Visão Judaica - Edição N° 21
:. Gente de Visão .:


Moysés Bronfmann: uma vida dedicada à sua comunidade

Moysés Bronfmann teve uma intensa vida comunitária que se estendeu por mais de meio século. Mas ainda participa ativamente da comunidade israelita de Curitiba. Ele é também a memória viva da construção das bases da atual coletividade: viveu de perto e ajudou a construir a Sinagoga Francisco Frischmann, o Centro Israelita do Paraná (CIP) e da criação da B'nai B'rith e da Loja Chaim Weizmann, do Fundo Comunitário, do Instituto Cultural Brasil-Israel e do Grêmio Esportivo do CIP, responsável por todas as atividades sociais, culturais e esportivas. Mas também viveu instantes decisivos para o povo judeu, como quando da criação do Estado de Israel e as guerras dos países árabes para tentar destruí-lo. No CIP, ele é o único sócio honorário vivo com este título desde a sua criação. Mas sua atuação nunca ficou restrita à comunidade judaica. Entre outras atividades, ele é membro ativo do Rotary Club Curitiba Norte, que ajudou a fundar há 43 anos atrás.
Nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul, bem na fronteira com o Uruguai em 10 de dezembro de 1921, quinto de uma prole de nove filhos do casal Jaime e Molke (Maria). Os estudos iniciais foram na Escola israelita de Santa Maria, para onde a família se mudou e mais tarde no Ginásio dos Irmãos Maristas.
É casado com Hilda, médica que se formou em 1943. Em 1942, quando veio para Curitiba fazer o pré-médico no Colégio Estadual do Paraná, conheceu Hilda, nascida Frischmann, dias depois. Ficou surpreso porque não era comum ver moças no curso de Medicina naquela época. A família de Hilda residia em frente à Prefeitura, que então funcionava onde é hoje o Museu Paranaense, na Praça Generoso Marques - no belo edifício que foi sede por anos da principal loja do Frischmann's Magazine - e de onde podia vê-la praticamente todos os dias. Além disso, nas festas e bailes do CIP conversavam muito. Três anos mais tarde estavam casados.
Logo foi contratado pelo Centro Israelita (que então funcionava onde é hoje a Sinagoga Francisco Frischmann) para ser seu primeiro secretário-executivo, onde conheceu Manoel Scliar, um gaúcho de Porto Alegre e Nathan Paciornik, pai do dr. Moysés Paciornik, "um homem boníssimo, que ajudava a todos anonimamente e que dedicou sua vida à comunidade israelita", segundo Bronfmann. Nathan Paciornik influenciou muito em sua vida. Foi assim que começou seu envolvimento com a comunidade, um trabalho pelo qual pegou gosto e que durou décadas. Fez concurso para escriturário na Prefeitura de Curitiba e passou em terceiro lugar. Assim, passou a trabalhar pela manhã no CIP, à tarde na Prefeitura e à noite estudava. Sua atividade começava às 8 horas da manhã e ia até as 10 da noite.
Ele ingressou na faculdade de Medicina em março de 1944 e formou-se em 1949. Deixou então a Prefeitura para dedicar-se à pediatria e ginecologia.
Moysés Bronfmann relembra a "época de ouro" do CIP, quando se faziam filas para emprestar e devolver livros da biblioteca, ou se praticava esportes como "ping-pong" (tênis-de-mesa) ou ainda basquete, que revelou astros como Jaime Guelmann (Jaiminho), Chaim Israel Jugend (Xuxe) e Isaac Guelmann. Ou ainda as encenações de peças de teatro em português e em iídiche. Algumas delas foram levadas ao palco do Guaira, como Anne Frank, com atores da comunidade e dirigida por Cláudio Correa e Castro. Centenas de pessoas assistiram. Às sextas-feiras e aos sábados, o Centro se transformava em sinagoga, com muita gente que também freqüentava as cerimônias religiosas dos feriados judaicos.
Sua vida profissional mudou de rumo quando por insistência do sogro, Francisco Frischmann, que via nele um bom tino para o comércio, e por causa de problemas de saúde, afastou-se da medicina e foi cuidar do Frischmann's Magazine, que chegou a tornar-se uma das três maiores casas comerciais em Curitiba, junto com a Hermes Macedo e a Prosdócimo. Em 1970 seu sogro havia falecido e quatro anos mais tarde retirou-se da empresa. Não se arrependeu do rumo que tomou em vida profissional, mas hoje se tivesse que tomar a mesma atitude não tomaria, disse ele. Em 1975, junto com o filho Sérgio iniciou-se no ramo da construção civil, área na qual também se saiu bem.
