Por: Sami Goldstein
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No Shabat anterior
a Purim, retiraremos da Arca Sagrada dois Rolos da Torá.
No primeiro, leremos a seqüência normal dos trechos
bíblicos semanais. No segundo, entretanto, será
feita a leitura da advertência: "lembra-te do que te
fez Amalec no caminho quando saíeis do Egito" (Deuteronômio
25:17-19). A ordem "lembra-te", em hebraico "zachor",
acaba conferindo o nome especial ao Shabat. Sempre neste sábado
somos compelidos a "recordar" os feitos de Amalec, povo
hostil que, apesar de não ter sido ameaçado ou sequer
ter suas terras atravessadas pelo povo, saiu em guerra contra
os Filhos de Israel no deserto.
Por que lemos este trecho específico? Pois Amalec personifica
a opressão que sobreviria aos judeus nos séculos
posteriores. Poderosos inimigos que, assim como ele, odiaram e
ainda odeiam outras pessoas pelo simples fato de professaram uma
fé distinta ou ter um pensamento diferente. É a
identidade do ódio racial em sua mais crua forma. Como
naquela época, a infundada segregação continua
levando-nos pelas obscuras veredas da insanidade humana, gerando
violência e destruição. No caso de Purim,
o protagonista do mal se chama Haman, tesoureiro real, quem, durante
o reinado de Xerxes, filho de Dario I, (486-65 a.E.C.) ameaçou
os judeus persas de extermínio, simplesmente por serem,
como diz ele na Meguilá (Rolo de Esther): "existe
um povo espalhado e disperso entre os povos em todas as províncias
do reino; e suas leis são diferentes das leis de todos
os povos e as leis do rei não cumpre. Portanto, não
convém ao rei tolerá-lo" (Esther 3:8). Aprendemos,
por tradição, que Haman descendia de Amalec.
Entretanto, algo me intriga. A Torá, ao comandar a lembrança
deste povo, conclui com as seguintes palavras: "não
te esquecerás!" Oras, se somos ordenados a lembrar
de Amalec, não é óbvio que não nos
esqueceremos?
A resposta está no próprio enredo de Purim. Muito
embora aprendamos desde cedo que o povo fora vítima de
descomunal discriminação, não é por
aí que a história começa. "Deu o rei
um banquete a todo o povo que se achava em Shushán, a capital,
por sete dias" (id. 1:5). Um banquete que, segundo nossos
sábios, feria as leis alimentares judaicas. Mas o povo
compareceu. Na avançada sociedade persa, os judeus haviam
se inserido de tal maneira que haviam se esquecido de quem eram.
Os tempos de subordinação a Nabuconosor haviam terminado
e agora respiravam o puro ar da liberdade. Curvavam-se e prostravam-se
diante de Haman como todos, contrariando sua própria doutrina.
Eis o trecho de um testamento ético de um avô a seus
netos: "por que ser judeu? Poderia dar-lhes várias
respostas. Poderia dizer que vocês nasceram judeus, cresceram
judeus e jamais conseguirão ser algo diferente. Sei que
podem fazer outras escolhas, inclusive uma tão séria
quanto trocar sua identidade por outra. Mas, mesmo que neguem
sua condição judaica, haverá sempre outros
para lembrá-los quem são. Estejam preparados para
assumir os valores positivos do que são, pois outros serão
menos generosos".
Paralelamente, encontramos na Torá outro zachor: "lembra-te
do dia do Shabat (sábado) para santificá-lo"
(Êxodo 20:8). O Shabat, expressão máximo do
judaísmo, confere-nos nossa milenar identidade. Identificamo-nos
com D-us, com nosso povo e conosco mesmo. Por isso as palavras
são uma dura advertência "não te esquecerás!":
podemos optar pelo "lembrar" do Shabat - o prazer em
ser e pertencer a um povo cuja história se confunde com
o próprio ideal da sobrevivência humana, procurando
aprender e cumprir cada vez mais - ou o "lembrar" de
Amalec, o inimigo que não mede esforços para riscar-nos
do mapa. Independentemente da opção, "não
te esquecerás!", por mais que não se lembre,
alguém o fará por você. Assim foi com os Hamans,
Torquemadas e Hitlers da vida. Assim, estejamos preparados para
assumir os valores positivos do que somos.
Apenas para concluir com uma famosa história: um ovo de
pata acidentalmente foi colocado junto aos ovos de uma galinha.
A ave, não se dando conta de sua presença, chocou-o
juntamente com os seus. E assim, o pequeno patinho nasceu, cresceu
e viveu toda sua vida como um frango. Até que, num belo
dia, mãe e filhotes estavam passeando à beira de
um lago. Uma forte sensação empurrava o pequeno
patinho para a água quando, num só impulso saltou,
mergulhando e nadando, vibrando de alegria. A mãe entrou
em desespero: "meu filho, saia daí, você vai
se afogar!" E o patinho respondeu: "mãe, talvez
a senhora jamais entenda, mas finalmente encontrei o meu lugar
e aqui me sinto seguro".
Nosso lugar é nossa Torá. Nosso único refúgio,
no qual podemos sentir a verdadeira segurança, é
nosso judaísmo. Pois, de um jeito ou de outro acabamos
lembrando...
* Sami Goldstein é professor e líder espiritual
da comunidade israelita na Sinagoga Francisco Frischmann, em Curitiba.