Não, não é
um joguete matemático, uma equivalência de expressões
com truque ou uma pseudo-tautologia. Refiro-me a algo extremamente
simples, mas que leva a considerações complexas.
Fim do mistério: 3 X 15 = 3 grandes festas do calendário
judaico que se seguem: 15 de shvat - Tu biShvat; 15 de Adar -
Purim e 15 de Nissan - Pessach. 3 X 7= no calendário civil,
correspondem a 7 de fevereiro, 7 de março e 7 de abril
de 2004...
Até aí nenhuma novidade. O calendário civil
é solar diferindo do judaico que é luni-solar, no
qual os meses começam com a lua nova e a maioria das festas
é celebrada na lua cheia: por isso tanta festa no dia 15!
Já seria um tema per se - mais complexo e sedutor ainda,
o do número 7 (sete)...
Mas devido à minha limitação de caracteres
(artigos 3000 X fome zero) prefiro introduzir uma reflexão
sobre a relação destas festas em seqüência
com o judaísmo, de uma forma mais ampla.
Tu biShvat, uma das minhas prediletas, que sempre "torço"
para coincidir com meu aniversário civil, é a mais
"politicamente correta" das 3: como ano novo das arvores,
fala da ecologia, a celebração e a preservação
da natureza que torna o ser humano "parceiro do Criador",
responsável pela manutenção da Criação
- o que lhe confere um caráter universal. Por outro lado,
antigos costumes da festa, falam do indivíduo (comer um
fruto novo nesta data pode lembrá-lo que há sempre
algo novo a ser experimentado, vivenciado - e por isso, de uma
doce forma ensina humildade, contra a soberba de quem acha que
tudo sabe), da ligação do povo judeu com Israel
(ao serem colocados à mesa os frutos característicos
da "terrinha", como os shivat há-minim, as 7
espécies) e da preservação do povo judeu
através da celebração do seu ciclo vital
(quando nascia uma criança plantava-se uma árvore,
de cuja madeira seria feita a hupá de seu casamento).
Purim fala da alegria de sobrevivência do povo judeu, apresenta
o primeiro modelo de discurso anti-semita (que permaneceu basicamente
o mesmo através dos séculos), fala da nossa parte
na responsabilidade pela sobrevivência (a necessidade de
nos defendermos), de Diáspora e Judaísmo, além
de despertar polêmicas como casamentos mistos (o de Ester),
machismo e feminismo, permanência no exílio por opção,
aculturação e assimilação e, "sartreanamente",
ensina que por mais que um judeu se oculte, seja no nome (Ester
= escondida, Mordechai e Marduk, deus babilônico) ou na
integração à sociedade em que vive, sempre
haverá um "Haman" que o identificará e
dirá que ele é diferente, por isso ameaçador
e devendo ser eliminado - o que conduz à questão
universal da discriminação e da intolerância...
Pessach, a festa que fala da passagem para a liberdade, conduz
ao questionamento anual sobre a condição humana
(somos livres?), qual o preço da liberdade (lembramos e
lamentamos quantos egípcios morreram para sermos livres),
liderança e judaísmo (nas questões sobre
Moisés e como ao "omiti-lo" da Hagadá
ressaltamos o Zroa, o braço de D-us, na condução
dos eventos, ao invés de "idolatrarmos" lideres).
Mas acima de tudo, marca o aniversário do nascimento do
povo judeu, os israelitas como um povo, cujo monoteísmo
ético inicia com o henoteísmo do Patriarca Abraão.
Na seqüência histórica, esta é a primeira
das festas, Tu biShvat a segunda e Purim, a terceira, lembrando,
de forma simbólica e sintética, que (como sempre
digo) a contagem do tempo tem sentido a partir da nossa liberdade,
que a liberdade física do Pessach só é completa
com a espiritual (em Shavuot com a Torá) - ou seja, que
precisamos de normas para podermos sobreviver em sociedade e como
povo e, finalmente, que não podemos esquecer que fazemos
parte da Humanidade, com características específicas
que nos identificam como um povo e que a assimilação
"ocultativa" conduz à destruição...
fechando o ciclo!
Por isso, feliz aniversário para todos nós!
* Jane Bichmacher de Glasman é
escritora, professora, doutora em Língua Hebraica, Literaturas
e Cultura Judaica - USP, fundadora e ex-diretora do Programa de
Estudos Judaicos na UERJ