Por: Eitan
Surkis *
As relações entre Israel e
Europa, com bases muito fortes tanto culturalmente, comercialmente
como historicamente, têm conhecido muitos altos e baixos
durante as últimas décadas.
Pela proximidade geográfica, a UE é o parceiro comercial
número 1 de Israel. O comércio bilateral chega a
US$ 21 bilhões por ano. Israel é o único
país não europeu que participa no Programa Europeu
de Pesquisa e Desenvolvimento. O intercâmbio cultural entre
Israel e Europa é intenso. As relações políticas
têm bases fortes que começaram quando os países
europeus apoiaram veementemente a Resolução da ONU
sobre a partilha da Palestina, em 1947. Mesmo com oscilações,
Israel mantém intensas relações com Itália,
Grã-bretanha, Alemanha, Holanda e muitos outros países.
As diferenças políticas estão ligadas principalmente
ao conflito israelense árabe-palestino. A política
adotada pela UE tem tentado "equilibrar" o que acredita
ser uma atitude estadunidense favorável a Israel. Esta
política, muitas vezes cega, neutralizou sua própria
capacidade de envolvimento nos esforços para alcançar
a paz. Para exemplificar: em seguida à assinatura do acordo
de paz entre Israel e Egito, país árabe de maior
importância, em março de 1979, a Assembléia
Geral da ONU, com a maioria automática dos grupos Árabe-muçulmano,
Não Alinhados, Soviético, com o apoio da Europa
e outros países, condenou o acordo por ser um "acordo
separado". O acordo, que também incluía um
programa de autonomia completa para os palestinos, foi totalmente
ignorado, pela Declaração de Veneza, publicada pela
UE em 1980, que não reconheceu os esforços dos dois
países. Hoje, Israel enfrenta por parte da opinião
pública européia muitas críticas em relação
ao conflito com os palestinos. Tais críticas às
vezes são legítimas, mas muitas vezes têm
outras raízes. O que percebemos é que é muito
natural apoiar o que parece mais fraco. Existe também um
sentimento europeu de culpa por terem sido potências colonizadoras
e por isso interpretam o caso dos palestinos como outro caso de
colonização. As críticas que ignoram o terrorismo
palestino e chegam até negar o direito de Israel de existir,
não podem ter outra base se não o anti-semitismo/anti-judaísmo,
disfarçado como anti-sionismo. Outros fatores seriam a
imigração muçulmana, principalmente para
França, Alemanha e Grã-bretanha e a proximidade
geográfica dos países árabes às portas
da Europa.
Nos últimos dias foi publicado o resultado de uma pesquisa
apontando absurdamente Israel como uma ameaça à
paz no mundo juntamente com Irã, Iraque, Coréia
do Norte e também os EUA e a própria UE. Por vários
motivos, principalmente pela metodologia problemática adotada,
é difícil analisar o que a pesquisa reflete. Será
que o Iraque de hoje realmente consiste em uma ameaça ao
mundo ou a situação naquele país é
muito perigosa? E se fizermos a mesma pergunta em relação
a Israel?
O que sim podemos avaliar é que a pesquisa reflete a exposição
excessiva na mídia européia e mundial do conflito
israelense-palestino. A cada reportagem sobre Coréia Norte,
são publicadas 10 sobre o conflito, a cada resolução
da ONU que condena Arábia Saudita por violação
de direitos humanos (que nunca acontece), existem 50 que condenam
Israel. A imprensa européia deveria aprender a ser muito
mais imparcial e menos tendenciosa.
* Eitan Surkis é ministro conselheiro
da Embaixada de Israel, em Brasília. O presente aritgo
foi publicado no jornal Correio Braziliense, em 11 de novembro
de 2003.