Árvore de Anne Frank escapa da serra elétrica
Por: Cadi Fernandes *



As árvores morrem de pé. Com dignidade. Mesmo que tenham entre 150 e 170 anos, 27 toneladas e um fungo letal que lhe corrói os "ossos". É o caso do castanheiro de Anne Frank, bem no centro de Amsterdam — a árvore que a jovem holandesa judia olhava, quando escondida, durante 25 meses, num sótão, com a família, para fugir à insanidade nazista (1939-45).
Podem aqueles troncos ser história? História? Podem. Assim o entendeu um grupo de empenhados cidadãos holandeses, que, depois da hipótese ser aventada em 2007, mobilizou esforços nacionais e internacionais para impedir a morte da árvore, com recurso da serra elétrica.
Espécie de meu — dela — pé de laranja-lima, ao qual tudo se desabafa, mas numa versão real e trágica (Anne Frank acabaria por morrer no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha), o castanheiro foi salvo in extremis. Ao contrário da sua menina, cujos dias alegrava, e que acabaria por morrer vítima de tifo.
Mantê-la viva durante, pelo menos, mais cinco, dez, 15 anos, no máximo, vai custar caro, mas não têm preço estas palavras: “Quase todas as manhãs vou ao sótão tirar a poeira dos meus pulmões. Do meu lugar favorito no chão, olho para o céu azul e o castanheiro desfolhado, em cujos galhos brilham pequenas gotas de chuva, como prata, vejo ainda gaivotas e outros pássaros que deslizam no vento. Enquanto isto existir, e quero viver para ver, estes raios de sol, o céu azul — enquanto isto durar, não poderei ser infeliz”.
Custar caro significa o quê? Isto, que sairá dos bolsos da Fundação de Apoio à Árvore de Anne Frank: 50 mil euros, para uma estrutura metálica que manterá a árvore de pé; 20 mil euros para os cuidados necessários e outros dez mil anuais para a manutenção. Entretanto, várias amostras do castanheiro foram já retiradas, por forma para deixá-las crescer numa espécie de berçário, para o caso de ser imperiosa sua substituição. Concomitantemente, vão ser testados alguns medicamentos suscetíveis de matar o agente causador da infecção, que a deixou parcialmente podre.
Para este desfecho foi necessária a arbitragem legal. De um lado, ecologistas e guardadores de memórias, ecologistas ciosos; do outro, o proprietário, em cujo jardim a árvore se agigantou, temendo a queda e eventuais danos humanos e materiais; no meio, o douto magistrado. Que, sensibilizado, decidiu: salve-se!

* Cadi Fernandes é jornalista de origem angolana e escreveu este texto publicado originalmente em português no Diário de Noticias, de Portugal.