O
rabino Simón Moguilevsky, membro do Conselho Diretivo
da Fundação Raoul Wallenberg, esteve em Curitiba
para homenagear com a medalha Souza Dantas três religiosos
que se empenham no combate ao antijudaísmo, e visitou
escola municipal que leva o nome do embaixador sueco, que
salvou centenas de vítimas do nazismo.
Moguilevsky, que foi rabino de Curitiba por nove anos, e atualmente
é rabino na Congregação Israelita da
República Argentina (Templo Libertad), rendeu tributo
à memória de Luiz Martins de Souza Dantas, diplomata
brasileiro que salvou judeus e outros perseguidos durante
o Holocausto.
Na ocasião do cabalat shabat do dia 13 de junho, as
irmãs Adola e Nehamia, religiosas Evangélicas
de Maria, receberam a medalha Souza Dantas, da Fundação
Raoul Wallenberg, pelo importante trabalho que fazem para
a conscientização dos cristãos quanto
a Shoá, combatendo o preconceito e o antijudaísmo
existente no meio cristão. A fundadora de irmandade
foi madre Basilea, que assumiu uma postura muito destemida
durante o regime de Hitler. Como líder das estudantes
cristãs na Alemanha entre 1933 e 1935 a madre Basilea
recusou-se a aderir à política nazista que proibia
a assistência das cristãs de origem judias nas
reuniões da congregação. Arriscou sua
vida e carreira falando publicamente do singular destino de
Israel, o povo de D-us. Presa duas vezes pela Gestapo, foi
libertada apesar de sua firme postura. Por outro lado, outra
das fundadoras, madre Martiria, dirigia estudos bíblicos
para jovens a quem ensinava o Antigo Testamento, atividade
que era proibida pelo regime de Hitler.
Além das duas irmãs evangélicas foi homenageado,
na segunda-feira, 16 de junho, o padre claretiano Vitor Calixto
dos Santos, diretor do Studium Theologicum de Curitiba, por
seu empenho na formação de religiosos dentro
de uma consciência aberta ao judaísmo, mantendo
no currículo regular as disciplinas de Diálogo
Religioso e freqüentes seminários sobre a religião
judaica. Padre Vitor mantém na biblioteca do Studium
um invejável acervo de livros judaicos, visando dar
suporte à formação dos futuros padres.
Em 1998, ocasião da realização da assembléia
anual da Comissão Nacional de Diálogo Religioso
Católico Judaico, o arcebispo de Curitiba, Dom Pedro
Fedalto e o professor Antonio Carlos Coelho receberam a medalha
Raoul Wallenberg.
Ainda na tarde do dia 16 o rabino visitou o Centro de Educação
Integral Raoul Wallenberg. Na sua visita, o rabino falou sobre
a vida do diplomata sueco e de Souza Dantas, embaixador brasileiro
em Paris, que salvou 425 judeus, concedendo vistos para judeus
perseguidos pelo regime nazista. O Centro de Educação
Integral Raoul Wallenberg, é uma escola municipal que
leva o nome do diplomata sueco salvador de dezenas de milhares
de vidas na Hungria ocupada de 1944. Ali foi recebido pela
diretora da instituição, Maria Agostinha Drulla
Felipe.
O CEI Raoul Wallenberg se localiza no bairro São Braz
e atende a 410 alunos durante todo o dia. Os alunos têm
aulas de português, matemática, história,
geografia e ciências, além de participar de projetos
de música, biblioteca, xadrez, artes, laboratório
de matemática e educação ambiental.
A escola, construída e inaugurada quando era prefeito
Jaime Lerner, numa gestão do rabino Moguilevsky, educa
jovens que vivem nas vizinhanças. Seu objetivo é
proporcionar aos alunos, além de una educação
formal, a possibilidade de que desenvolvam suas potencialidades.
A escola também educa crianças de nível
pré-escolar provenientes de áreas de poucos
recursos econômicos para que seus pais possam trabalhar.
Dedicando-se à educação escolar integral
para crianças da faixa etária dos 6 aos 10 anos
a escola cumpre com sua missão social de Educar para
a vida.
Moguilevsky distinguiu o estabelecimento educacional com a
medalha Raoul Wallenberg Um dos alunos com melhor média
foi o encarregado de receber a láurea.
A Fundação Wallenberg é uma organização
privada, não-governamental, dedicada a manter viva
a memória do diplomata sueco, difundindo o seu exemplo
por todo o mundo, desenvolvendo projetos educativos baseados
no conceito de solidariedade e entendimento. Com sedes em
Jerusalém, Nova York, Buenos Aires e Caracas, a fundação
tem por objetivo perpetuar e valorizar as ações
humanitárias, especialmente daqueles que puseram suas
vidas em risco durante a Segunda Guerra Mundial, como Raoul
Wallenberg, Cardeal Angelo Roncalli, Aristides Souza Mendes,
Jan Karsky e outros tantos.
Raoul
Wallenberg
Raoul Wallenberg chegou a Budapeste em 1944, portando um passaporte
diplomático. Sua missão era relatar a situação
dos judeus e outras minorias na capital húngara. O
governo sueco atendia um pedido neste sentido feito, entre
outros, pelo Congresso Judaico Mundial. Desde março
daquele ano, os nazistas haviam ocupado a Hungria.
