Os leitores do VJ acharão o tema estranho, impróprio,
e anacrônico. Mais uma extravagância ou provocação
do colunista. Há meses reluto em desenvolver uma reflexão
sobre o tema, por recear que seja “politicamente incorreto”.
Mas quando percebemos que a crise existencial e espiritual transcende
as barreiras da diplomacia, deve-se pedir desculpas aos leitores
e ousar dizer que “o rei está nu”, como no
conto tradicional “A roupa nova do rei”.
Vivemos num mundo de idolatria. O século XX foi permeado
por ideologias e causas políticas que idolatravam líderes,
valores e conceitos totalitários, causas messiânicas
e ideologias dotadas de verdades absolutas. Quanto se odiou e
se matou em nome de verdades únicas e absolutas através
da história e ainda mais em tempos recentes. Os ídolos
de pedra transmutaram-se em Hitler, Stálin, nacionalismos
e teses perversas de superioridade racial ou nacional; muitas
vezes são imagens falsas, que camuflam interesses de classes
ou grupos que devem prevalecer. Os ídolos continuam no
altar, seguem cegando os seus adoradores e desviando-os do exercício
de sua plena humanidade. Aqui entra a visão judaica, humanista
e universal, que objetiva interpretar o texto bíblico
e utiliza-o para criticar a realidade, na busca de valores que
humanizem as nossas relações com o próximo.
Iniciemos pelas fontes. As fontes primordiais do judaísmo
estão no Pentateuco (Torá). A atitude de Abraão,
o primeiro hebreu e iniciador tradicional do Pacto (Brit), serve
de referência. Há uma lenda talmúdica (Agadá),
sem fundamento no texto bíblico, mas que está plenamente
fundamentada nos valores e na ideologia da Torá, que relata
que o pai de Abraão, denominado Terach, teria sido um
escultor de ídolos. Abraão teria rompido com seu
pai, tornando-se o primeiro iconoclasta (destruidor de ídolos):
promove uma destruição de ídolos e afirma
que estes teriam “pelejado”, e um ídolo teria
quebrado os demais. O processo culmina quando Abraão sai
da terra e da casa de seu pai, e inicia o Pacto e o encontro
com o D’us único. Um rompimento radical com a tradição
de seus ancestrais, pois numa família de idólatras
e politeístas, não se poderia adorar um D’us único
e sem “forma” material (absolutamente espiritual).
O Judaísmo constrói como eixo central, dois axiomas:
a) D’us é um só, uno e indivisível,
criador de tudo que existe neste e em outros mundos;
b) D’us
não é material, não tem forma ou imagem,
não podendo ser feitos ídolos ou imagens que o
simbolizem. A prova de minha afirmação é simples
e de fácil averiguação: os Dez Mandamentos.
Há apenas três que se referem especificamente a
D’us: os três primeiros. O quarto se refere ao Sétimo
Dia (Shabat ou descanso), no qual D’us descansou após
concluir a Criação. Trata-se de um mandamento intermediário
entre os três primeiros (relativos a D’us) e os seis últimos,
que gerem as relações entre os seres humanos (não
matarás, não roubarás, etc). Quais são
os três primeiros mandamentos? O primeiro define a condição
de D’us, como o D’us que libertou o povo da escravidão
no Egito. Simples, breve e sem mais detalhes. A condição
de criador do mundo, onipotente e onipresente, não aparece. É apenas
o D’us que liberta. O terceiro mandamento adverte para
a necessidade do uso adequado do Nome divino: “não
usarás o Nome de D’us em vão”. Também é um
mandamento breve e sugestivo, exigindo que não se jure
em falso ou se afirme inverdades, ou obscenidades usando do nome
de D’us.
O segundo mandamento é um dos mais extensos e detalhados:
preenche quatro versículos, tanto no texto original hebraico,
quanto nas traduções. Explica com clareza que não
se pode ter outros deuses e não se pode fazer imagens,
esculturas ou desenhos de nenhum ser vivo, seja humano ou animal.
