Visão Judaica - Edição N° 21
:. De um jeito ou de outro acabamos lembrando .:

Por: Sami Goldstein *

No Shabat anterior a Purim, retiraremos da Arca Sagrada dois Rolos da Torá. No primeiro, leremos a seqüência normal dos trechos bíblicos semanais. No segundo, entretanto, será feita a leitura da advertência: "lembra-te do que te fez Amalec no caminho quando saíeis do Egito" (Deuteronômio 25:17-19). A ordem "lembra-te", em hebraico "zachor", acaba conferindo o nome especial ao Shabat. Sempre neste sábado somos compelidos a "recordar" os feitos de Amalec, povo hostil que, apesar de não ter sido ameaçado ou sequer ter suas terras atravessadas pelo povo, saiu em guerra contra os Filhos de Israel no deserto.
Por que lemos este trecho específico? Pois Amalec personifica a opressão que sobreviria aos judeus nos séculos posteriores. Poderosos inimigos que, assim como ele, odiaram e ainda odeiam outras pessoas pelo simples fato de professaram uma fé distinta ou ter um pensamento diferente. É a identidade do ódio racial em sua mais crua forma. Como naquela época, a infundada segregação continua levando-nos pelas obscuras veredas da insanidade humana, gerando violência e destruição. No caso de Purim, o protagonista do mal se chama Haman, tesoureiro real, quem, durante o reinado de Xerxes, filho de Dario I, (486-65 a.E.C.) ameaçou os judeus persas de extermínio, simplesmente por serem, como diz ele na Meguilá (Rolo de Esther): "existe um povo espalhado e disperso entre os povos em todas as províncias do reino; e suas leis são diferentes das leis de todos os povos e as leis do rei não cumpre. Portanto, não convém ao rei tolerá-lo" (Esther 3:8). Aprendemos, por tradição, que Haman descendia de Amalec.
Entretanto, algo me intriga. A Torá, ao comandar a lembrança deste povo, conclui com as seguintes palavras: "não te esquecerás!" Oras, se somos ordenados a lembrar de Amalec, não é óbvio que não nos esqueceremos?
A resposta está no próprio enredo de Purim. Muito embora aprendamos desde cedo que o povo fora vítima de descomunal discriminação, não é por aí que a história começa. "Deu o rei um banquete a todo o povo que se achava em Shushán, a capital, por sete dias" (id. 1:5). Um banquete que, segundo nossos sábios, feria as leis alimentares judaicas. Mas o povo compareceu. Na avançada sociedade persa, os judeus haviam se inserido de tal maneira que haviam se esquecido de quem eram. Os tempos de subordinação a Nabuconosor haviam terminado e agora respiravam o puro ar da liberdade. Curvavam-se e prostravam-se diante de Haman como todos, contrariando sua própria doutrina.
Eis o trecho de um testamento ético de um avô a seus netos: "por que ser judeu? Poderia dar-lhes várias respostas. Poderia dizer que vocês nasceram judeus, cresceram judeus e jamais conseguirão ser algo diferente. Sei que podem fazer outras escolhas, inclusive uma tão séria quanto trocar sua identidade por outra. Mas, mesmo que neguem sua condição judaica, haverá sempre outros para lembrá-los quem são. Estejam preparados para assumir os valores positivos do que são, pois outros serão menos generosos".
Paralelamente, encontramos na Torá outro zachor: "lembra-te do dia do Shabat (sábado) para santificá-lo" (Êxodo 20:8). O Shabat, expressão máximo do judaísmo, confere-nos nossa milenar identidade. Identificamo-nos com D-us, com nosso povo e conosco mesmo. Por isso as palavras são uma dura advertência "não te esquecerás!": podemos optar pelo "lembrar" do Shabat - o prazer em ser e pertencer a um povo cuja história se confunde com o próprio ideal da sobrevivência humana, procurando aprender e cumprir cada vez mais - ou o "lembrar" de Amalec, o inimigo que não mede esforços para riscar-nos do mapa. Independentemente da opção, "não te esquecerás!", por mais que não se lembre, alguém o fará por você. Assim foi com os Hamans, Torquemadas e Hitlers da vida. Assim, estejamos preparados para assumir os valores positivos do que somos.
Apenas para concluir com uma famosa história: um ovo de pata acidentalmente foi colocado junto aos ovos de uma galinha. A ave, não se dando conta de sua presença, chocou-o juntamente com os seus. E assim, o pequeno patinho nasceu, cresceu e viveu toda sua vida como um frango. Até que, num belo dia, mãe e filhotes estavam passeando à beira de um lago. Uma forte sensação empurrava o pequeno patinho para a água quando, num só impulso saltou, mergulhando e nadando, vibrando de alegria. A mãe entrou em desespero: "meu filho, saia daí, você vai se afogar!" E o patinho respondeu: "mãe, talvez a senhora jamais entenda, mas finalmente encontrei o meu lugar e aqui me sinto seguro".
Nosso lugar é nossa Torá. Nosso único refúgio, no qual podemos sentir a verdadeira segurança, é nosso judaísmo. Pois, de um jeito ou de outro acabamos lembrando...

* Sami Goldstein é professor e líder espiritual da comunidade israelita na Sinagoga Francisco Frischmann, em Curitiba.

 


Voltar