Por: Sérgio Feldman*
No inicio desta
semana assisti um filme que me emocionou muito. Invasões
bárbaras. Uma obra canadense, sem artistas famosos e com
um diretor pouco conhecido. Um filme sensível e muito reflexivo.
O personagem principal esta à beira da morte e faz reflexões
sobre sua geração. Trata-se de uma geração
que nasceu e viveu na segunda metade do século XX. Viveu
sob bandeiras e ideais, que os artistas denominam os "ismos":
feminismo, socialismo e muitos outros. E viu seus ideais desaparecerem
pelo ralo da História. Na visão do filme a sociedade
ocidental está em ocaso. A sociedade democrática
e tolerante dotada de valores e padrões culturais que propõe
respeito à alteridade e à diversidade cultural está
com seus dias contados. A nossa civilização esta
por acabar. Não é preciso ser muito pessimista para
perceber que os valores estão mudando e que o fundamentalismo
se espraia no mundo de uma maneira vertiginosa.
Cada vez mais receio que estamos perdendo espaço. O mundo
já não é o mesmo de décadas atrás.
Falta idealismo entre as pessoas de mente aberta, que se deixam
tomar ou pelo consumismo ou pela indiferença; e sobra fanatismo
no mundo afora, movido pela miséria e falta de perspectiva
de um mundo melhor.
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Israel I. Uma coisa me impressionou muito na minha recente visita
a Israel. A vida segue apesar de tudo. Os israelenses sobrevivem
ao terror, com uma coragem e uma fibra única. Não
é fácil viver num país assolado pela ameaça
de atentados suicidas. Que povo de fibra!.
Israel II. Como se chegar à paz? Os fanáticos dos
dois lados (não se iluda: há fanáticos palestinos
e há fanáticos judeus) não admitem passos
de abertura e tolerância. Em nome de direitos históricos,
os dois lados enrijecem seus músculos e não cedem
um palmo. Os radicais irão prevalecer sobre a maioria moderada?
Muitos dos que habitam colônias na Judéia e Samária,
aceitariam sair por uma boa indenização. Uma minoria
radical, dos dois lados, teima em levantar lemas de um nacionalismo
extremista e travam qualquer chance de diálogo. O preço
é muito caro.
Lamento as nossas perdas, mas lamento as perdas e o sofrimento
dos palestinos. Um texto judaico diz: "O sangue é
sempre vermelho, seja meu, ou seja de meu vizinho". Não
quero órfãos e nem viúvas, não quero
famílias enlutadas pela perda de seres amados: nem judeus
e nem palestinos.
Israel III. Assisti a um filme em Israel. Relata as aventuras
e desventuras de um peregrino africano, cristão e negro.
É triado no aeroporto e considerado imigrante ilegal, como
alguns dos que tentam vir a Israel em busca de trabalho. Acaba
preso apesar de jurar que apenas quer ver Jerusalém. Após
alguns dias é tirado do cárcere, por um capataz
corrupto que suborna um policial, em busca de mão-de-obra
barata. Depois de ser explorado pelo capataz, fica esperto e acaba
se tornando parte do esquema: explora alguns dos outros trabalhadores
ilegais e começa a ganhar dinheiro. Sai do mundo idealizado
do peregrino e da fantasia baseada no imaginário que permeia
a visão da Jerusalém celeste. E penetra na Israel
materialista, mundana e real que está inserida no capitalismo
contemporâneo. Isso me fez pensar que às vezes idealizamos
nossas relações com Israel. Na sociedade israelense
tem todo o tipo de gente; na política israelense tem corrupção;
nas ruas de Israel há prostitutas e no cotidiano de Israel
há erros diversos. Israel é uma sociedade como muitas
outras: tem enormes qualidades, mas não é e nem
pode ser perfeita.
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Holocausto. Iniciamos os passos para criar um Memorial e mini
museu do Holocausto. Já deveríamos tê-los
feito há muitos anos. Fui enviado ao Yad Vashem, para iniciar
a coleta de fotos. Foi difícil. Mesmo tendo trabalhado
antes com o tema e realizado a bem sucedida mostra "Holocausto:
Ser Testemunha" (cedida pelo Yad Vashem), fiquei sensibilizado
com a dramática e já bem conhecida narrativa da
tragédia. Cada foto me mostrava um rosto, de alguém
que com alta dose de chance não vivera muito tempo mais
depois de ter sido fotografado. E havia olhos que me olhavam através
do dia: implorando que eu não os esquecesse, que eu não
apagasse a chama de sua memória. Onde eu estivesse, aonde
eu fosse, eu os via. Rogavam que fizesse algo por eles: não
os deixasse esquecidos. Mulheres, velhos, crianças e homens
na flor da idade. Famílias inteiras fotografadas nos trens
ou no caminho das câmaras de gás. Que não
deixasse o silêncio apagar suas memórias. Os revisionistas
históricos querem que se apaguem. Investem no silêncio.
Extra-oficialmente queria solicitar apoio de todos os elementos
da comunidade que tenham objetos, documentos e fotos do Holocausto
ou de fatos contemporâneos: separem-nos e nos doem. Em breve
faremos um pedido oficial. Em nome dos que foram, e em nome dos
que sobreviveram e carregaram esta dor e a sofrida memória
de perdas e de humilhações vivenciadas, rogo que
apóiem este projeto que pretende resgatar a memória
coletiva e não deixar que a luz daqueles olhos que me fitavam
nas fotos dos arquivos de Yad Vashem, se apague.
* Sérgio
Feldman é professor adjunto de História Antiga do
Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná
e doutorando em História pela UFPR.