Visão Judaica - Edição N° 21
:. Reavivando o judaísmo chinês .:

Por: Daneal Charney

Quando encontrei em Beijing (Pequim), num armazém local, símbolos judaicos, após ter estado na China por quase dois anos, para mim foi o achado do século. Os pequenos rolos redondos simbolizavam a presença histórica do povo judeu na China e a conexão das comunidades judaicas modernas de Shangai e Beijing.
Esta conexão se tornou pública em agosto [de 1998], através da televisão no mundo inteiro, quando a sra. Hilary Clinton inaugurou oficialmente a Sinagoga recém restaurada, Ohel Rachel, no coração do centro de Shangai.
Este acontecimento é o resultado de 17 anos de insistência, por parte do rabino americano Arthur Schneier, perante as autoridades chinesas, para que deixassem o prédio onde ficava a Comissão Educacional de Shangai e o restaurassem como era originalmente. O prédio é um de vários que atendiam à comunidade judaica de Shangai nos anos 40 e composta de 30.000 membros.
A visita de Clinton foi posterior àquela do rabino em junho, uma das diversas feitas por ele na intenção de fazer com que o governo chinês reconhecesse a religião judaica como religião. Com o retorno de Hong Kong à China a comunidade judaica do continente, composta de 400 membros, passou a 3.000, reforçando a posição do rabino Schneier.
O número de judeus que visitam a China subiu muito nos últimos anos, inclusive os casamentos mistos com chineses. Resta ver se o governo chinês estará disposto a restaurar outras sinagogas (há mais seis) em Shangai. Até agora não se sabe até que ponto a sinagoga restaurada será aberta ao público judaico. Vinte e seis meses atrás, o líder comunitário, Seth Kaplan, residente em Shangai recebeu judeus de todas as comunidades.
Existem diversas teorias a respeito dos judeus na China. Sabe-se que no século XI criaram uma resistência permanente em Kaifeng. Alguns dizem que os primeiros pertenciam a uma das tribos de Israel. Outros acham que foram judeus fugindo de perseguições, após a destruição do Templo de Jerusalém e atraídos por oportunidades econômicas na China e sua tolerância para com as outras religiões. Julgando pelos artefatos encontrados, poderiam ser judeus da Pérsia, Iêmen ou Índia. Rezavam em hebraico, observavam dieta 'kosher' e construíram uma sinagoga. Um documento importante é uma pedra com inscrições no pátio da antiga sinagoga de Kaifeng, mencionando que 70 famílias judaicas, residentes nesta cidade, foram os primeiros membros da comunidade de Kaifeng e seus nomes foram: Li, Chao. Chu. Shih, Chang, Kai e Ai. Alguns pesquisadores acham que o nome Li descende de Levi. Através dos séculos se confundiram com a população local, exceto que mantiveram o hábito de não comerem carne de porco. Hoje, os "descendentes dos judeus de Kaifeng" se parecem com os outros chineses locais, todavia mantém um interesse em suas raízes judaicas.
Foram confundidos com os muçulmanos, porque usavam kipás na cabeça e não comiam carne de porco.
Na virada do século XX, somente 140 judeus chineses se encontravam em Kaifeng. Por irônico que possa parecer, a tolerância e a falta de ameaças que atraíram inicialmente os judeus na China tornou a assimilação fácil.
A Sinagoga de Kaifeng e os textos sagrados foram destruídos diversas vezes e não tendo uma liderança central, a comunidade se dispersou e os casamentos mistos aumentaram.
Hoje, ainda existem chineses que se dizem descendentes de judeus. Entre eles, Shih Hung-Mo, de idade avançada, que vive em Taiwan. Durante entrevista com o rabino Marvin Tokayer em 1974, Shih disse que seus antepassados vieram a Kunming no início da dinastia ming, ou seja pouco depois do ano 1368. Shih vive sozinho em Taiwan, porque diz não ter encontrado uma moça judia para se casar.
A conexão da história judaico-chinesa tem um final feliz. Devido à tolerância religiosa na China os judeus viveram pacificamente durante centenas de anos e neste século, acharam refúgios, durante os "pogroms" russos, e as perseguições nazistas. Em 1949, a China fez um gesto humanitário, permitindo a entrada de 20.000 refugiados judeus sem vistos. A China foi o único país que não fechou as portas aos judeus após 1938.
Assim, a China se tornou o grande refúgio dos judeus no século XX. Após os "pogroms" e a revolução russa, os judeus russos se refugiaram em Harbin e mais tarde em Shangai. Com a ascensão do nazismo na Alemanha, os refugiados judeus aumentaram. Calcula-se na China que chegou a 30.000 o número de judeus, considerando que havia 100.000 estrangeiros ao todo na China. A maioria viveu em Tianjin, Harbin e Shangai. A comunidade de Shangai foi a mais numerosa e incluía judeus sefaradim, russos e diversos refugiados europeus. Tiveram sinagogas, clubes, hospitais e lojas.
Três das mais notáveis famílias de judeus sefaradim foram os Sassoons, Hardoons e Kadoories. Contribuíram muito com o desenvolvimento chinês e deixaram seus legados de diversas maneiras. O Peace Hotel, por exemplo, foi construído por Victor Sassoon em 1840.
Apesar de após 1950 a maioria dos estrangeiros ter deixado a China, os judeus continuaram em grande proporção, entre os que ficaram para construir a 'Nova China'. Por exemplo, o judeu americano Sidney Rittenberg, que viveu na China desde os anos 40 e que ficou, se tornou um alto membro do partido comunista. Atualmente vive nos Estados Unidos com sua esposa chinesa Yulin.
As relações oficiais entre a China e Israel desde 1993 ampliaram os intercâmbios econômicos e sociais. O interesse crescente no judaísmo entre os acadêmicos chineses resultou na fundação do Centro para Estudos Judaicos e Israelenses de Shangai e uma cadeira de quatro anos de estudos de literatura e língua hebraica na Universidade de Beijing. O Centro de Shangai também providencia tours turísticos no velho bairro judaico em Hongkew.
Em 1994 um Seminário Internacional de Judeus em Shangai reuniu 200 antigos refugiados que vieram dos EUA, Israel, Áustria, França, França e Alemanha e que viveram no distrito de Hongkew em Shangai.
Judeus jovens como eu, que viajamos para a China por motivos profissionais e achamos uma parte de nossas raízes aqui, ficamos maravilhados. No mês de novembro passado, um grupo de 13 jovens judeus foi para Kaifeng para um jantar do shabat. Neste jantar participaram alguns membros da comunidade judaica local que não tinha praticado esta tradição há muito tempo.

* Daneal Charney é judeu e reside em Toronto. Viveu e trabalhou na China durante dois anos. Seu artigo foi publicado em 1998 no The Canadian Jewish News.. Enviado por Leon M.Mayer

 



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