Idolatria: Reflexões e significados ontem e hoje
Por: Sergio Feldman


Os leitores do VJ acharão o tema estranho, impróprio, e anacrônico. Mais uma extravagância ou provocação do colunista. Há meses reluto em desenvolver uma reflexão sobre o tema, por recear que seja “politicamente incorreto”. Mas quando percebemos que a crise existencial e espiritual transcende as barreiras da diplomacia, deve-se pedir desculpas aos leitores e ousar dizer que “o rei está nu”, como no conto tradicional “A roupa nova do rei”.

Vivemos num mundo de idolatria. O século XX foi permeado por ideologias e causas políticas que idolatravam líderes, valores e conceitos totalitários, causas messiânicas e ideologias dotadas de verdades absolutas. Quanto se odiou e se matou em nome de verdades únicas e absolutas através da história e ainda mais em tempos recentes. Os ídolos de pedra transmutaram-se em Hitler, Stálin, nacionalismos e teses perversas de superioridade racial ou nacional; muitas vezes são imagens falsas, que camuflam interesses de classes ou grupos que devem prevalecer. Os ídolos continuam no altar, seguem cegando os seus adoradores e desviando-os do exercício de sua plena humanidade. Aqui entra a visão judaica, humanista e universal, que objetiva interpretar o texto bíblico e utiliza-o para criticar a realidade, na busca de valores que humanizem as nossas relações com o próximo.

Iniciemos pelas fontes. As fontes primordiais do judaísmo estão no Pentateuco (Torá). A atitude de Abraão, o primeiro hebreu e iniciador tradicional do Pacto (Brit), serve de referência. Há uma lenda talmúdica (Agadá), sem fundamento no texto bíblico, mas que está plenamente fundamentada nos valores e na ideologia da Torá, que relata que o pai de Abraão, denominado Terach, teria sido um escultor de ídolos. Abraão teria rompido com seu pai, tornando-se o primeiro iconoclasta (destruidor de ídolos): promove uma destruição de ídolos e afirma que estes teriam “pelejado”, e um ídolo teria quebrado os demais. O processo culmina quando Abraão sai da terra e da casa de seu pai, e inicia o Pacto e o encontro com o D’us único. Um rompimento radical com a tradição de seus ancestrais, pois numa família de idólatras e politeístas, não se poderia adorar um D’us único e sem “forma” material (absolutamente espiritual). O Judaísmo constrói como eixo central, dois axiomas:
a) D’us é um só, uno e indivisível, criador de tudo que existe neste e em outros mundos;
b) D’us não é material, não tem forma ou imagem, não podendo ser feitos ídolos ou imagens que o simbolizem. A prova de minha afirmação é simples e de fácil averiguação: os Dez Mandamentos. Há apenas três que se referem especificamente a D’us: os três primeiros. O quarto se refere ao Sétimo Dia (Shabat ou descanso), no qual D’us descansou após concluir a Criação. Trata-se de um mandamento intermediário entre os três primeiros (relativos a D’us) e os seis últimos, que gerem as relações entre os seres humanos (não matarás, não roubarás, etc). Quais são os três primeiros mandamentos? O primeiro define a condição de D’us, como o D’us que libertou o povo da escravidão no Egito. Simples, breve e sem mais detalhes. A condição de criador do mundo, onipotente e onipresente, não aparece. É apenas o D’us que liberta. O terceiro mandamento adverte para a necessidade do uso adequado do Nome divino: “não usarás o Nome de D’us em vão”. Também é um mandamento breve e sugestivo, exigindo que não se jure em falso ou se afirme inverdades, ou obscenidades usando do nome de D’us.

