Monte Castelo e a Negação do Holocausto

Israel Blajberg *


 

As datas são próximas, guardando profundo significado comum: 27 de janeiro, Dia Internacional da Recordação do Holocausto, fixado pela ONU; 21 de fevereiro, Tomada de Monte Castelo.
62 anos se passaram daquela manhã cinzenta. Após quatro tentativas, os pracinhas brasileiros acostumados com o sol dos trópicos finalmente tomaram o Monte Castelo, em meio às tempestades de neve dos Apeninos.
Foi uma vitória da cidadania brasileira, a resposta ao mito da raça superior dada firmemente pelos nossos pracinhas de todas as origens e procedências, que ajudaram a derrotar o nazismo na Europa conflagrada. As teorias nazistas ruíam diante das fileiras de prisioneiros louros arianos escoltados pelos nossos mulatos, pardos, bugres, índios e ibéricos ...
Os alemães já não são mais inimigos, até houve tempo em que quase todos os carros nas ruas brasileiras eram VW, o carro que deveria estar nas garagens de cada família alemã... Concebido pela mesma tecnologia que criou o gás Zyklon B.
Por absurdo, nos dias que correm, cinicamente alguns poucos se atrevem a negar que os nazistas cometeram tantas atrocidades. Ressalve-se que nosso país posicionou-se contra estas inverdades, por nota oficial do Itamaraty. Atitude louvável, diante da ofensa que atinge também aos heróis da Forca Expedicionária Brasileira, na Itália tendo lutado justamente contra os autores daquelas barbaridades.
Na esteira da negação do Holocausto vem a discriminação. Também contra negros, nordestinos e outros grupos se volta o preconceito.
Assim como Monte Castelo não foi apenas uma vitória militar, e sim da nação brasileira, a luta de hoje continua a mesma de seis décadas atrás. Trata-se da defesa da cidadania, contra os que teimosamente defendem a mesma ideologia equivocada.
A cada 21 de fevereiro, mais uma vez os últimos pracinhas se perfilam diante do singelo Monumento ao Mortos da II Guerra Mundial, no Aterro do Flamengo, onde repousam heróis brasileiros e estão inscritos os nomes dos para sempre desaparecidos no mar pelos torpedeamentos de nossos navios mercantes pelos submarinos alemães.
Aos poucos vão chegando, alguns vagarosamente, curvados pelo peso dos anos, com suas boinas e braçadeiras, cabelos brancos, vem prestar a homenagem aos companheiros que não voltaram. Com orgulho, levantarão ao vento os antigos estandartes.
De repente, uma esquadrilha de jatos F-5 da FAB corta os céus a baixa altura, dando um último adeus aos que não voltaram. Na fuselagem pintada de verde escuro ostentam o símbolo do Esquadrão Senta a Pua, que combateu nos céus da Itália.
As pessoas se assustam com o estampido sônico. Apenas alguns, mais rápidos, ainda conseguirão divisar ao longe os jatos ligeiros retornando de volta para a Base Aérea de Santa Cruz, a casa do 1º Grupo de Caça.
A cerimônia termina. Os pracinhas voltam para casa. A memória dos feitos da FEB na Itália é uma das glórias da Cidadania Brasileira.
Construir um Brasil grande passa por reverenciar nossa História de lutas.
Seguir o exemplo dos Veteranos será a maior homenagem que poderia ser prestada aos heróis e mártires do Holocausto e aos pracinhas de Monte Castelo.

* Israel Blajberg é professor e engenheiro, membro da Associação dos Ex-Alunos CPOR/RJ e integra a equipe que levantou os Heróis Brasileiros Judeus da II Guerra Mundial.(iblaj@telecom.uff.br).