A banalização do Holocausto e o anti-semitismo
Haveria alguma estranha relação entre recordar o Holocausto — o maior dos genocídios da história da humanidade — e o anti-semitismo que às vezes, como agora, chega a caracterizar níveis epidêmicos? Parece que sim, se for levada em conta a atual avalanche preconceituosa que soterra qualquer esperança de que a evolução do ser humano traga um mundo melhor e menos sofrido. No Carnaval do Rio, a pretexto de lembrar o Holocausto, buscam sua banalização, enquanto declarações aparentemente dissociadas do assunto, como as da cantora Nana Caymmi, ou do “frei” Beto, garoto-propaganda do decrépito comunismo cubano, deixam à mostra, por trás dos sorrisos um tanto amarelos, dentes afiados de racismo contra judeus. Como se não bastasse, uma série de incidentes, dos quais, por falta de espaço, mencionamos aqui as pichações anti-semitas na Argentina, dias antes do Carnaval.
Talvez a chave que ajude a entender essa complicada relação esteja no final do artigo escrito pelo jornalista Adriano Silva, na revista Época, acusando de censor (sempre acusam, quando não a Israel, aos judeus) o presidente da Federação Israelita do Rio de Janeiro, Sérgio Niskier. Por ter ele feito ver à Escola de Samba Unidos do Viradouro da inconveniência de desfilar com o abominável carro alegórico atulhado de manequins-cadáveres — de extremo mau gosto, diga-se a bem da verdade — a título de recordação das vítimas do Holocausto. Em meio à folia, aos requebros dos sambistas, da música alegre e da nudez indefectível. Resumo da ópera: uma afronta e um ultraje sem par à memória das vítimas e dos sobreviventes da monstruosidade nazista. Silva escreveu: ”Ao mesmo tempo, há uma ala judaica que se ocupa de manter abertas as feridas do passado. E que cultua as próprias chagas como se não quisesse deixá-las cicatrizar, como se dependesse da existência delas para continuar vivendo. Será que não está mais que na hora de quebrar essa reserva de mercado da dor e olhar, com alegria, para a frente? O Carnaval está ai para isso mesmo”. Não. Não é um pobre de espírito. É a infâmia de um espírito preconceituoso, fantasiado de jornalista.
Quando se descobriu que no carro alegórico iria um dançarino fantasiado de Hitler tripudiando sobre os corpos da Shoá, à vista da nova situação, totalmente inaceitável, a FIERJ agiu com rigor e recorreu à Justiça, obtendo a proibição do “carro alegórico” no desfile. O fato repercutiu intensamente no exterior pela vergonha que causaria ao Brasil a bizarra exibição. A estupidez, entretanto, não tem limites. A falta de liberdade de expressão foi o argumento usado pelo carnavalesco das alegorias da Viradouro, para sustentar a proibição judicial, e tentou mostrar isso no seu carro reformado, através de bocas vendadas e de faixas acusando-nos de querer esconder o passado. Ora acusam os judeus de expor demais o Holocausto, ora apontam que desejam ocultá-lo. Os anti-semitas deveriam chegar a um acordo pelo menos sobre isso!
Mas, vale ressaltar as considerações do respeitado sociólogo Roberto da Matta, na própria revista Época, depois do que Silva cometeu: “O Holocausto não tem essa proximidade com a maioria dos foliões, mas ainda é fato histórico vivo para os parentes e sobreviventes dos campos de concentração”. E acrescentou: “Falando como cidadão, será que algum carnavalesco faria o carro alegórico de um menino sendo arrastado por assaltantes, mesmo que fosse para alertar? Provavelmente, a população do Rio se sentiria ofendia e iria achar de mau gosto”, disse, em referência ao triste e terrível caso acontecido recentemente no Rio de Janeiro.
A Redação.