Por: Vittorio Corinaldi
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Apesar da crescente popularidade da cultura brasileira no mundo,
não creio que o leitor esteja muito ciente da presença
em outros países do ocidente, de artistas de origem brasileira,
que assumem uma importância marcante na cultura local, e
até transcendem para ume esfera internacional relevante.
É este o caso de David Perlov, recém-falecido em
Tel Aviv.
Nascido no Brasil, e portador da influência dos anos de
sua inicial formação brasileira, emigrou para Israel
na época muito densa de acontecimentos épicos e
dramáticos para o povo judeu, que foram o nascimento do
Estado de Israel e o período subseqüente.
Aqui ele se afirmou - durante anos de perseverante atividade profissional
e acadêmica - como o mestre precursor e o autor de uma criação
personalíssima no cinema israelense: qualidades que lhe
renderam o "Prêmio Israel" - máximo atestado
de reconhecimento da jovem nação por contribuições
significativas para sua nascente cultura.
Perlov conquistou o direito a este merecimento por uma ação
incansável e intransigente dentro de sua arte. Esta ele
via como o veículo de transmissão da mensagem humana,
que emanava de sua singular e contagiante personalidade. E é
esta mensagem humana que veio a modelar uma visão de mundo
que se mantém inalterada, junto a muitos de sua geração
que o tiveram como amigo, e junto a muitos e muitos discípulos
que ele formou através de suas originais obras de cinema
e através do ensinamento como titular da cátedra
de Cinema da Universidade de Tel Aviv.
Tive o privilégio de me contar entre a primeira categoria
citada, e de acompanhar - embora a distância, por diferenças
de modalidades na ação profissional e pelos inevitáveis
obstáculos práticos na atividade de cada um de nós
- seu desenvolvimento a partir da pintura (em cujo conhecimento
se aprofundou com origem numa ligação muito especial
com Lasar Segall), e de presenciar o início de sua mudança
de rumo em direção ao cinema.
Perlov compreendeu muito cedo a posição que o cinema
viria a ter, como a linguagem que - mais amplamente e mais autenticamente
do que qualquer outra forma de expressão artística
- poderia falar aos setores mais largos da sociedade humana, e
levar-lhes aquele conteúdo de humanidade sem o qual qualquer
arte se torna vago exercício estéril de inúteis
(e frequentemente charlatãs) tendências exibicionistas,
ou de pseudo-filosofias de duvidoso substrato intelectual.
Vítima não raro da incompreensão e da arbitrariedade
do "establishment" e da burocracia, Perlov encaminhou
grande parte de sua criação para o campo do cinema
documentário, onde porém desenvolveu um estilo muito
próprio, que fugia da mera descrição dos
fatos, e sim os interpretava através de uma observação
sensível e de um amor pelo sujeito retratado - seja ele
um indivíduo modesto e anônimo (como no caso da "Tante
Chinoise" do álbum de desenhos descoberto na sótão
de sua moradia de estudante na França), ou um líder
reconhecido (como no filme sobre Ben Gurion, o fundador do Estado).
E sua obra máxima, o "Diário", veio a
se transformar num depoimento vivo de toda uma época, focalizando,
através do espelho de sua redondeza mais próxima
e com a ajuda de seu próprio acompanhamento falado, todo
o desenrolar da vida do país desde a guerra de Kipur.
No "Diário" ele também volta por episódios
aos cenário de seu passado, percorrendo com olhos saudosos
e penetrantes a São Paulo de sua juventude ou a Paris de
sua formação posterior. Mas toda sua documentação
se apoia mais do que tudo nas raízes de sua identidade
judaica, que nas vicissitudes de seus familiares em lugares e
roteiros de vida vários e diferentes, espelham a formação
semeada de tragédia e de sofrimento, mas igualmente de
esperança e de amor, de todo um povo empenhado na empolgante
e incompreendida aventura de sua sobrevivência e renascimento.
* Vittorio Corinaldi é arquiteto e vive em Tel Aviv, Israel