Eu sempre tive uma atração muito grande pela Espanha. Pelo lado judaico e pelo lado não-judaico dessa região que abrigou uma diversidade de culturas, povos e religiões e pela riqueza gerada por este encontro de culturas e religiões.
No Oriente Médio já ocorrera o encontro de três religiões, a saber, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Estas religiões têm em Israel e em Jerusalém, um dos marcos de referência. Jerusalém é uma das minhas especialidades e sem dúvida, o meu grande amor. Este é o tema de meu artigo, da edição de dezembro, que prosseguirei na próxima edição. Por um lapso meu, nas férias acadêmicas, deixei-o escrito no meu computador de Vitória (ES). Para compensar meu descuido, farei a devida “penitência”, e escreverei sobre meu segundo amor: Sefarad. Sem “trair” a paixão devotada por Jerusalém, farei meu discurso de amor, pela minha outra amada: Sefarad.
No livro de Obadias (cap.1, vers. 20), um dos profetas menores, há uma breve citação que fala de Sefarad. Talvez esta seja uma das citações mais antigas de Sefarad. Uma outra citação é encontrada no livro de Jonas (Iona) que é lido, na sinagoga na oração de Minchá de Iom Kipur. Jonas tenta fugir da “mão de D-us” e ir para Tarsis. Tarsis seria uma colônia fenícia, na atual Catalunha. Uma parte destas referências pode e deve ser lendária, mas sem dúvida há uma relação histórica entre os judeus e Sefarad desde tempos remotos.
Os judeus têm Sefarad como parte de suas vivencias históricas pelo menos desde antes da Era Cristã. Alguns dizem que na época do rei Salomão; já outros comprovam através de lápides do período romano que se trata de uma presença mais recente. Um destes estudiosos é Itzchak Baer, que admite as lendas, mas concorda que se trata de uma presença muito anterior a Era Cristã. Baer crê que haja judeus em Sefarad, desde a colonização fenícia (ou cartaginesa).
Essa polêmica teve importância na época da expulsão dos judeus hispânicos dos reinos cristãos, pois os judeus de Sefarad alegavam estar na região antes da Era Cristã e se “eximiam de culpa” na morte de Cristo. Isso teve, portanto, uma importância maior do que parece. Os judeus sefaradim se viam como legitimamente ibéricos, enraizados e pertencentes ao ambiente e as origens da Espanha atual. No final do artigo refiro-me a esta expulsão (1492). Sua relação com a morte de Jesus seria falsa, pois “já viviam em Sefarad”.
Polêmicas à parte, a presença judaica ajudou a desenvolver inúmeras cidades e regiões da Península Ibérica. No período romano (desde c. 250 a.E.C.) tiveram autonomia religiosa nas suas comunidades (kehilot), podendo manter sinagogas, escolas, cemitérios, abatedouros de animais e outras instituições religiosas e culturais. Inclusive tribunais judaicos, com leis próprias. Estas leis ainda não haviam sido ordenadas. Em alguns séculos estas leis seriam compiladas e ordenadas pelos sábios judeus de Israel e da Babilônia e surgiria a Mishná (Lei Oral) e a Guemará. Destes dois surgiria o Talmud que seria a ordenação da Lei Judaica e orientaria a vida judaica através de séculos
Esta autonomia jurídica existia desde tempos remotos, quando os judeus haviam sido levados para a Babilônia (Galut Bavel ou Exílio/Cativeiro da Babilônia) após a destruição do Primeiro Templo em 586 a.E.C. Os romanos autorizaram os judeus, a mantê-la nas remotas províncias de seu Império, tanto no Oriente (onde já existia), quanto no Ocidente, onde os romanos a instituíram. Assim sendo, os romanos eram tolerantes com os judeus da Diáspora e os protegiam com suas leis. Admitiam que os judeus vivessem com autonomia em suas comunidades. Isso contrasta com a repressão que os romanos fizeram aos judeus, quando estes quiseram expulsar os exércitos imperiais e readquirir sua independência em 66–70 d.E.C. e em 132-135 d.E.C. Os romanos mantiveram as leis de tolerância aos judeus até que o imperador Constantino se aproximou da Igreja Católica e associou esta ao Império. Era o começo da mudança de status dos judeus na Hispânia (antigo nome da Espanha) romana. A partir daí os judeus tiveram restringidos seus direitos e sua autonomia foi diminuída. Os judeus da Hispânia viveram ainda com relativa segurança e com certos direitos até que vieram os invasores bárbaros. O grupo principal destes invasores eram os visigodos. Inicialmente não eram católicos e mantiveram uma atitude de tolerância com os judeus locais. No século VI se converteram ao catolicismo em 589 d.E.C. e começaram a perseguir os judeus da Hispânia. Era a primeira onda de conversões forçadas de judeus. O rei visigodo Sisebuto converte os judeus (ou se convertiam à força ou deviam emigrar) e cria a primeira era dos judeus convertidos. Esses judeus convertidos iniciam muitas vezes uma resistência. Seguem sendo judeus às escondidas e mantêm seu Judaísmo.
