Um dos destinos preferidos dos brasileiros e, diga-se de passagem, da maior parte das pessoas de bom gosto, continua sendo Paris, a eterna ‘Cidade Luz’, com suas belas paisagens e monumentos, lançadora de moda e costumes. No particular, Paris, também assinala uma importante presença judaica, e pede um tempo para que se visite alguns dos pontos, onde podemos aprender mais a respeito da vida da comunidade de outrora, e a atual.
Um dos locais mais visitados por aqueles que se interessam por conhecer a vida judaica é, inevitavelmente, o Museu de Arte e História do Judaísmo (http://www.mahj.org/), que sempre está com alguma nova exposição, além das mostras permanentes, e possui uma boa loja. Mas, em seu entorno, há muitos outros locais a serem percorridos, já que está localizado no Marais, tradicional bairro judaico-parisiense, cujo significado é pântano. Isso mesmo, os judeus se estabeleceram em Paris, ou na época Lutece, região pantanosa e habitada pelos parisi (pescadores). Sem direito a possuir terras, chegam em barcos e ali se estabelecem tendo como atividade principal, o comércio. Sob o reinado de Philippe Auguste, o rei da 3ª Cruzada e das grandes e significativas benfeitorias de Paris.
Mas, o governo do monarca chama atenção pelas muralhas que manda erguer para separar os que não comungassem de suas diretrizes, entre esses, os judeus. Em uma das torres remanescentes, ainda é possível encontrar marcas dos pedreiros como uma espécie de recibo, indicando seu trabalho diário. Mas, é nesse lado de fora, extra-muros, que floresce a vida judaica.
Entre os séculos 14 e 16, a aristocracia toma conta do Marais, vivendo em belas casas, separadas uma das outras a cada quatro janelas, formando juntas um quadrado, e tendo ao centro, a Place Royale, antes cenário de batalhas, hoje de uma beleza inigualável, e conhecida agora como Place des Vosges. Dentro dessa proposta urbanística, as pessoas optam por ocupar os primeiros andares das construções para moradia, deixando o térreo, para as lojas. Assim, as pessoas podem fazer compras abrigadas das intempéries climáticas. Seguindo pelas estreitas ruazinhas, somos surpreendidos na passagem Eginhard, com um monumento erguido pela sobrevivente Sara Zajdner ao seu pai e irmãos, vítimas do nazismo, no jardim de um prédio. Da janela do apartamento de Sara, que foi recuperado após a vitória dos aliados, é possível avistar esse pequeno mais emocionante monumento com suas fotos e uma dedicatória às suas memórias, erguido 50 anos após terem sido deportados.
Mais adiante, chegamos ao pletzl. A Rue des Rosiers é um convite aos mais exigentes paladares, lá temos charcuteries, patisseries, ou seja, podemos desfrutar desde o borscht da vovó ao falafel. Mas, sem dúvida, vale muito a pena, provar as deliciosas tortas.
Mas, Paris reserva outras opções, os memoriais, que lembram episódios trágicos da história do judaísmo: o do Mártir Judeu Desconhecido, no 4° Arrondissement, ou o Memorial de Drancy, na região Seine-Saint-Denis.
No âmbito religioso, Paris nos surpreende. A famosa Notre-Dame, um dos cartões postais da cidade, curiosamente, também é considerado um ponto turístico judaico! Sim, porque sua construção, na fronte, guarda duas imagens, uma da Igreja e outra da Sinagoga, para quem quiser ver, estão bem ali. Mas, quanto às sinagogas, há mais de cem, se for o caso de escolher, opte pela Grande Sinagoga de Paris, na rue de la Victoire, ou pela sinagoga da comunidade Ortodoxa de Paris, situada na rue Pavée.
Como pode se ver a comunidade judaica da França, estimada em cerca de 500 mil pessoas, sendo que 350 mil delas vive em Paris e arredores, estabeleceu-se em solo francês há muitos anos.
Os primeiros registros apontam sua presença a partir do 1º século. Outros fluxos migratórios, quase sempre motivados por perseguições, tiveram origem na Espanha e em Portugal, nos séculos 9, 10 e 15; na Alemanha, Europa Central e Oriental, Turquia e Egito nos séculos 19 e 20, ou, mais recentemente, na Argélia, Tunísia e Marrocos, entre 1957 e 1964.
Hoje, só em Paris, há mais de 20 instituições de ensino judaico. A maioria das universidades oferece cursos de estudos judaicos, incluindo os de língua iídiche, ladina e hebraica. Há veículos de imprensa e programas judaicos em francês, companhias de dança folclórica israelense, eventos etc. Todas as entidades judaicas francesas estão sob o guarda-chuva da Conseil Representatif des Institutions Juives de France (CRIF), fundada em 1944. O Consistoire Central é o corpo responsável pelos assuntos religiosos da comunidade, o qual está sujeito ao Beit Din (Tribunal Rabínico) e ao Grão-Rabino Joseph Sitruk. Mesmo existindo essa intensa vida judaica, os dados apontam que nos últimos anos, houve um maior incremento no turismo de judeus franceses a Israel, e também de aliá (imigração).
Agradecimentos: Maison de la France-Brasil (http://br.franceguide.com/), Historical Experience (www.thehistoricalexperience.com) e Hotel Littre (http://www.hotellittreparis.com).
* Silvia Perlov é jornalista e assessora de imprensa em São Paulo.