O segundo mandamento é um dos mais extensos e detalhados: preenche quatro versículos, tanto no texto original hebraico, quanto nas traduções. Explica com clareza que não se pode ter outros deuses e não se pode fazer imagens, esculturas ou desenhos de nenhum ser vivo, seja humano ou animal. Está implícito que esta rígida proibição tem como objetivo, evitar qualquer tipo de idolatria ou adoração de imagens. Não há espaço para interpretações: o texto condena a idolatria e adverte para severas punições aos idólatras e a seus descendentes. Em todo o Pentateuco (Torá), um dos eixos temáticos mais presentes, sempre é o combate à idolatria. Isso transcende o Pentateuco e se torna tema constante da Bíblia hebraica (Tanach), imprecisamente denominada por muitos, como o Velho Testamento. A partir do livro de Josué que descreve a ocupação da terra de Canaã pelos filhos de Israel (Bnei Israel), não há livro que não possua descrições diversas da “contaminação” idólatra do povo hebreu, e severas advertências de castigos divinos em função da idolatria e do abandono do Pacto. O combate à idolatria é a temática central da Bíblia hebraica.

Isso se configura entre os livros proféticos. Os profetas hebreus têm dois eixos temáticos principais: o combate à idolatria e à injustiça social. Raros são os profetas que não abordam estes dois temas. O Exílio da Babilônia (586-536 a. e. C.=antes da Era Comum), despertou a consciência coletiva de que D’us os punira, enviando-os ao cativeiro, em virtude de seus erros: idolatria e injustiça social. Isso determinará mudanças no comportamento coletivo que delinearam um radical abandono da idolatria, entre os judeus no pós-exílio, no período do 2º Templo (536 a. e. C. – 70 d. e. C.). A idolatria desaparece, mas não é esquecida: os sábios e rabinos condenam severamente sua prática e apontam para a importância de seguir respeitando o segundo mandamento. Alguns comentários são interessantes de serem analisados. Vejamos alguns.

No Talmud, tratado Chulin, se afirma: “Quem nega a idolatria é como se cumprisse toda a Torá”. Um dos grandes mestres chassídicos, Menachem Mendel Morgenshtern (1787-1859), conhecido como o "Kotzker Rebe", adverte de maneira tão sensível e profunda para o risco de se mecanizar os preceitos (mitzvót, ou atos realizados no cumprimento de um mandamento) transformando atos originalmente religiosos, em uma espécie de ídolos. Afirma que a proibição de fabricar ídolos inclui a proibição de transformar em ídolos, as sagradas mitzvót. Adverte que não se deve achar que o principal objetivo de uma mitzvá, seja a sua “forma” exterior, e que seu significado interior deva ser subordinado à sua prática mecânica e formal. Seria algo como agir sem sentir, fazer porque devo fazer, ou agir pelo medo do castigo divino. Uma versão religiosa do filme de Charles Chaplin, “Tempos Modernos”, aonde o ser humano mecanizado e desumanizado, repete gestos e ações de maneira formal, e se “aliena” de seus objetivos humanos. Idolatria à moda religiosa judaica, de acordo ao “Kotzker Rebe”, grande sábio e respeitado rabino chassídico. Sem dúvida, suas observações servem para refletir sobre problemas de nossos tempos e realidades.

Voltando ao Talmud, percebemos que a preocupação com a idolatria não cessa, apesar deste problema ter desaparecido no seio da comunidade judaica e do Judaísmo, no final do mundo antigo e em toda a Idade Média. Os sábios admitem que um judeu possa sofrer o martírio (aceitar ser morto), caso seja obrigado a optar entre a morte e uma entre três opções: incesto, homicídio ou idolatria. É preferível morrer do que assassinar um ser inocente, cometer o incesto ou adorar ídolos (Sanedrin 74 a). Isso coloca a idolatria como um dos “pecados capitais”, se assim pudéssemos conceituar, no Judaísmo. É preferível morrer “em santificação do Nome Divino” (Al Kidush Hashem), do que reverenciar ídolos. Através da história, muitos judeus foram martirizados ao serem colocados entre a opção de apostasia (renúncia ao Judaísmo e conversão a outra religião) ou serem mortos. O melhor exemplo ocorreu nas Cruzadas e foi retratado em obra recente de meu mestre Nachman Falbel. O termo Al Kidush Hashem é usado para as vítimas do Holocausto (Shoá), mas neste caso não havia escolha entre morrer ou se converter.

