Acordo
de paz e libertação
de Auschwitz
Em 30 de setembro de 1938 um eufórico Neville Chamberlain
descia do avião em Londres e agitando em suas mãos
um papel, afirmava: “Trago a paz para nosso tempo!” E
uma multidão extasiada o aclamava. Para trás,
ficaram as reuniões febris em Munique, com Hitler, Deladier
e Mussolini. Também ficou uma Checoslováquia
traída que seria desmembrada, esmigalhada e invadida,
e depois a pior das matanças... A Segunda Guerra Mundial.
Em 8 de fevereiro de 2005, em Sharm El Sheik, com a presença
do presidente Mubarak, do Egito, Ariel Sharon, primeiro-ministro
de Israel, e Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina,
firmaram um acordo de cessar-fogo como um passo prévio
para um tratado de paz entre israelenses e palestinos.
Mas na política não há lugar para ilusões
ou sonhos. Sem querermos ser pessimistas, entretanto, a paz
entre os dois povos parece algo ainda muito distante. Quando
foram assinados os acordos de Oslo também se pensou
que a paz era chegada, mas em seu lugar veio uma Intifada que
já custou milhares de vítimas dos dois lados.
Grupos terroristas como o Hamas e o Hezbolá desdenham
esses acordos e disseram estar dispostos a continuar com os
atentados. De fato, as repercussões do gesto em direção à paz
nem arrefeceram, e o Hamas anunciou haver perpetrado, após
o acordo, 46 atentados e ataques com míssieis Kassam
sobre a população israelense. E o Hezbolá,
para não ficar atrás, triplicou as recompensas
a todos aqueles que realizarem atentados contra Israel, enquanto
segue recebendo ingentes quantidades de recursos do Irã.
Seja como for, a “paz do nosso tempo” obtida em
Sharm El Sheik, em vista disso tudo não deixa de ser
uma bela ilusão, mas só o tempo dirá se
se converterá numa realidade ou num pesadelo como o
resultante do Pacto de Munique.
Há poucos dias o mundo assistiu a comovente cerimônia
que relembrou os 60 anos da libertação do Campo
Auschwitz, ícone maior do Holocausto. É oportuna
uma pesquisa recém divulgada na Alemanha e que mostra
que grande parte dos alemães acredita que suas famílias
não compactuaram com o nazismo e o Holocausto. O levantamento
investigou discrepâncias entre saber histórico
e memória familiar: um quarto da população
adulta do Terceiro Reich teria ajudado os perseguidos, 13%
participaram ativamente da resistência ao nazismo, 17%
sempre se pronunciaram sobre as injustiças cometidas,
apenas 1% dos alemães compactuou de fato com as atrocidades
do regime, e anti-semita mesmo seriam apenas 3% da população.
Se a história do nazismo fosse escrita de forma subjetiva,
a partir das memórias familiares dos alemães,
o Holocausto não passaria de uma ficção.
Harald Welzer, psicólogo social do Instituto de Ciências
Culturais da Universidade de Essen, constatou essa nítida
dissonância entre as recordações familiares
e o trabalho coletivo de memória. “A memória
do cotidiano cultiva a imagem de que os nazistas eram os outros,
nunca os membros da própria família", afirmou
o estudioso em artigo divulgado pelo jornal Süddeutsche
Zeitung. Na avaliação de Welzer, isso não
significa que os alemães ignorem o passado nazista ou
que a formação histórica adquirida na
escola seja insuficiente.
Mas a lição de Auschwitz parece não ter
sido ainda aprendida. O advogado Tadeu Stulzer e o agropecuarista
Ruy Pigatto, ambos paranaenses, aproveitaram o evento de Auschwitz
para destilar seu ódio racista contra os judeus, o primeiro
se assumindo anti-semita, e o outro, distorcendo fatos e criando
alucinadas fantasias em relação a Israel, em
cartas publicadas num influente jornal de Londrina. Por falar
em Londrina, uma denúncia a ser apurada: a Prefeitura
de lá estaria patrocinando “artistas” que
grafitaram um muro da cidade com a imagem de Hitler.
A Redação
|