rabinos, literatos ou eruditos.
Atualmente o mundo tem participado das pesquisas e debates sobre os tesouros roubados pelos nazistas, além do resgate (?) dos mesmos e da questão das indenizações. Mas seria possível atribuir qualquer tipo de valor material à arte perdida, roubada ou destruída? E a vida humana: tem preço? Parece-me mais que óbvio que não.
Outra questão, mais complexa a meu ver, é tentar compreender: como no seio da barbárie, conseguia a alma humana criar, pintar, escrever e até cantar?

A Fênix Judaica: Arte e Cinzas
Em um artigo sobre o Museu de Arte do Holocausto, parte do Yad Vashem, Yehudit Inbar escreveu que durante o Holocausto, artistas registraram o que testemunhavam e sentiam em sucatas de papel, usando lápis, carvão ou qualquer coisa que servisse para esboçar uma linha. É difícil entender de onde eles tiravam força psicológica para serem criativos, quando sua preocupação precípua era a sobrevivência imediata. Como eles reuniram força expressiva que irrompe tão poderosamente dos seus esboços desesperados? Como tal arte foi produzida na escuridão daquele período de horror?
Para alguns artistas a arte era um modo de descrever o que eles e os ao seu redor viam e vivenciavam. Sendo a arte a única ferramenta documental com a qual eles estavam familiarizados, usaram-na para aquele fim.
Para outros, a arte foi um mecanismo que tornou a sobrevivência psicológica possível. Era o seu modo pessoal de confrontar-se com a crise que os tinha acometido. Alguns pintaram o passado, para escapar do presente por alguns momentos passageiros; outros pintaram para o futuro.
Todas estas obras de arte têm uma qualidade notável, a maioria manifesta no seu dualismo de força e fragilidade.
O Museu de Arte de Yad Vashem possui a maior coleção de Arte do Holocausto no mundo. Arte criada predominantemente por artistas judeus que viveram sob a ocupação alemã, em cidades, guetos e campos de concentração durante a Segunda Guerra. Seu testemunho permite, embora brevemente, que nos aproximemos de uma realidade que é tão freqüentemente descrita como indescritível. Estes esboços, desenhos e pinturas são acima de tudo a manifestação de uma das formas mais altas de heroísmo, um gesto de desafio que proclama o triunfo do espírito. Arte criada em condições onde a simples tarefa de encontrar materiais era uma realização maior e onde habilidades eram usadas para sobreviver é uma afirmação do ímpeto criativo tão forte que não sucumbiu sob as condições mais atrozes. Para muitos, tal coragem custou suas vidas. A preservação destas obras de arte assume uma feição milagrosa, bem como sua recuperação.
O próximo dia 19 de agosto (21 de Av) marca 50 anos da fundação do Yad Vashem. Envie felicitações para o e-mail international.relations@yadvashem.org.il E visite o Museu on-line http://www.yadvashem.org.il

Referências Bibliográficas:
UNTERMAN, Alen. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições. RJ: Zahar, 1992.
BARON, Salo. História e Historiografia. SP, Perspectiva, 1974.
ENCICLOPÉDIA JUDAICA. RJ, Ed. Tradição, 1967.
INBAR, Yehudit. Art in the Face of Adversity: The New Museum of Holocaust Art. Copyright ©2001 Yad Vashem The Holocaust Martyrs' and Heroes' Remembrance Authority http://www.yadvashem.org.il
The Art Institute of Chicago. Eileen Harakal, Executive Director of Public Affairs Copyright © 2000

* Jane Bichmacher de Glasman é doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica-USP, professora adjunta, fundadora e ex-diretora do Programa de Estudos Judaicos–UERJ, professora e coordenadora do Setor de Hebraico-UFRJ (aposentada), coordenadora do Grupo de Estudos Beer Miriam–ARI e escritora. (janebg@hotmail.com ou janeglasman@terra.com.br)

Voltar