O terceiro patriarca, que viveu entre os séculos 19 e 18 a.e.c., teve uma vida marcada pelo conflito. Conta-nos a Torá que desde a vida uterina Iacov (Jacób) já lutava com seu irmão Esav (Esaú). Com ele, também, brigou pela primogenitura e, por ela, enganou o velho pai. Fugiu do seu irmão. Viveu afastado por anos antes que pudesse reencontrá-lo. Para casar foi um drama. Teve que se submeter ao caráter de seu sogro e tio, Lavan, que, como o nome já anuncia, era um homem sem cor, isto é, faltava-lhe um caráter digno. Humilhado por ele, trabalhou vinte anos até que pudesse ficar com a sua amada Rachel. Na velhice assistiu o ódio entre seus filhos e sofreu a dor do afastamento de seu filho Iosef (José).
Iacov não foi um santo. Aproveitou do caráter impulsivo do seu irmão para tirá-lo do direito à primogenitura. Tramou com sua mãe, enganou o seu pai. Tratou sua esposa Leah com desprezo embora, ela tenha sido a mãe de quase todos os seus filhos.
Ao mesmo tempo em que Iacov vivia os seus conflitos familiares, ele sonhava. Estendeu uma escada até D-us. Lutou com um anjo e recebeu um novo nome, Israel. Assim como seu avô Avraham (Abrahão), por seus méritos, também recebeu de D-us um novo nome.
Este homem, com uma vida de lutas e conflitos familiares, com um comportamento ambíguo — o de enganar seu irmão e ao mesmo tempo elevar uma escada até D-us, é o mesmo que deu nome a um povo, Israel. Também foi ele o primeiro patriarca a estabelecer marcas de propriedade na terra de Canaã. Portanto, foi a partir de Iacov que começou a se moldar o povo judeu, com a atribuição do nome, da identidade e o reconhecimento de pertinência a uma família; e, com a conquista da cidade de Salem, o território de Israel passou a ser reconhecido como propriedade de um povo. E foi, também, Iacov que se fez enterrar junto a seus pais, estabelecendo uma relação de continuidade do pacto com D-us.
O texto da Torá que descreve a vida de Iacov e sua família é, conforme podemos deduzir pelos inúmeros textos dos comentaristas judeus, uma chave para compreender o papel do judaísmo no mundo. Desde o nascimento dos irmãos Esav e Iacov há uma alusão ao futuro do povo de Israel. Assim, o fato de Iacov segurar o calcanhar de seu irmão no momento do nascimento, significa, segundo os comentaristas, o conflito ideológico que se estabeleceu entre dois os povos que descendem dos irmãos. Ou, também, pode significar, impacto que a ética judaica traria, futuramente ao mundo pagão.
O Rav Menachem Diensendruck z”l, em um dos seus sermões, interpretou a luta entre os irmãos como resultado do caráter orgulhoso de ambos: Iacov é aquele que se orgulha do seu mundo, do seu cosmopolitismo e, Esav, se orgulha do seu espírito imperialista e dos seus exércitos bem armados e prontos para a luta.
A história do patriarca Iacov está marcada por simbolismos. Eles apontam para o futuro do povo de Israel e também, indicam muito da sua personalidade. Aqueles que lêem a história do patriarca com os olhos da fé, certamente percebem a bela trama de atos divinos e humanos, e aqueles que a lêem com uma visão cética, percebem como o povo de Israel foi se fixando em sua terra e o quanto sua a ética judaica era conflitante ao mundo antigo. Seja por uma maneira de ler ou por outra, não há dúvida de que o texto indica o quanto há de único no judaísmo e as implicações que isso traz à vida judaica, tanto para vida individual, comunitária, ou com os não judeus.
* Antonio Carlos Coelho é professor, diretor do Instituto de Ciência e Fé e colaborador do jornal Visão Judaica.