Origem do Carnaval
Muitos séculos antes do Carnaval brasileiro ser conhecido como “o maior espetáculo da terra”, algumas festas de características semelhantes faziam parte do calendário de civilizações antigas.
Egípcios, babilônios, gregos, romanos e judeus tinham um lado “folião” que deixavam aflorar todo ano. Comemorações animadas por música, dança e uma dose de libertinagem, celebravam o fechamento de um ciclo, geralmente ligado à agricultura. Ao contrário do que possa parecer, porém, nestas civilizações o “carnaval” sempre teve uma ligação com o sagrado.
Na Antigüidade: “Uma vez por ano, é lícito enlouquecer”
O primeiro foco de concentração carnavalesca se localizava no Egito. No período do plantio, os egípcios promoviam uma festa em homenagem à deusa Ísis, protetora da natureza. Dançando, brincando e festejando, acreditavam que as sementes nasceriam e os frutos seriam bons. Na lenda, Ísis mata o amante Osíris depois que ele sacia seus desejos. Na vida real, os egípcios se entregavam a um breve período de euforia e depois retomavam a vida cotidiana. A festa era dança e cantoria em volta de fogueiras. Os foliões usavam máscaras e disfarces simbolizando a inexistência de classes sociais.
Entre os babilônios, o advento da primavera era comemorado com uma festa em homenagem ao deus supremo Marduk. A escravidão era abolida temporariamente e um “rei extraordinário” era empossado para “governar” durante os 11 dias da festa. A diferença do “nosso Rei Momo” é que, após realizar todas suas fantasias, este monarca era açoitado e sacrificado no final da festa.
Em suas viagens, os gregos entraram em contato com os egípcios e assimilaram a festa da semeadura. Os bacanais e lupercais, que depois foram “importados” pelos romanos, tinham ligações com fases agrícolas e cultuavam o prazer. Eram períodos de fartura, bebedeira, dança, música e liberação sexual. O bacanal era o culto de Dionísio (Baco, para os romanos), deus perturbador da ordem estabelecida, responsável pela origem da vida, da alegria e dos prazeres. Nas lupercais, o homenageado era Pã, deus dos bosques, dos pastos e dos rebanhos.
As saturnais romanas foram as festas mais importantes da Antigüidade clássica. Os 7 dias do culto a Saturno, deus protetor da agricultura, eram escolhidos em dezembro. Sob o lema smel in anno licet insanire (uma vez por ano é lícito enlouquecer), a ordem era viver alegremente, comer muito e extravasar os instintos normalmente recalcados.
Carnaval na Antigüidade e Purim
Para os judeus, no final do inverno (em fevereiro ou março), a festa de Purim é comemorada com festas, uso de fantasias e trocas de presentes e guloseimas. O Talmud recomenda que nesse dia se beba vinho ad lo Yeda (até não ser possível distinguir o bom do mau).
Um aspecto que se destaca em Purim, como outras festas judaicas, é a sua permanência até nossos dias, através dos tempos e das culturas entre as quais os judeus viveram, tendo adquirido assim coloridos locais.
Podemos identificar em Purim a celebração da ausência de classes sociais, como entre os egípcios, além do período de euforia entremeando o calendário de uma vida normal. Impossível não destacar a semelhança entre Marduk e Mardokeu (Mordekhai), respectivamente deus babilônico e herói da festa judaica. E a do seu governo como “Rei Momo” histórico e lendário (até o sacrifício babilônico deste e a forca de Haman). O próprio período de celebração (prenúncio da primavera no hemisfério norte) é o mesmo. A dança, a fartura e a bebedeira greco-romana diferenciava-se da judaica por limites morais determinados pelos rabinos. Mas pode-se identificar smel in anno licet insanire com Ad lo Yeda...
Purim passou a ter, infelizmente, tanta importância na História Judaica através dos tempos, que existem "Purims" especiais (para comunidades que em vários lugares, no espaço e no tempo, conseguiram sobreviver a tentativas de extermínio), o que traz uma sempre e renovada oportunidade de comemorar a sobrevivência milenar judaica.
Uma curiosidade: dizem os sábios rabínicos, que após a chegada do Messias, só a festa de Purim permanecerá.
* Jane Bichmacher de Glasman é escritora, doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica, professora adjunta, fundadora e ex-diretora do Programa de Estudos Judaicos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ.