Já faz um ano que deixei a Presidência da Kehilá, onde fiquei dois anos e meio, e me deu vontade de escrever. Para contar histórias, desabafar e talvez inspirar outras pessoas. Falar desse tempo que me traz lembranças indeléveis — um misto de alegrias e de grandes desilusões.
Participo da vida da coletividade há 60 anos, desde que cheguei a Curitiba. Primeiro como freqüentadora da biblioteca, na sede da Cruz Machado; das festas religiosas, acompanhada de meus pais, irmão, tios e avós; dos bailes de Iom Kipur; da Wizo Juvenil, mais tarde Wizo. Participei do Dror, fui colaboradora dos primeiros números de O Macabeu, fui da diretoria do grêmio, trabalhei na Escola Israelita Salomão Guelmann. Depois, namorei, casei e a convivência com a família do Mauricio, meu marido, que teve seus dois avós, seu pai e seu irmão como presidentes do CIP, me incentivou a continuar participando.
Nestes mais de 50 anos de casamento, o Mauricio e eu colaboramos com tudo: nas discussões para a constituição da Kehilá, do empreendimento imobiliário no terreno da Lourenço Pinto, e da venda do prédio para a GVT. Fui presidente do Conselho da Federação, que tinha a representação externa da nossa colônia, bem como perante as comunidades dos outros estados e da Confederação Brasileira.
Na Presidência da Kehilá de Curitiba tentei realizar um sonho que se tornou uma ilusão: eu pensava que se tivéssemos o mesmo conforto e programação dos grandes clubes, teríamos maior adesão de nossos sócios dispersos, principalmente da juventude. Hoje, vejo que estava enganada. Não sei o que as pessoas querem.
Aprendi, porém, que se você tem projetos bem definidos e orçamento detalhado, vai com certeza encontrar alguém sensível para contribuir para a sua execução.
Minha primeira experiência de maior escala foi há mais de 15 anos, com a chegada do rabino Moguilevsky. Convidei muitos engenheiros da coletividade para comer bolo de chocolate na minha casa. Todos compareceram. Expus meu plano de reformar a sinagoga, que estava literalmente "acabada". Não só ajudaram como todas as pessoas que procuramos doaram tudo o que faltava. Antes, eu já havia feito uma coleta para os vitrais do Poty. Imperdoável da minha parte não ter feito uma placa dos doadores. Um dia acho a lista! Quanto aos engenheiros, juram que nunca mais aceitam comer bolo de chocolate na minha casa!
Conto tudo isso para justificar para mim mesma porque me meti na Presidência da Kehilá. Talvez tenha sido pelo exemplo dos que já fizeram, talvez para demonstrar que querendo é possível fazer, ou talvez para deixar mais um degrau àqueles que vierem depois, para que possam continuar subindo. Sei lá. Só sei que entrei com o coração aberto, vencendo antigas desavenças, cercada de um grupo maravilhoso de pessoas com quem contei em todas as horas.
Demos prioridade à sinagoga, que novamente havia "desmontado". Refizemos a mikve. E começamos a luta por completar o que faltava na reforma do clube, na verdade o necessário para “a casa funcionar”. Já estava tudo lindo, mas ainda faltava completar os acabamentos. Precisávamos terminar a cozinha, iniciada com uma doação que eu mesma havia conseguido. Louças, copos, talheres, réchauds, utensílios, toalhas; proteção da área da cantina; máquina para fazer chalá; ampliar e colocar antipó no estacionamento; ar condicionado para o salão multiuso; guarda-chuvas para os três cemitérios; sala para cinema e palestras, com equipamento para receber ensino à distância; um elevador para o nível da biblioteca. Ganhamos um belo jardim para a entrada do clube. Renovamos os guarda-sóis da piscina com um doador anual e reformamos até as cadeiras. Ainda devo ter esquecido alguma coisa!
No aspecto administrativo e financeiro resolvemos muitas multas. Descobrimos que os terrenos da sede com suas construções, tendo sido comprados ao longo dos anos, não tinham sido homologados, não havia unificação nem a aprovação das construções perante o Registro de Imóveis e a Prefeitura. Também junto a outros órgãos públicos faltavam registros para obtermos todas as certidões negativas do CIP. Investimos uma fortuna na necessária regularização de tudo isso.
Fizemos o possível para ajudar a escola, reformando, por exemplo, toda a instalação do prédio contra incêndio, através de uma doação de um empresário de Curitiba, hoje morando em São Paulo.