Os filhos, o engenheiro Sérgio, o arquiteto Renato e a psicóloga Denise, seus tesouros, lhes deram outros tesouros, que curte muito e que são respectivamente os netos Rogério (já deu a Moysés e Hilda uma bisneta, Carolina), Paula e Guilherme; Pedro e Felipe; Melissa e Bruno. (Três moram nos Estados Unidos: Pedro, em Los Angeles; Melissa, em Nova York e Paula na Virginia; e Rogério, em Londres, na Inglaterra. Em 1995, quando completou 50 anos de casamento, o casal dedicou-lhes um livro, "Aos Netos, Com carinho", escrito com a ajuda do jornalista Adherbal Fortes de Sá e de Antônia Schwinden na editoração, contando a história da família.
Numa tarde agradável, Moysés e Hilda receberam com simpatia em seu belo apartamento no Batel os representantes do jornal Visão Judaica para esta entrevista:
Visão Judaica - Em todos os seus anos como líder comunitário, qual foi o momento de maior tensão?
Moysés Bronfmann - Estamos e sempre estivemos muito ligados a Israel. Em 1947 ficamos muito tensos pela oposição que se fazia à criação do Estado de Israel na ONU. O então presidente norte-americano [Harry] Truman não era a favor da criação. Achávamos que era fundamental o apoio dos EUA, mas na verdade a Rússia foi mais favorável ao novo país do que os norte-americanos. O curioso é que até hoje existe gente que imagina que Israel foi criado com o apoio do presidente do Estados Unidos. Não foi. Teve só o apoio da comunidade judaica norte-americana. Mas tivemos um outro momento de tensão em junho de 1967, por ocasião da Guerra dos Seis Dias, principalmente porque meu irmão Carlos (que em hebraico se chama Akiva) estava participando da guerra. O Akiva foi homenageado pelo governo israelense porque salvou um jipe cheio de soldados que se deslocava na área de operações e percebeu um morteiro vindo em direção ao veículo. Um dos filhos do Akiva é adido militar na Embaixada em Brasília. É o coronel Joel Ronen.
VJ - E qual o momento de maior satisfação?
MB - Sem dúvida o maior acontecimento foi a Independência do Estado de Israel proclamada em 14 de maio de 1948 por Ben Gurion. Aqui em Curitiba tivemos uma festa maravilhosa na Praça Santos Andrade, comandada pelo nosso presidente Bernardino Schulmann. Foi uma alegria total. De noite tivemos um grande carnaval na sede do centro. Afinal, desde a destruição do Templo de Jerusalém, no ano 70 E.C. que o povo judeu ansiava por isso. Mas também tivemos outros momentos, como quando inauguramos o Centro Israelita do Paraná. Naquele tempo, as coisas no CIP eram bem diferentes. Nas reuniões das lideranças da comunidade faltavam cadeiras. Em 1949 tivemos um baile de reveillon que aconteceu no shabat e acabou resultando na não eleição do presidente. José Knopfholz foi eleito em 1949 (e foi reeleito por cinco vezes) e permaneceu até 1955. Foi ele quem teve a idéia da construção da nova sede, mas não conseguiu. Sua diretoria optou por reformar a sede que ficava onde hoje é a sinagoga na Rua Cruz Machado, o que melhorou, mas não resolveu o problema dos jovens. Não havia quadras de esportes e os jovens usavam a quadra do Corpo de Bombeiros (que ficava onde hoje é a Biblioteca Pública estadual na Rua Cândido Lopes).
Em 1955 assumiram Henrique Knopfholz e Moysés, como vice-presidente. O objetivo era a nova sede. Ele conta que não foi nada fácil, aliás, muito difícil. Adotaram a idéia do professor Samuel Chamecki e passaram a vender ações. Assim, conseguiram dinheiro para a compra do terreno na Rua Nilo Peçanha. Inicialmente foi ali construído um barracão para churrasco e reuniões, além de uma quadra provisória de futebol e piscina infantil. Na eleição seguinte, Moysés assume a presidência e Henrique fica como vice. A equipe tinha mais de 30 pessoas. Quando a comunidade viu as obras, acreditou e passou a participar. A sede teve sua construção iniciada em 2 de janeiro de 1959. No lançamento da pedra fundamental estiveram presentes o então embaixador de Israel no Brasil, Arie Aroch, o presidente da Confederação Israelita Brasileira Fritz Feigl e muitas autoridades. Por intermédio de Feigl fizeram contato com a Cleams Conference, instituição judaica internacional com sede nos Estados Unidos, que atendia comunidades que abrigavam refugiados de guerra com recursos financeiros. Como Curitiba recebera muitos desses refugiados, conseguiram, após muitos esforços, marchas e contra-marchas, dinheiro em parcelas para a construção do CIP. Enquanto a sede estava sendo construída era utilizada a piscina do Círculo Militar do Paraná.