Alguns de meus leitores poderão achar que me confundi. Estaria talvez “misturando” as conversões feitas nos reinos católicos da Espanha entre 1391 e 1492 (séculos XIV e XV da E.C.). Advirto que não se trata de distração, engano ou erro. Este é o eixo central de parte de minha tese de doutorado. Os judeus do reino visigodo de Toledo (sua capital) foram violentamente perseguidos. Primeiramente convertidos à força. Depois sob a desconfiança da Igreja e dos reis visigodos foram decretadas leis, com restrições e inúmeros controles sob os convertidos e seus descendentes. Eram suspeitos de “judaizar” (este termo, os historiadores usam para o período da Inquisição) o que significa: mesmo tendo sido convertidos ao catolicismo, seguiam sendo judeus às escondidas. Esse século que vai das primeiras conversões sob Sisebuto (c. 614 ou 616 d.E.C.) até a invasão moura/muçulmana (c. 711 d.E C.), será um amargo momento da vida dos judeus na Península Ibérica. A invasão dos muçulmanos traz um novo período de tolerância. Considerados os “Povos do Livro” os judeus (tal como os cristãos) eram tratados com tolerância, por terem sido iluminados pela Revelação, ainda que sendo inferiores aos muçulmanos. Os patriarcas como Abraão, eram reverenciados e considerados esteios do Islã; Moisés e Jesus seriam precursores de Maomé e reverenciados como grandes profetas e sua mensagem seria o início do Islã. A autonomia judaica (e cristã) nas suas comunidades foi adotada como política por mais de trezentos anos. Surgia a civilização de Al Andaluz. Os governantes muçulmanos se alternaram. Houve governos diversos: emirado, califado, taifas, etc.
Aos judeus surge uma época de esplendor: a Idade de Ouro dos judeus da Espanha. Alguns livros a retratam com profundidade: a filosofia se encontra com a religião. Um rico e polêmico diálogo tenta conciliar o que parece oposto. Os filósofos traduzem as obras dos filósofos gregos (Platão e Aristóteles, por exemplo) ao árabe. Isso foi feito em Bagdá, no califado abássida, oriental. Estas obras são trazidas e discutidas na Espanha muçulmana (Al Andaluz) por muçulmanos, judeus e cristãos.
Conciliar a Razão com a Fé. No ponto de vista judaico deste debate, temos muitos e grandes pensadores. No Oriente, um dos grandes pensadores desta polêmica foi Saadia Gaon (viveu no século X e exercia o cargo de Gaon ou líder das escolas talmúdicas da antiga Babilônia, já então califado de Bagdá). Saadia demonstrou que havia como conciliar o Talmud com a Filosofia em sua obra “Sefer a Haemunot veAdeot” (O Livro das Crenças e das Opiniões ou Idéias). Este livro foi editado em c. 933 d.E.C. Inicia-se a fase da discussão filosófica no Judaísmo. Do Oriente este debate vai para o Ocidente.
Em Sefarad, esta discussão terá alguns magníficos representantes: Salomão Ibn Gabirol (1021-1080) escreveu um livro utilizando apenas provas racionais para provar a verdade da Revelação contida na Bíblia Hebraica (Tanach). Esta obra magna foi denominada Mekor Chaim ou Fonte da Vida. Traduzida ao latim, foi atribuída a um autor denominado Avicebron (nome criado) e utilizada por muitos autores cristãos. Só no século XIX se descobriu que seu autor era Ibn Gabirol.
Outros filósofos iluminaram o pensamento ocidental na Sefarad medieval: Bahia ibn Pakuda, Iehuda Halevi e o magnífico Rambam Maimônides. Neste ano faremos artigos sobre alguns deles e analisaremos seus dilemas e sua contribuição ao Judaísmo e a cultura ocidental.
Al Andaluz entrará em crise com a decadência do Califado de Córdoba e sua posterior extinção em 1031. Segue-se um período de transição, aonde ainda há certo brilho.
Seria a Idade de Prata dos judeus ibéricos. Ocorre em pequenos reinos muçulmanos (taifas) e depois nos reinos cristãos que se expandem e conquistam os reinos muçulmanos na denominada Reconquista Cristã. Neste período os judeus têm alguns direitos e são tolerados com algumas restrições. Há certa decadência da filosofia e o misticismo e a Cabala crescem. A busca por soluções metafísicas para os problemas políticos e jurídicos que surgem se acentua. A salvação deveria vir em breve, pois as condições terrenas se degradavam. Há certas evidências que mostram que uma parte importante da literatura mística foi elaborada neste período. Os judeus sentem que Sefarad deixara de ser um lugar seguro. Os séculos XII e XIV (entre 1100 e 1391) são um período de transição. O século XIV será o início da grande crise de Sefarad: os judeus serão novamente forçados à conversão ao Catolicismo. Uma violenta onda de pogroms incendeia os reinos ibéricos em 1391. Milhares de judeus são colocados entre a espada e a cruz: converter ou morrer. A maioria opta por se converter acreditando que poderiam depois voltar a sua fé ancestral. Surgem os cristãos novos. O século XV (iniciando-se no final do século XIV em 1391) será o século da agonia de Sefarad: perseguições, campanhas de conversão dos judeus remanescentes, leis restritivas e discriminatórias aos cristãos novos e a Inquisição instaurada em Aragão e Castela e posteriormente no século XVI em Portugal. Em 1492 os judeus seriam expulsos dos reinos de Castela e Aragão (aquilo que hoje seria Espanha) e começaria a dispersão dos sefaradim pelo Mediterrâneo (Norte da África, Império Otomano/Turco, Itália) e outras regiões como Países Baixos (Holanda), por exemplo. A riqueza e a beleza da cultura sefaradi não se extingue: mantida por gerações que seguiram falando em ladino (idioma judeu espanhol) segue existindo. O melhor exemplo local é a obra magnífica da cantora Fortuna que coletou algumas das pérolas desta cultura musical e resgatou estas raízes judaicas sefaradis.
* Ségio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.