Visão Judaica - Edição N° 21
:. Invasões Bárbaras .:

Por: Sérgio Feldman*

No inicio desta semana assisti um filme que me emocionou muito. Invasões bárbaras. Uma obra canadense, sem artistas famosos e com um diretor pouco conhecido. Um filme sensível e muito reflexivo. O personagem principal esta à beira da morte e faz reflexões sobre sua geração. Trata-se de uma geração que nasceu e viveu na segunda metade do século XX. Viveu sob bandeiras e ideais, que os artistas denominam os "ismos": feminismo, socialismo e muitos outros. E viu seus ideais desaparecerem pelo ralo da História. Na visão do filme a sociedade ocidental está em ocaso. A sociedade democrática e tolerante dotada de valores e padrões culturais que propõe respeito à alteridade e à diversidade cultural está com seus dias contados. A nossa civilização esta por acabar. Não é preciso ser muito pessimista para perceber que os valores estão mudando e que o fundamentalismo se espraia no mundo de uma maneira vertiginosa.
Cada vez mais receio que estamos perdendo espaço. O mundo já não é o mesmo de décadas atrás. Falta idealismo entre as pessoas de mente aberta, que se deixam tomar ou pelo consumismo ou pela indiferença; e sobra fanatismo no mundo afora, movido pela miséria e falta de perspectiva de um mundo melhor.
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Israel I. Uma coisa me impressionou muito na minha recente visita a Israel. A vida segue apesar de tudo. Os israelenses sobrevivem ao terror, com uma coragem e uma fibra única. Não é fácil viver num país assolado pela ameaça de atentados suicidas. Que povo de fibra!.
Israel II. Como se chegar à paz? Os fanáticos dos dois lados (não se iluda: há fanáticos palestinos e há fanáticos judeus) não admitem passos de abertura e tolerância. Em nome de direitos históricos, os dois lados enrijecem seus músculos e não cedem um palmo. Os radicais irão prevalecer sobre a maioria moderada? Muitos dos que habitam colônias na Judéia e Samária, aceitariam sair por uma boa indenização. Uma minoria radical, dos dois lados, teima em levantar lemas de um nacionalismo extremista e travam qualquer chance de diálogo. O preço é muito caro.
Lamento as nossas perdas, mas lamento as perdas e o sofrimento dos palestinos. Um texto judaico diz: "O sangue é sempre vermelho, seja meu, ou seja de meu vizinho". Não quero órfãos e nem viúvas, não quero famílias enlutadas pela perda de seres amados: nem judeus e nem palestinos.
Israel III. Assisti a um filme em Israel. Relata as aventuras e desventuras de um peregrino africano, cristão e negro. É triado no aeroporto e considerado imigrante ilegal, como alguns dos que tentam vir a Israel em busca de trabalho. Acaba preso apesar de jurar que apenas quer ver Jerusalém. Após alguns dias é tirado do cárcere, por um capataz corrupto que suborna um policial, em busca de mão-de-obra barata. Depois de ser explorado pelo capataz, fica esperto e acaba se tornando parte do esquema: explora alguns dos outros trabalhadores ilegais e começa a ganhar dinheiro. Sai do mundo idealizado do peregrino e da fantasia baseada no imaginário que permeia a visão da Jerusalém celeste. E penetra na Israel materialista, mundana e real que está inserida no capitalismo contemporâneo. Isso me fez pensar que às vezes idealizamos nossas relações com Israel. Na sociedade israelense tem todo o tipo de gente; na política israelense tem corrupção; nas ruas de Israel há prostitutas e no cotidiano de Israel há erros diversos. Israel é uma sociedade como muitas outras: tem enormes qualidades, mas não é e nem pode ser perfeita.
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Holocausto. Iniciamos os passos para criar um Memorial e mini museu do Holocausto. Já deveríamos tê-los feito há muitos anos. Fui enviado ao Yad Vashem, para iniciar a coleta de fotos. Foi difícil. Mesmo tendo trabalhado antes com o tema e realizado a bem sucedida mostra "Holocausto: Ser Testemunha" (cedida pelo Yad Vashem), fiquei sensibilizado com a dramática e já bem conhecida narrativa da tragédia. Cada foto me mostrava um rosto, de alguém que com alta dose de chance não vivera muito tempo mais depois de ter sido fotografado. E havia olhos que me olhavam através do dia: implorando que eu não os esquecesse, que eu não apagasse a chama de sua memória. Onde eu estivesse, aonde eu fosse, eu os via. Rogavam que fizesse algo por eles: não os deixasse esquecidos. Mulheres, velhos, crianças e homens na flor da idade. Famílias inteiras fotografadas nos trens ou no caminho das câmaras de gás. Que não deixasse o silêncio apagar suas memórias. Os revisionistas históricos querem que se apaguem. Investem no silêncio.
Extra-oficialmente queria solicitar apoio de todos os elementos da comunidade que tenham objetos, documentos e fotos do Holocausto ou de fatos contemporâneos: separem-nos e nos doem. Em breve faremos um pedido oficial. Em nome dos que foram, e em nome dos que sobreviveram e carregaram esta dor e a sofrida memória de perdas e de humilhações vivenciadas, rogo que apóiem este projeto que pretende resgatar a memória coletiva e não deixar que a luz daqueles olhos que me fitavam nas fotos dos arquivos de Yad Vashem, se apague.

* Sérgio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutorando em História pela UFPR.


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