Está implícito que esta rígida proibição
tem como objetivo, evitar qualquer tipo de idolatria ou adoração
de imagens. Não há espaço para interpretações:
o texto condena a idolatria e adverte para severas punições
aos idólatras e a seus descendentes. Em todo o Pentateuco
(Torá), um dos eixos temáticos mais presentes,
sempre é o combate à idolatria. Isso transcende
o Pentateuco e se torna tema constante da Bíblia hebraica
(Tanach), imprecisamente denominada por muitos, como o Velho
Testamento. A partir do livro de Josué que descreve a
ocupação da terra de Canaã pelos filhos
de Israel (Bnei Israel), não há livro que não
possua descrições diversas da “contaminação” idólatra
do povo hebreu, e severas advertências de castigos divinos
em função da idolatria e do abandono do Pacto.
O combate à idolatria é a temática central
da Bíblia hebraica.
Isso se configura entre os livros proféticos. Os profetas
hebreus têm dois eixos temáticos principais: o combate à idolatria
e à injustiça social. Raros são os profetas
que não abordam estes dois temas. O Exílio da Babilônia
(586-536 a. e. C.=antes da Era Comum), despertou a consciência
coletiva de que D’us os punira, enviando-os ao cativeiro,
em virtude de seus erros: idolatria e injustiça social.
Isso determinará mudanças no comportamento coletivo
que delinearam um radical abandono da idolatria, entre os judeus
no pós-exílio, no período do 2º Templo
(536 a. e. C. – 70 d. e. C.). A idolatria desaparece, mas
não é esquecida: os sábios e rabinos condenam
severamente sua prática e apontam para a importância
de seguir respeitando o segundo mandamento. Alguns comentários
são interessantes de serem analisados. Vejamos alguns.
No Talmud, tratado Chulin, se afirma: “Quem nega a idolatria é como
se cumprisse toda a Torá”. Um dos grandes mestres chassídicos,
Menachem Mendel Morgenshtern (1787-1859), conhecido como o "Kotzker Rebe",
adverte de maneira tão sensível e profunda para o risco de se
mecanizar os preceitos (mitzvót, ou atos realizados no cumprimento de
um mandamento) transformando atos originalmente religiosos, em uma espécie
de ídolos. Afirma que a proibição de fabricar ídolos
inclui a proibição de transformar em ídolos, as sagradas
mitzvót. Adverte que não se deve achar que o principal objetivo
de uma mitzvá, seja a sua “forma” exterior, e que seu significado
interior deva ser subordinado à sua prática mecânica e
formal. Seria algo como agir sem sentir, fazer porque devo fazer, ou agir pelo
medo do castigo divino. Uma versão religiosa do filme de Charles Chaplin, “Tempos
Modernos”, aonde o ser humano mecanizado e desumanizado, repete gestos
e ações de maneira formal, e se “aliena” de seus
objetivos humanos. Idolatria à moda religiosa judaica, de acordo ao “Kotzker
Rebe”, grande sábio e respeitado rabino chassídico. Sem
dúvida, suas observações servem para refletir sobre problemas
de nossos tempos e realidades.
Voltando ao Talmud, percebemos que a preocupação com a idolatria
não cessa, apesar deste problema ter desaparecido no seio da comunidade
judaica e do Judaísmo, no final do mundo antigo e em toda a Idade Média.
Os sábios admitem que um judeu possa sofrer o martírio (aceitar
ser morto), caso seja obrigado a optar entre a morte e uma entre três
opções: incesto, homicídio ou idolatria. É preferível
morrer do que assassinar um ser inocente, cometer o incesto ou adorar ídolos
(Sanedrin 74 a). Isso coloca a idolatria como um dos “pecados capitais”,
se assim pudéssemos conceituar, no Judaísmo. É preferível
morrer “em santificação do Nome Divino” (Al Kidush
Hashem), do que reverenciar ídolos. Através da história,
muitos judeus foram martirizados ao serem colocados entre a opção
de apostasia (renúncia ao Judaísmo e conversão a outra
religião) ou serem mortos. O melhor exemplo ocorreu nas Cruzadas e foi
retratado em obra recente de meu mestre Nachman Falbel. O termo Al Kidush Hashem é usado
para as vítimas do Holocausto (Shoá), mas neste caso não
havia escolha entre morrer ou se converter.
