O desagradável passeio pelos Kassam
Por: Nahum Sirotsky *


Na tarde de sexta-feira, o dia sagrado dos muçulmanos — o shabat judeu começa ao anoitecer —, um amigo me convidou a um passeio pela área onde caem os mísseis Kassam. Desde a guerra com o Hezbolá libanês — excetuando caminhadas pelo meu querido e decadente Rio de Janeiro, no começo de 2008 – não sentia a sensação de perigo que se tem em zona de guerra.
É mesmo diferente. Fica-se atento como um cão de guarda, sempre desconfiando de todos os rumores. "Será agora?" Não sou sádico, nem  masoquista. Nem São Francisco. No entanto, tenho estranhas boas relações com animais. Descobri um dia, há muito na floresta amazônica, que medo tem seu cheiro. Me vi cara a cara com uma magnífica onça (juro ser verdade).
Foi tão rápido que não deu tempo de sentir nada além de admiração. Pena que meu companheiro de aventura, o baixinho fotógrafo amazonense Nestor Leite, de O Globo, que muitas vezes salvou minha vida, já era hóspede do Paraíso.
Lá estava ele. E o gato, obviamente, não tinha fome. Sem necessidade de se proteger, lá se foi. Bichos só atacam quando se sentem ameaçados. Só o homem vai à caça de outros como o inimigo politicamente assim identificado.
O passeio levou-nos pelos campos bem cuidados de Israel, ao lado de bosques de árvores plantadas pelo homem em vastas áreas reflorestadas em zonas desérticas por séculos. Mas, na medida em que nos aproximávamos das regiões-alvo dos Kassam, a curiosidade transformava-se em ansiedade. E ouvimos explosões. Barulhentas. Poom, poom.
Enquanto cruzávamos ótimas rodovias no que se chama de Portas do Neguev, cada poom ecoava na barriga, o que quer dizer, claro, que nada nos acontecia. Os conflitos e guerras, óbvio, só podem ser narrados pelos sobreviventes, isto é, com opiniões
opostas.
Na linguagem jornalística "notícia dormida" é a que já foi superada por outra. Em bons exemplos daqui, os Kassam de ontem. Aí, de casa, as revelações de atos de corrupção. Porém, em ambos os casos, monótona e dolorosamente atualizadas.
"Israel precisa se preparar para um grande desastre causado pelos Kassam, que
poderiam atingir as usinas de eletricidade de Ashkelon ou os depósitos de produtos químicos na proximidade", altos oficiais militares preveniram na quinta-feira (Jerusalem Post, diário em inglês de Israel, 9/2/2008). E "a censura militar proibiu a publicação
do exato local dos alvos para não ajudar os palestinos a aprimorarem seus lançamentos".
No mesmo jornal e dia, o Ministro de Infra-estrutura disse ao JP que o Kassam é arma primitiva, mas pode destruir o que atinge. E de Ashkelon vem a eletricidade de metade do país, além de muita coisa mais que vimos no passeio. Como a pequena cidade
fronteiriça de Sderot, onde vive o ex-Ministro da Defesa e gente de baixa classe média, além de operários, alvo diário e freqüente dos ataques, onde a população tem a doença de pânico.
As forças armadas de Israel admitem que não conseguiram desenvolver meios eficazes de defesa contra "uma arma estúpida e primitiva, nada comparável ao poder de matar e destruir dos homens-bomba".
Na história de guerras e conflitos aprende-se que sem o infante ir lá, o inimigo na zona dele plantar sua bandeira, não há vitória. A não ser como no exemplo americano da 2ª Guerra, empregar a arma final, a nuclear.
Mas, no passeio, além do medo em que vivem, as populações locais sentem-se abandonadas. Os Kassam não param, apesar do máximo que as forças armadas fazem, que certamente infernizam a vida do milhão e meio de palestinos que habitam Gaza. As organizações político-militares-religiosas de Gaza não se deixam afetar e atacam.
Tudo isto só pode acabar mal. Estimo.

* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e do Último Segundo/IG em Israel. A publicação exclusiva desta coluna tem a autorização do autor.