A negação da idolatria adquire tal importância que em alguns trechos do Talmud, admitem que “o que reconhece a idolatria repudia a Torá inteira, mas repudiar a idolatria equivale a aceitar toda a Torá” (Midrash, Sifré Devarim, Reé 54:86 b). Isso permite concluir que negar a idolatria seja um ato de fé tão grande que nada se iguala ao mesmo.

Se direcionarmos nossas reflexões, veremos que há a possibilidade de realizar algumas leituras contemporâneas da temática da idolatria. Haveria sentido repensar a idolatria em nossos dias. Uma grande parte de nossas comunidades vive afastada das praticadas mitzvót e alheia ao Judaísmo. Parece-lhes que se trata de um arcaísmo, de algo antiquado. Como relacionar o cotidiano tenso de nossa vida, os problemas que passamos com as reflexões judaicas. Talvez possamos sugerir uma visão diferenciada e uma nova forma de aproximação.

Num breve e superficial raciocínio queremos direcionar a reflexão para o fato, que vivemos escravos do cotidiano, dos bens materiais, da riqueza e do poder. Vivemos para ter, acumular, obter bens e riquezas e não para desfrutá-las. O livro de Isaías traz alguns trechos profético-literários, que misturam poesia, crítica social e religiosa, com uma “pitada” de ironia. Um destes trechos descreve o artesão fabricando o ídolo (Isaías cap. 44, vers. 9 a 20). Toma a “matéria” (madeira ou metal) e fabrica com parte dela um ídolo. O restante da madeira queima para cozinhar. E se curva diante de sua “obra” e reverencia o “seu deus” que ele mesmo criou. Assemelha-se ao ser humano (ou um grupo) que cria o Estado e o diviniza. Que “cria” um partido ou liderança e acredita que seja o seu “Salvador”. Que veste a camisa de seu time e agride torcedores de outra agremiação, achando que está agindo em defesa de valores ou princípios valiosos. Trata-se da “cegueira nossa de cada dia”. Somos idólatras de nosso narcisismo, de nosso chauvinismo, de nossos complexos de superioridade, achando que a pele clara, ou a conta bancária nos torna melhor do que nossos semelhantes. Alheios ao fato que somos todos moradores deste mesmo mundo, descendentes de Adão ou até mesmos dos hominídeos. A humanidade é uma só. Idolatramos a riqueza e o poder, alheios ao fato que o gênero humano tem a mesma origem e o mesmo destino.

Idolatramos novos deuses, novos ídolos, e os fabricamos tal qual Isaías descreve. Ousaria dizer que ainda não somos livres. Uns vivem atados à prática cega das mitzvót, sem conseguir enxergar seu “espírito” e restringindo-se a sua forma; outros se agarram a um materialismo e a um consumismo ferrenhos. Acumulam e guardam mais do que podem usar, tal como descreve Isaías, juntando tantas terras que ficam sozinhos no meio delas (cap. 5, vers. 8). O resultado de tanto materialismo é um vazio espiritual: crise existencial e a necessidade de buscar ajuda, através de terapias e de antidepressivos. Os ídolos nos consomem, nos esvaziam e nos tornam dependentes do material. Os bens e a riqueza devem ser o meio, mas nunca a finalidade de nossas vidas. Acumular bens é muito válido, se for para viver com dignidade e para fazer o bem ao próximo. Não é pecado enriquecer e tampouco ter bens materiais, mas não se pode viver em função de acumular. Deve-se distinguir os meios e as finalidades da nossa vida. Isso é a mais pura idolatria.
Portanto propomos repensar sobre o Judaísmo. Nossas raízes podem nos abrir uma gama enorme de reflexões, uma enorme variedade de atitudes e caminhos, gerando um saudável questionamento e alimentando nossa espiritualidade. Não convém agir de maneira cega e mecânica, mas tentar atuar de uma forma crítica e coerente com os tempos em que vivemos. Sem fanatismo, verdades absolutas e excludentes e com coerência com os princípios de um mundo que deve caminhar para a aproximação entre os seres humanos, respeitadas as diferenças étnicas e religiosas.

* Sergio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutor em História pela UFPR.