Por: Tereza
Poole
Durante o jantar, na antiga Kaifeng, no centro
da China, Zhao Xiangru, 68, repousa seus pauzinhos sobre a mesa.
"Nasci em Kaifeng, em 1930", diz ele. "Meus antepassados
eram judeus, eu tenho sangue judeu. Tudo isso me foi dado por
D-us. Isso não foi uma escolha pessoal". Apesar de
estarmos na China, na mesa de Zhao não havia carne de porco.
A existência de um grupo de chineses que reivindicam ser
descendentes de judeus é um dos mais curiosos legados da
história chinesa.
Em algum momento da dinastia Song (690/1126 e.C;), cerca de 500
comerciantes judeus que viajavam pela Rota da Seda decidiram se
estabelecer em Kaifeng, a esplêndida capital imperial com
uma crescente população de 1 milhão de habitantes.
Os judeus eram provavelmente da Pérsia, mas os estudiosos
não têm certeza de sua origem. Eles foram bem recebidos
pelo imperador e construíram a primeira sinagoga de Kaifeng,
em 1163.
Durante séculos mantiveram as tradições judaicas
e os rituais religiosos, incluindo a circuncisão dos meninos
e a proibição de comer carne suína. No início
da dinastia Ming (1368/1644), o imperador estabeleceu sete sobrenomes
para os judeus de Kaifeng: Ai, Lao, Zhao, Zhang, Shi, Jin e Li.
Mas a assimilação à comunidade chinesa e
os casamentos inter-étnicos deixaram sua marca na identidade
judaica. O último rabino da comunidade morreu por volta
de 1800. Perto de 1860, a sinagoga já estava em mau estado
e não era mais freqüentada. Ela foi demolida. Em 1912,
o local foi vendido para missionários canadenses. No terreno
foi construído o Hospital Público Número
Quatro. Atualmente, entretanto, há aqueles em Kaifeng que
anunciam suas raízes judaicas de modo prazeroso. Alguns
tentaram, mas não conseguiram, que Pequim classificasse
os judeus da China como minoria étnica nacional.
Outros tentaram, também sem sucesso, atrair investimentos
israelenses e de outros judeus para Kaifeng. Muitos viram recusados
seus pedidos para emigrar para Israel, onde o status religioso
dos moradores de Kaifeng não foi reconhecido porque na
China a linha de transmissão religiosa é patriarcal.
Para o judaísmo dominante, filhos de mães judias
são judeus. Filhos de mães não judias e de
pais judeus não são judeus.
Xu Xin, o único professor da China de Estudos Judaicos,
estima que há entre quinhentas e mil pessoas em Kaifeng
que são descendentes da velha comunidade judaica. Eles
têm pouco contato entre si e poucos são tão
fiéis às suas raízes étnico-religiosas
como Zhao. O conhecimento da língua hebraica e de textos
religiosos está há muito tempo extinto. A abstinência
à carne suína é o único costume preservado.
Mas alguns descendentes mais velhos, como Zhao, ainda têm
lembranças distantes do cotidiano judaico. Zhao se recorda
da celebração de lom Kipur e de outras festas judaicas
que sua família comemorava quando ele era criança.
Um registro de família de 14 gerações, escrito
em hebraico e chinês, foi apreendido pelos guardas vermelhos
durante a Revolução Cultural, diz ele.
Wendy Abraham, uma norte-americana estudiosa da China, que pesquisou
a história judaica de Kaifeng, entrevistou os mais velhos
descendentes da cidade nos anos 80. Shi Zhongyu, na época
com 66 anos, contou que lembrava ter visto, numa caixa médica,
o símbolo da Estrela de David bordado em um tecido de seda
vermelha.
Poucos sinais foram deixados pelos ancestrais judeus de Kaifeng.
No chão de uma sala dos fundos do hospital, encontra-se
uma laje redonda gravada com esculturas retas. Era a tampa do
poço da velha sinagoga.
Subindo para o topo das escadas de um velho museu da cidade há
uma porta com cartaz: "Exibição da História
e da Cultura dos Antigos Judeus de Kaifeng", normalmente
mantida trancada. Ali estão as mais significativas marcas
da herança judaica: duas inscrições da velha
sinagoga, de 1489 e 1512. A última diz, em parte: "O
fundador desta religião é Abraão. Depois
dele Moisés, que transmitiu as escrituras..." Uma
pedra da sinagoga e reproduções de documentos que
agora estão fora da China completam a pequena exibição.
O curador do museu, Mo Huomin, diz: "Chineses comuns não
estão interessados, mas nós abrimos para visitantes,
estudiosos e grupos de estrangeiros. Poucos descendentes de Judeus
de Kaifeng vêm aqui. Já que essas inscrições
existem há muito tempo, todos as conhecem".
As autoridades de Kaifeng estão incertas sobre como lidar
com a excepcional história do judaísmo na cidade.
"Nos últimos anos", diz Xu, "havia poucas
pessoas em Kaifeng que marcaram suas carteiras de identidade chinesas
como "youtai" (judeu em chinês). Infelizmente,
eu ouvi que no ano passado o Escritório Público
de Segurança pediu que eles trocassem a palavra "youtai"
por outra coisa qualquer".
Quando pedimos às autoridades governamentais para encontrar
alguns dos descendentes de judeus de Kaifeng, os oficiais se recusaram
a marcar os encontros.
Talvez essas atitudes mudariam se a história dos judeus
de Kaifeng se mostrasse mais proveitosa.
Desde 1993 há tentativas de encorajar investimentos de
judeus em Kaifeng. "Em 1994, eu tive a idéia de uma
Zona Especial para Judeus Estrangeiros de Desenvolvimento Econômico",
diz Zhao. Outros projetos propostos incluíam uma fazenda,
um hospital e planos de reconstruir uma sinagoga. "Investimentos
judeus ou israelenses", diz Zhao, "iriam não
somente ter um impacto econômico, mas também uma
importância política que iria amarrar os laços
judeus".
Mas tudo isso não levou a nada. Como Xu admite, "o
ambiente para investimento não é favorável".
O turismo, almejado pelos judeus do Ocidente, parece o setor mais
favorável a ser promovido, mas Xia Feng, no Departamento
de Marketing do Escritório de Turismo de Kaifeng, diz que
não há planos para encorajar isso. Um problema é
a insuficiência de coisas para serem vistas.
Abraham desenvolve os "Tours da História Judaica da
China", que no último mês trouxe o quarto grupo
de turistas judeus dos estudos Unidos para Kaifeng.
O chamariz de qualquer tour, é claro, é a possibilidade
de encontrar alguns descendentes de judeus com memórias
dos anos 30. Mas mesmo essa atração deve acabar
logo.
* Tereza Poole é jornalista e escreveu este artigo originalmente
no jornal "The Independent". Posteriormente foi publicado
em Diáspora, com tradução de Maristella do
Valle. E mais tarde publicado também na Revista Rio Total,
enviado por Leon M.Mayer,
presidente da Loja Albert Einstein da B'nai B'rith do Rio de Janeiro.