Visão Judaica - Edição N° 21
:. Onde Krishna e Chabad se (des)encontram .:

Por: Marcos Wasserman *

Encontro-me presentemente na Índia, na cidade de Nova Deli, após ter permanecido uma semana, num fim de mundo, na montanhosa região do Himalaia. Para lá fui a fim de prestar assistência jurídica a um jovem israelense, detido pelas autoridades quando viajava de ônibus, despreocupadamente, vindo de uma cidadezinha longínqua, para outra igual. Motivo da prisão: droga; maconha. Como a quantidade que se encontrava em seu poder era pequena, provavelmente, para uso próprio, o suspeito foi solto mediante fiança e aguarda julgamento que, na melhor das hipóteses, ocorrerá dentro de um ano.
Tendo o seu passaporte sido apreendido o suspeito não teve muitas opções, a não ser acomodar-se num modesto barraco, alugado por US$ 20 por mês, ao lado de outro par de jovens israelenses, também detidos por igual motivo. O caso se fosse isolado, não teria maior transcendência. Ocorre que vários jovens estão detidos, em diferentes localidades na Índia, seja na região do Himalaia, seja em Nova Deli, e especialmente na antiga ex-colônia portuguesa de Goa, alguns já cumprindo pena de prisão.
Quem são estes jovens? Que acontece com eles?
Trata-se de rapazes e moças cuja idade na maioria oscila entre 22 anos, e ao terminar o seu serviço militar obrigatório em Israel, saem a explorar o mundo, via de regra em duas regiões: a América Latina, o Brasil, em especial, e a Índia. São os mochileiros. Jovens sadios, estudantes, de boa formação familiar, viajam sozinhos, ou em parelhas, percorrem áreas enormes, para conhecer outras culturas.
A Índia é um atrativo especial. Há uma certa mística: os "gurus", os faquires, lendas sem fim são um atrativo irresistível para os jovens em busca de algo novo. Goa então é o paraíso hippie, desde os anos 60 (do século passado, claro) com os "trance partries". Daí, até o uso da droga, qualquer que seja, é só um passo. Só que na Índia a lei é muito severa. Sequer admite o conceito "para uso próprio". Droga é crime. Ponto. As condenações são pesadas. Em certos casos graves é prevista até a pena de morte. Disto, os milhares de jovens que invadem a Índia, vindos de todos os cantos do mundo, simplesmente não sabem ou preferem ignorar. E as conseqüências são tristes e trágicas, para os jovens e suas famílias.
Na Índia o exótico é o denominador comum. Caminhando pelo "shuk" (mercado), um dos muitos na velha Dehly, com centenas e centenas de lojas nas estreitas ruas onde uma ruidosa multidão se movimenta, no meio de um tráfego ruidoso de todos os tipos de veículos, além de vacas passeando tranqüilamente, as quais são intocáveis, me deparo com um cartaz em hebraico! Numa ruela lateral encontro um hostel pouco atraente e de duvidoso aspecto, com um pomposo nome relacionado a Krishna. Subo pelas escadas até o terceiro andar. Lá está a placa em hebraico. Abro a porta e entro - o que me parece ser - uma sinagoga! Pasmem. É o Beit Chabad. Sou recebido com um caloroso "Shalom Aleichem" por três sorridentes jovens religiosos, barbudos e de chapéu preto, visão comum em Jerusalém. Mas em Nova Deli? Venho, a saber, que Chabad se instalou em várias localidades da Índia, com a finalidade precípua de assistir os jovens israelenses que por aqui aportam. Sendo de formação liberal nunca tive qualquer identificação com certos movimentos religiosos. Tive que dar a mão à palmatória. O que Chabad faz nesta região é digno de ser contado. Venho, a saber, do muito que eles tem feito, especialmente em favor dos que vem buscar alguma ajuda concreta e espiritual. Além do mais fui obsequiado com um prato de tchulent, o melhor que já comi na minha vida.
Em nenhum outro lugar do mundo, só mesmo na Índia, seria possível "encontrar" Chabad com Hare Krishna.

* Marcos Wasserman é advogado e presidente do Centro Cultural Israel-Brasil em Tel Aviv. A publicação deste artigo é autorizada pelo autor. E- Mail:mlwadvog@netvision.net.il

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