Na construção do cinema percebeu-se que o telhado original da antiga sede do CIP erguida há 65 anos, estava comprometido e com muitas telhas quebradas. O engenheiro responsável pela obra sugeriu que em vez de acabamento em gesso fosse feita uma laje de concreto. Dessa forma ganhamos a possibilidade de ter outra sala de dimensão igual à do cinema. Por isso, foi feita uma reforma completa no telhado com isolamento e reforços, além da confecção de uma estrutura metálica intermediária para suportar a nova área a ser utilizada no futuro, na parte superior do salão. Este espaço está pronto, faltando apenas definir seu acesso para dar o uso adequado. Claro que isso custou bem mais do que estava previsto no nosso orçamento. Fui muito bem recebida por um empresário, que na mesma hora entendeu aquela oportunidade única e fez uma doação, mas ainda assim, tivemos que retirar dinheiro das nossas reservas para finalizar a obra.
Houve necessidade de colocar piso antiderrapante na Praça da Sinagoga Francisco Frischmann. Começamos também, finalmente, a reforma dos cemitérios. A capela estava num estado lastimável. Várias pessoas fizeram doações, inclusive de material e de novas cadeiras.
Minha maior realização foi ter obtido com os membros da coletividade a totalidade dos recursos que pedi, evidenciada pela adesão e a generosidade de todos que foram solicitados. Ninguém, ninguém mesmo se negou a ajudar. Isso foi muito gratificante. Não creio que aqui seja o melhor lugar para listá-los, mas cada um sabe o que deu e para o quê. Mais uma vez agradeço a todos.
Porém, nem tudo são flores (que, aliás, eu comprava com o meu dinheiro, para enfeitar a cantina e o refeitório). O orçamento inicial da reforma do cemitério mostrou-se insuficiente, pois surgiram muitos problemas durante a obra. Estava tudo deteriorado, por isso o trabalho não foi concluído e ainda ficou muito para se fazer. Afora o fato que, ao administrar um clube, nunca se sofre de monotonia, pois sempre aparece uma surpresa: é a caixa d’água que fura, o muro que cai, a rede telefônica que pifa. Isso também é uma lição que não podemos esquecer. A palavra é MANUTENÇÃO. Não podemos deixar as coisas desmantelarem; custa muito mais caro depois.
E não posso deixar de mencionar aqui um acontecimento que perturbou muito a minha gestão. Foi-nos solicitado, pelas nossas lideranças comunitárias, que a Sinagoga Francisco Frischmann passasse a ser utilizada apenas nas grandes festas, em casamentos, bar-mitzvás, bat-mitzvás e outros eventos de grande público. Durante o resto do ano os serviços religiosos deveriam passar a ser realizados no CIP. Assim, improvisamos instalações para a sinagoga funcionar no clube e reformamos a sala de reuniões da Kehilá e da Presidência para uso do guia religioso e também do Departamento Religioso.
Ocorre que esta mudança desagradou a uns, pois fez com que o guia religioso passasse a cumprir regras funcionais. Tais regras dizem respeito ao cumprimento de horários, uso de telefones, celulares, computadores e tudo o mais que acarreta despesa, além de atenção ao trabalho. Hoje, quando olho a galeria de fotos dos ex-presidentes do CIP, penso em quantas pessoas já trabalharam pela nossa coletividade nestes quase 95 anos. Vejo rostos de tantos que fizeram e que foram auxiliados por outros que não estão nas fotos, mas mereciam estar. Imagino o esforço de cada um na tarefa de convencer os sócios do que seria melhor realizar naquele momento. Penso até naqueles que, mesmo não fazendo, nunca deveriam perder o direito que têm — como membros da comunidade — de externar sua opinião contrária, mesmo quando se vêem ofendidos e decidem se retirar em vez de se defender.
Penso também na nossa decisão, acertada, de incorporar todas as instituições à Kehilá. O que não consegui prever é que um dia certas lideranças de algumas destas diretorias só aceitariam o comando único quando assim conviesse, e que continuariam agindo como se fossem independentes. Nunca imaginei que um membro da diretoria da Kehilá chegasse a ser desrespeitado por outra liderança dentro da nossa comunidade, apenas por estar cumprindo com o seu dever. E, no entanto, foi o que aconteceu comigo e com minha família. Fomos desrespeitados apenas porque eu estava fazendo o que tinha que ser feito como presidente da Kehilá.
Aproveito a oportunidade para agradecer a todos pela confiança, por ter sido a primeira mulher a ocupar a Presidência da Kehilá. Sei que muitos não entenderam e nem foram devidamente informados sobre muitos detalhes internos da nossa gestão. Estou à disposição de todos os membros da coletividade para conversar sobre aquele período, sempre que desejarem. E, finalmente, quero deixar registrado que fico feliz por eu e minha diretoria, termos sido sucedidos por pessoas com grande interesse na continuidade da nossa Kehilá. Porque, apesar de tudo, a dedicação a uma comunidade da qual fazemos parte, sempre vale a pena.
* Martha Schulman, ativista de intenso trabalho comunitário ao longo de sua vida, foi a primeira mulher a presidir a Kehilá do Paraná.