As tropas chegaram acompanhadas das famigeradas SS e Gestapo,
que dominavam à revelia das minorias. Adolf Eichmann
organizava a deportação de judeus húngaros
para os campos de concentração. Até a
chegada de Wallenberg, já haviam sido levadas 437 mil
pessoas. O jovem sueco impôs-se a tarefa de salvar os
200 mil que ainda restavam, expedindo salvo-condutos em nome
da representação diplomática.
Para melhor atingir seus objetivos, Wallenberg aproveitou-se
da grande influência de sua família (Scania).
Esta, por seu lado, mantinha contatos com a Alemanha nazista.
Os negócios do tio de Raoul, Jakob, beneficiavam a
indústria armamentista alemã. Estas ligações
eram acompanhadas pelo serviço de espionagem russo.
Em janeiro de 1945, o governo sueco foi informado por Moscou
que Raoul havia sido preso pelos russos em Budapeste. Wallenberg
foi visto em liberdade pela última vez em 17 de janeiro
de 1945, em Budapeste, quando tinha 32 anos. O então
Ministério russo do Interior ordenou que ele fosse
levado imediatamente à capital soviética, onde
suas pistas se perderam nas malhas do serviço de espionagem.
Em fevereiro de 1957, Gromiko informou à embaixada
da Suécia em Moscou que Wallenberg morrera de enfarte
numa prisão do serviço secreto em 1947. Mais
tarde, Alexander Iakovlev, chefe da Comissão de Reabilitação
da presidência russa, confessou que o sueco foi executado
a tiros. O mistério, entretanto, prossegue.
Durante muito tempo, acreditou-se que ele ainda vivia e que
estivesse internado numa clínica psiquiátrica
até 1989. Neste ano, o governo russo chamou os familiares
de Raoul a Moscou para buscarem seus pertences pessoais: passaporte,
agenda de endereços, dinheiro e uma cigarreira.
Em dezembro de 2000, a Rússia voltou a admitir oficialmente
que o diplomata sueco foi erroneamente encarcerado pelos soviéticos
até sua morte. Uma declaração de duas
páginas da Procuradoria-Geral russa revela em parte
as circunstâncias do misterioso desaparecimento de Wallenberg
em 1945.
A Procuradoria afirmou ter concluído que Wallenberg
e seu motorista "foram reprimidos pelas autoridades soviéticas''.
Eles foram detidos por serem considerados, sem justificativa,
indivíduos "socialmente perigosos''. O termo repressão
compreende várias formas de perseguição
política da época soviética, inclusive
exílio, encarceramento e execução de
presos políticos.
O procurador-geral Vladimir Ustinov assinou um veredicto póstumo
que reabilita Wallenberg e seu motorista argentino, Vilmos
Langfelder, qualificando-os como “vítimas da
repressão política”. O documento apenas
confirma que morreram em prisões soviéticas,
sem esclarecer maiores detalhes. Durante muito tempo acreditou-se
que estariam internados num sanatório russo. Os familiares
de Wallenberg e o governo sueco sustentam que eles foram executados
pelos soviéticos.
Um diplomata da chancelaria sueca, Jan Lundvik, elogiou a
decisão da Rússia de "admitir o trágico
erro cometido naqueles momentos''. Mas a meia-irmã
de Wallenberg, Nina Lagergren, não ficou satisfeita
com a confissão e disse que aguarda mais detalhes e
provas dos fatos. ( Deutche Welle)
Luís
Martins de Souza Dantas
Nos anos 40 o Estado Novo perseguia a todos que desafiassem
a qualquer determinação do governo de Getúlio
Vargas. Conforme o caso, eram inevitáveis a prisão
e a tortura. Na Europa a situação era pior.
O nazismo tinha estabelecido o reino do terror.
Foi nessas circunstâncias que se desenrolou o capítulo
mais palpitante da vida do embaixador Luís Martins
de Souza Dantas. Por 20 anos, Souza Dantas esteve à
frente da missão diplomática do Brasil na França.
Motivado, pelo que chamou mais tarde de “sentimento
cristão de piedade”, ele desafiou duas ditaduras
ao mesmo tempo, concedendo vistos diplomáticos para
entrar no Brasil a centenas de pessoas que, sob o ponto de
vista da política brasileira de imigração,
eram consideradas indesejáveis: judeus, comunistas
e homossexuais que tentavam escapar do horror nazista. Souza
Dantas livrou aproximadamente 800 pessoas do extermínio.
A nobreza dos atos praticados pelo diplomata ficou esquecida
durante anos. Somente agora ganhou o seu merecido lugar na
história. O Museu do Holocausto, de Jerusalém,
reconheceu-o como um “Justo Entre as Nações”.
Souza Dantas é o 19º herói a receber tal
distinção do Museu Yad Vashem.
Sua biografia, de recente publicação em português
esta relatada no livro "Quixote nas trevas. O embaixador
Souza Dantas e os refugiados do nazismo" (Editora Record,
Rio de Janeiro - São Paulo), do acadêmico brasileiro
Fabio Koifman.
Luís Martins de Souza Dantas morreu em Paris em 1954.
No seu quarto, no Grand Hotel de Paris, foi encontrado e registrado
como sendo seu bem mais valioso, um cordão de ouro
com uma medalha do Barão do Rio Branco. |