Passeio noturno em Safed (Tzfat)
Por: Sérgio Feldman

Em 1981 fui participar de um curso em Israel na Universidade Aberta (Open University) em Ramat Aviv. O programa era interessante e versava sobre uma mescla de metodologia de ensino a distância e conteúdos de um dos projetos de teor judaico da Universidade Aberta. O eixo deste programa era a transformação do Judaísmo rabínico no Judaísmo Contemporâneo em todas as suas vertentes. Éramos quatro brasileiros: Abraão Zweiman (da Faculdade Renascença e hoje atuando na Chevra Kadisha de São Paulo), Adam Zybowski (não sei se a grafia esta correta) pelo Rio de Janeiro, Ketty Ritter de Porto Alegre, e eu, Sergio Feldman. O grupo era composto por muita gente culta, interessante e dotada de saberes judaicos, universais. Uma troca de experiências preencheu nosso cotidiano durante o curso. Tínhamos até um rabino entre nós, sefaradi e muito bem humorado. Ele nos ensinava história e estórias de todos os tipos: midrashim, contos idish, contos sefaradim e muita experiência de vida. Nos passeios em Jerusalém alternávamos conversas e experiências diversas relativas à Cidade Sagrada. Algumas vezes saíamos à noite, contrariando as normas do programa, mas nunca ousamos ir a Cidade Velha em passeios semiclandestinos. Seria uma idiotice andar pela Cidade Velha sem proteção e se arriscar a sofrer um atentado.
Num de nossos passeios noturnos fomos a Mishkenot Shaananim, que é um conjunto de casas edificadas por sir Moses Montefiore, nobre judeu-britânico, para alocar populações judaicas, fora das muralhas da Cidade Velha. Seria um dos núcleos da formação da Cidade Nova de Jerusalém, portanto, localizada no lado leste do vale de Hinnon, com uma maravilhosa vista diurna ou noturna das muralhas e do monte Sion. Ali ficamos extasiados com a beleza das muralhas e com o magnetismo da Cidade Velha. Mas faltava um pouco de mística. Apesar do frio no local, matutamos se pedras e edifícios têm espiritualidade. Não houve consenso: o Muro das Lamentações foi o motivo central do debate. O que vale, são as pedras? Ou é a História “colocada nas frestas das pedras”? Ou são as pessoas que passaram por ali e deixaram um legado, uma memória, indícios de uma experiência religiosa e espiritual? Não se chegou ao final do debate.
Uma semana depois viajamos a Safed, na Galiléia. Tivemos sorte, pois nevava na metade do caminho e a cidade estava com os telhados assemelhando-se a anciões grisalhos. O branco se mesclava no plúmbeo das pedras escurecidas pelo tempo. A cidade estava vazia. Era sexta-feira e após o anoitecer as sinagogas se esvaziaram depois das orações, e os fiéis se protegeram no manto do descanso sabático, e nas suas moradas. Um silêncio perpassava a rua às 23 horas. Havíamos jantado e a ordem era de recolher. Dormir cedo, pois no dia seguinte faríamos um tour pelas partes históricas, participaríamos das orações matinais e após o almoço visitaríamos os ateliês dos artistas. Tudo seria andando e nada de automóveis para não profanar a sacralidade do Shabat e da cidade. Os componentes do grupo foram se retirando e só ficamos na sala do hotel três pessoas: eu, Adam e Ketty. Adam logo propôs: “Aqui não há população mista e não há riscos de se sair a noite”. Ketty ficou apreensiva. E eu não hesitei: “Vamos descobrir os segredos da cidade sagrada, na noite sagrada do Shabat”. Decidimos sair às escondidas e só falamos alguma coisa para o porteiro da noite, que não se incomodou. Não havia nenhum ser humano fora de casa, salvo algum vigia ou policial.
A cidade estava iluminada. A neve reluzia à luz do luar. Havia uma aura mágica em cada recanto, por mais insignificante que fosse. Não chovia e nem nevava mais. Um silêncio milenar acariciava o ar e calava a noite. Falávamos em voz bem baixa, quase balbuciando. Fomos à rua principal, uma via circular que circunda a montanha. Nenhum carro passava. Resolvemos ir até as sinagogas. Algumas fugiam da nossa curiosidade, pois não se podia ver o interior, já que tinham vidraças altas e inacessíveis. Outras estavam totalmente iluminadas e se podia ver o seu interior. A iluminação interna na sinagoga se explica, pois os judeus ortodoxos não fazem fogo novo e não acendem ou apagam suas luzes durante o Shabat. Alguns usam do recurso do timer, um dispositivo em forma de relógio acoplado a cada luz, programado para apagar e acender certas luzes durante o Shabat. Muitos judeus ortodoxos não concordam com este recurso e simplesmente deixam as luzes acesas em certos cômodos de suas casas durante todo o Shabat. O mesmo se dá nos recintos de muitas das sinagogas.
Estas sinagogas brilhavam na noite nevada: luz externa da neve e luz interna das lâmpadas deixadas para fazer o Shabat fulgurar. Somente três pessoas passavam pela rua naqueles momentos: eu, Adam e Ketty. E a imaginação chegou ao auge na sinagoga do Ari Ha Kadosh. Quem foi Ari? Seu nome era Rabi Itzchak ou Isaac Luria. Místico e cabalista renomado. Autor do livro da Halachá (normas litúrgicas e do cotidiano) denominado “Mesa posta” ou “Shulchan Aruch”. Um manual de atitudes e posturas certas que devem reger a vida de um judeu praticante, em todo o seu dia-a-dia, seja na sinagoga, seja na vida particular. Além deste livro, foi profundo estudioso da mística judaica. Sua análise do acidente da Criação e seu conceito de Tikun Olam ou “conserto do mundo” influenciou desde místicos a revolucionários que laicizaram estas definições e fizeram um remake do conceito de Tikun Olam.
O rabi Isaac Luria estava lá em sua sinagoga de Safed, rezando naquela noite. Não em sentido racional e nem em sentido literal, mas em sentido alegórico. Nós não o vimos na amplitude física: o percebemos na amplitude espiritual e mística de um ser humano que deixa esta dimensão carnal, mas demarca um espaço, um tempo e uma memória coletiva com sua presença marcante. Luria nos olhava de dentro da sinagoga fechada e iluminada. Pensamos que pessoas racionais e quase descrentes não pudessem imaginar e vivenciar experiências místicas. A neve, a luz interior e a paz gerada no silêncio da noite e da cidade esvaziada pelo frio propiciaram-nos imaginar e sentir na nossa “alma” esta rica experiência mística.
Fomos para o hotel e perdemos a hora do café. O passeio foi monótono: como apreciar a sinagoga cheia de judeus que rezavam sem kavaná (intenção) e de maneira mecânica, depois de ter visto a reza “invisível” e mística do rabi Isaac Luria, o Ari Ha Kadosh.

Texto escrito em homenagem ao 18º aniversário de minha filha Marina e, na véspera de sua viagem a Israel.

* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.