Pilar Rahola
Se acessarmos a página da web da Fundação Atman descobrimos dados muito interessantes. Primeiro, seu presidente é o iraniano Farshad Zandi, generoso magnata do petróleo que presenteou a fundação com um milhão de euros. Segundo, que a vice-presidenta é Teresa Aranda (1), a mulher de Juan Luis Cebrián, conselheiro geral da Prisa. Entre os diretores, a preferida de todos os progressistas antiisraelenses que se prezam, a professora Gema Martín Muñoz (2), cujas declarações a favor da bondade do Islã são bem conhecidas. Com esta notável tríade, um peso-pesado iraniano do petróleo (citado, certamente, no caso Gescartera), uma progressista oficial e uma apologista espanhola do Islã, tudo o que ocorreu era previsível.
Assim, pois, dos múltiplos sentimentos que posso expressar, entre eles o da indignação, a surpresa não tem razão de ser. Faz muito tempo que aviso que é nos centros de opinião da esquerda onde se perpetram as piores barbaridades, tanto contra Israel como na prática de um paternalismo benevolente que minimiza o terrorismo islâmico, o comprende, ou inclusive o justifica. O exemplo mais recente quem deu foi Ferrán Izquierdo (3) na Fundação Alfons Comín (4), numa conferência aonde a justificativa do terrorismo palestino chegou à categoria de escândalo.
Voltando à Fundação Atman, o escândalo tem igualmente importantes proporções: no registro de umas conferências sobre "a aliança das civilizações" — alguns têm escrito que esta idéia era uma autêntica armadilha, cujos únicos aliados seriam os ditadores do petrodólar, os imãs fundamentalistas e os intelectuais antiocidentais —, neste apontamento, dizia, a fundação convidou o ínclito, mitificado, venerado e recorrente intelectual suíço-egípcio Tariq Ramadan.
Este fato teve como conseqüência negativa o deputado espanhol Gustavo de Arítegui e embaixador de Israel na Espanha Víctor Harel assistirem ao ato. Certamente, com a premissa que dão às convicções profundas, sobretudo se é para defender o Islã, Gema Martín Muñoz se apressou em qualificá-los de "intolerantes" e de "excludentes". Ou seja, e como sempre, os maus são os outros. Portanto, nós.
Vejamos quem é este 'bom homem', intelectual dos prós, que ajudará a clarificar nossas mentes perturbadas e excludentes e que tomará parte da pomposa aliança de civilizações “zapateras”. Daniel Pipes o considera "a realeza" do islamismo e com certeza suas origens são de linhagem: seu avô, Hasan al-Banna, fundou a instituição islâmica mais poderosa e malvada do século XX, "a Fraternidade Muçulmana do Egito", cujas trágicas derivações são, por exemplo, o Hamas palestino ou o regime assassino do Sudão. Ao se contemplar a Fraternidade se contam dezenas de atos terroristas e múltiplos assassinatos. O pai de Tariq, Said Ramadan, fugiu do Egito por pertencer ao islamismo radical, e ele nasceu na bela, doce e harmoniosa Suíça. Desde então, teve tempo de figurar num resumo de Garzón contra o islamismo terrorista, por suas conexões com o multimilionário argelino Ahmed Brahim, financiador da Jihad; de ter durante anos vetada sua entrada na França por fundadas suspeitas de colaboração com os terroristas do GIA [da Argélia]; os Estados Unidos proibiram sua entrada por diversos indícios que o relacionam com movimentos islâmicos criminosos.
Finalmente são consideradas fundamentadas as suspeitas das agências de inteligência no sentido de que Ramadan e seu irmão Hani coordenaram uma reunião no Hotel Penta, de Genebra, com Aiman al Zawahiri (o número 2 da Al Qaeda) e Omar Abdel Rahman, o xeque cego encarcerado em Minnesota. Está confirmado que o endereço de Ramadan aparece num registro do Banco Al Taqwa, uma organização que os Estados Unidos consideram como fonte de financiamento do terrorismo.
E das suspeitas às palavras. Exemplos: em matéria de terrorismo, Ramadan considera os atentados de Nova York, Bali e Madrid como "intervenções", mais compreensíveis que a maldade ocidental que quer destruir o Islã. Defende publicamente Hassan Al Turabi, o fanático déspota do Sudão que, em justa reciprocidade, outorgou-lhe o título de o "futuro do Islã" e, como bom islamista, disse que não está claro que Bin Laden tenha “a culpa” do 11 de Setembro.
Com relação à mulher, sua prosa é florida: "Em luta contra a permissividade total, convém que baixes o olhar para salvar vossa castidade", "o biquini é uma agressão", "São proibidos de se usar nas piscinas públicas", "Ao ser uma manifestação de submissão a Deus, o véu é um elemento de liberação da mulher", etc.
E também há quem o acuse de haver justificado, em um livro em árabe (não em francês?) a prática da lapidação [apedrejamento até a morte]. Poderíamos continuar. Este é o homem que virá a Madrid para explicar a alguns cidadãos que sofremos um terrível atentado islâmico pela bondade da aliança das civilizações. Diante dele, Leire Pajin (5), Moratinos (6), Felipe González (7), até o próprio ZP [Zapatero], nosso guerreiro da máscara pelas causas justas. Certamente, determinada esquerda não só perdeu a cabeça, mas muito pior: nos altares da bondade, a solidariedade e o amor universal, há uma esquerda que atraiçoa os princípios básicos da liberdade. Pretendendo ser os transmissores das idéias do futuro, acabam sendo o cavalo de Tróia das idéias que pretendem nos destruir.
Notas:
(1) Teresa Aranda, jornalista. Trabalhou nos serviços informativos da TVE [TV Espanha] durante 17 anos, entre outros, no programa Informe Semanal, elaborando documentários sobre temas sociais e internacionais.
(2) Gema Martín Muñoz, professora de sociologia espanhola, figura nos principais sites da Internet de justificação do terrorismo islâmico.
(3) Ferrán Izquierdo é professor de Relações Internacionais da Universidade Autônoma de Barcelona. Conhecido por justificar o terrorismo islâmico-palestino.
(4) Alfons Comín, fundação que leva o nome de um militante comunista e cristão, ligada ao antigo Partido Comunista da Espanha pelo PSU, seu ramo catalão.
(5) Leire Pajin, ex-deputada por Alicante pelo Partido Socialista. Visitou o território da Autoridade Palestina entrevistando-se com os grupos terroristas islâmicos. Atualmente é secretaria de Estado de Cooperação Internacional do Governo da Espanha.
(6) Moratinos, atual ministro de Relações Exteriores espanhol no governo do Partido Socialista. Fracassou em seu cargo anterior como enviado da União Européia ao Oriente Médio e foi defenestrado. Partidário do diálogo com os grupos terroristas islâmico-palestinos.
(7) Felipe González, ex-presidente do governo espanhol de militância socialista.
* Pilar Rahola, Diário Avui.