A negação da idolatria adquire tal importância que em alguns
trechos do Talmud, admitem que “o que reconhece a idolatria repudia a
Torá inteira, mas repudiar a idolatria equivale a aceitar toda a Torá” (Midrash,
Sifré Devarim, Reé 54:86 b). Isso permite concluir que negar
a idolatria seja um ato de fé tão grande que nada se iguala ao
mesmo.
Se direcionarmos nossas reflexões, veremos que há a possibilidade
de realizar algumas leituras contemporâneas da temática da idolatria.
Haveria sentido repensar a idolatria em nossos dias. Uma grande parte de nossas
comunidades vive afastada das praticadas mitzvót e alheia ao Judaísmo.
Parece-lhes que se trata de um arcaísmo, de algo antiquado. Como relacionar
o cotidiano tenso de nossa vida, os problemas que passamos com as reflexões
judaicas. Talvez possamos sugerir uma visão diferenciada e uma nova
forma de aproximação.
Num breve e superficial raciocínio queremos direcionar a reflexão
para o fato, que vivemos escravos do cotidiano, dos bens materiais, da riqueza
e do poder. Vivemos para ter, acumular, obter bens e riquezas e não
para desfrutá-las. O livro de Isaías traz alguns trechos profético-literários,
que misturam poesia, crítica social e religiosa, com uma “pitada” de
ironia. Um destes trechos descreve o artesão fabricando o ídolo
(Isaías cap. 44, vers. 9 a 20). Toma a “matéria” (madeira
ou metal) e fabrica com parte dela um ídolo. O restante da madeira queima
para cozinhar. E se curva diante de sua “obra” e reverencia o “seu
deus” que ele mesmo criou. Assemelha-se ao ser humano (ou um grupo) que
cria o Estado e o diviniza. Que “cria” um partido ou liderança
e acredita que seja o seu “Salvador”. Que veste a camisa de seu
time e agride torcedores de outra agremiação, achando que está agindo
em defesa de valores ou princípios valiosos. Trata-se da “cegueira
nossa de cada dia”. Somos idólatras de nosso narcisismo, de nosso
chauvinismo, de nossos complexos de superioridade, achando que a pele clara,
ou a conta bancária nos torna melhor do que nossos semelhantes. Alheios
ao fato que somos todos moradores deste mesmo mundo, descendentes de Adão
ou até mesmos dos hominídeos. A humanidade é uma só.
Idolatramos a riqueza e o poder, alheios ao fato que o gênero humano
tem a mesma origem e o mesmo destino.
Idolatramos novos deuses, novos ídolos, e os fabricamos tal qual Isaías
descreve. Ousaria dizer que ainda não somos livres. Uns vivem atados à prática
cega das mitzvót, sem conseguir enxergar seu “espírito” e
restringindo-se a sua forma; outros se agarram a um materialismo e a um consumismo
ferrenhos. Acumulam e guardam mais do que podem usar, tal como descreve Isaías,
juntando tantas terras que ficam sozinhos no meio delas (cap. 5, vers. 8).
O resultado de tanto materialismo é um vazio espiritual: crise existencial
e a necessidade de buscar ajuda, através de terapias e de antidepressivos.
Os ídolos nos consomem, nos esvaziam e nos tornam dependentes do material.
Os bens e a riqueza devem ser o meio, mas nunca a finalidade de nossas vidas.
Acumular bens é muito válido, se for para viver com dignidade
e para fazer o bem ao próximo. Não é pecado enriquecer
e tampouco ter bens materiais, mas não se pode viver em função
de acumular. Deve-se distinguir os meios e as finalidades da nossa vida. Isso é a
mais pura idolatria.
Portanto propomos repensar sobre o Judaísmo. Nossas raízes podem
nos abrir uma gama enorme de reflexões, uma enorme variedade de atitudes
e caminhos, gerando um saudável questionamento e alimentando nossa espiritualidade.
Não convém agir de maneira cega e mecânica, mas tentar
atuar de uma forma crítica e coerente com os tempos em que vivemos.
Sem fanatismo, verdades absolutas e excludentes e com coerência com os
princípios de um mundo que deve caminhar para a aproximação
entre os seres humanos, respeitadas as diferenças étnicas e religiosas.
* Sergio Feldman é professor adjunto de História
Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do
Paraná e doutor em História pela UFPR.