A construção da sede própria era uma necessidade. Decidimos pedir auxílio ao industrial Israel Klabin, no Rio. Fomos para lá, pedimos os azulejos para as piscinas e a construção do edifício e ele concedeu. Voltamos sem muita fé, mas uma semana depois chegou um caminhão carregado de azulejos na obra. Ainda no Rio, na casa do professor Feigl, que era um cientista, conhecemos sua esposa Regina Feigl, a maior construtora do Rio de Janeiro. Ela indagou quanto tempo levaríamos para construir a sede, e respondemos que dependendo dos recursos, três anos ou pouco mais. Prometeu mandar cinco mil cruzeiros (dinheiro da época) por mês durante a construção. E cumpriu. A sede ficou pronta em 1962. Quem concluiu foi Isaac Guelmann, eleito presidente em 1º de julho daquele ano. Quarenta anos depois, em 2002, o prédio foi desmanchado e sua estrutura reaproveitada para a construção de uma nova sede, inaugurada em 2003.
VJ - Como o senhor vê hoje a situação das comunidades israelitas da diáspora?
MB -A situação não é boa. Em São Paulo são muito ativos. Mas a situação econômica não está boa e isso não é bom para nós. Em Porto Alegre está um pouco melhor, pois a vitória obtida pela comunidade israelita sobre o anti-semita Castan deu ânimo a todos. Na França, são cinco milhões de muçulmanos e há muito anti-semitismo. Lá e em boa parte da Europa.
VJ - É muito diferente do que foi nos idos de 60 e 70?
MB - Nós viajávamos pelas cidades do Interior do Paraná e verificávamos o que estava acontecendo, os movimentos anti-semitas, etc. Qualquer coisa, passávamos à B'nai B'rith em São Paulo. Aqui em Curitiba me lembro de um problema com o Francisco Frischmann que escrevia artigos para a Gazeta do Povo e os integralistas que o perseguiam tentaram bloquear suas publicações no jornal.
VJ - Israel é uma realidade e a agressão que sofre no dia-a-dia por parte da mídia e de governos coniventes com o terror levam o líder comunitário a desanimar?
MB - De jeito nenhum. Devemos lutar pela vida. Desanimar, nunca! Temos família em Israel. Meu irmão está lá. E há um neto dele que está na fronteira. Hilda me contou que conversou uma vez com a mãe dele sobre como se sentia e ela disse que toda tarde telefona para o neto. Se todos estão em casa vivos, ela então pode ir dormir sossegada.
A cerca que Israel está construindo deve dar um pouco mais de segurança contra os suicidas-bomba que atacam indiscriminadamente a população civil.
VJ - Há alguma coisa em que o senhor acreditava nos anos 60 e 70 que tenha resistido ao teste do tempo e da história?
MB -O Sionismo continuará existindo. Temos que ser sionistas "até de baixo d'água"
Temos que continuar apoiando Israel e continuar a trabalhar pelo Brasil, mas nunca esquecer quem nós somos e o que nós passamos.
VJ - Qual deve ser a luta de hoje?
MB - A luta, sem dúvida, deve ser a de manter a união entre os judeus, a continuidade do ensino da cultura judaica e precisamos reavivar a língua iídiche. Para manter isso é preciso muita ação da comunidade e das lideranças. Há crianças da comunidade que não freqüentam a escola israelita. É necessário criar cursos de cultura judaica para gerar a freqüência dos adultos. Seminários também não são difíceis de realizar. Um papel importante nesse aspecto tem sido o das publicações judaicas e, nesse particular, eu cito o jornal Visão Judaica que vocês fazem e é muito bom, mas é uma pena ter acabado O Macabeu com toda sua história de décadas da nossa comunidade.
VJ - O senhor crê que Israel e o Judaísmo deixarão um legado para o futuro?
MB - Com certeza eu creio que sim. Israel, por si só já é um legado para as futuras gerações. Ficamos fora da terra de nossos antepassados durante 20 séculos, mas agora estamos de volta. Israel não vai acabar nunca e isso um dia os árabes vão entender. O Judaísmo com toda sua sabedoria e tradição de milênios também é um legado que herdamos de nossos antepassados e iremos deixar para as futuras gerações.



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