Visão Judaica - Edição N° 21
:. 3 x 15 = 3 x 7 ? .:

Por:
Jane Bichmacher de Glasman *

Não, não é um joguete matemático, uma equivalência de expressões com truque ou uma pseudo-tautologia. Refiro-me a algo extremamente simples, mas que leva a considerações complexas.
Fim do mistério: 3 X 15 = 3 grandes festas do calendário judaico que se seguem: 15 de shvat - Tu biShvat; 15 de Adar - Purim e 15 de Nissan - Pessach. 3 X 7= no calendário civil, correspondem a 7 de fevereiro, 7 de março e 7 de abril de 2004...
Até aí nenhuma novidade. O calendário civil é solar diferindo do judaico que é luni-solar, no qual os meses começam com a lua nova e a maioria das festas é celebrada na lua cheia: por isso tanta festa no dia 15!
Já seria um tema per se - mais complexo e sedutor ainda, o do número 7 (sete)...
Mas devido à minha limitação de caracteres (artigos 3000 X fome zero) prefiro introduzir uma reflexão sobre a relação destas festas em seqüência com o judaísmo, de uma forma mais ampla.
Tu biShvat, uma das minhas prediletas, que sempre "torço" para coincidir com meu aniversário civil, é a mais "politicamente correta" das 3: como ano novo das arvores, fala da ecologia, a celebração e a preservação da natureza que torna o ser humano "parceiro do Criador", responsável pela manutenção da Criação - o que lhe confere um caráter universal. Por outro lado, antigos costumes da festa, falam do indivíduo (comer um fruto novo nesta data pode lembrá-lo que há sempre algo novo a ser experimentado, vivenciado - e por isso, de uma doce forma ensina humildade, contra a soberba de quem acha que tudo sabe), da ligação do povo judeu com Israel (ao serem colocados à mesa os frutos característicos da "terrinha", como os shivat há-minim, as 7 espécies) e da preservação do povo judeu através da celebração do seu ciclo vital (quando nascia uma criança plantava-se uma árvore, de cuja madeira seria feita a hupá de seu casamento).
Purim fala da alegria de sobrevivência do povo judeu, apresenta o primeiro modelo de discurso anti-semita (que permaneceu basicamente o mesmo através dos séculos), fala da nossa parte na responsabilidade pela sobrevivência (a necessidade de nos defendermos), de Diáspora e Judaísmo, além de despertar polêmicas como casamentos mistos (o de Ester), machismo e feminismo, permanência no exílio por opção, aculturação e assimilação e, "sartreanamente", ensina que por mais que um judeu se oculte, seja no nome (Ester = escondida, Mordechai e Marduk, deus babilônico) ou na integração à sociedade em que vive, sempre haverá um "Haman" que o identificará e dirá que ele é diferente, por isso ameaçador e devendo ser eliminado - o que conduz à questão universal da discriminação e da intolerância...
Pessach, a festa que fala da passagem para a liberdade, conduz ao questionamento anual sobre a condição humana (somos livres?), qual o preço da liberdade (lembramos e lamentamos quantos egípcios morreram para sermos livres), liderança e judaísmo (nas questões sobre Moisés e como ao "omiti-lo" da Hagadá ressaltamos o Zroa, o braço de D-us, na condução dos eventos, ao invés de "idolatrarmos" lideres).
Mas acima de tudo, marca o aniversário do nascimento do povo judeu, os israelitas como um povo, cujo monoteísmo ético inicia com o henoteísmo do Patriarca Abraão. Na seqüência histórica, esta é a primeira das festas, Tu biShvat a segunda e Purim, a terceira, lembrando, de forma simbólica e sintética, que (como sempre digo) a contagem do tempo tem sentido a partir da nossa liberdade, que a liberdade física do Pessach só é completa com a espiritual (em Shavuot com a Torá) - ou seja, que precisamos de normas para podermos sobreviver em sociedade e como povo e, finalmente, que não podemos esquecer que fazemos parte da Humanidade, com características específicas que nos identificam como um povo e que a assimilação "ocultativa" conduz à destruição... fechando o ciclo!
Por isso, feliz aniversário para todos nós!

* Jane Bichmacher de Glasman é escritora, professora, doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica - USP, fundadora e ex-diretora do Programa de Estudos Judaicos na UERJ

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