Em sua coluna de 4 de julho último, neste jornal, o Sr. Fausto Wolff acusa Israel de, em sua luta contra os terroristas palestinos, atingir injustificadamente a população palestina, violando assim a Convenção de Genebra. Muito se fala e se escreve sobre a Convenção de Genebra, mas poucos se dão o modesto trabalho de consultá-la. Certamente este é o caso do Sr. Wolff, pois, se assim o fizesse, descobriria que, de fato, são os terroristas palestinos os violadores da Convenção e os principais culpados pelo sofrimento causado ao seu próprio povo.
O Artigo 28 da Quarta Convenção de Genebra diz: "A presença de civis não pode ser utilizada como garantia de que uma área ficará imune de operações militares". Com estas palavras, o documento alerta que grupos armados não podem utilizar regiões habitadas por civis como palco para suas ações de guerra, pois assim agindo eles transformam estas áreas em alvos legítimos de operações militares de retaliação, e acabam transformando-se nos verdadeiros responsáveis pela destruição e pelas mortes que possam ocorrer.
É exatamente isto que vêm fazendo os terroristas palestinos desde que os israelenses se retiraram de Gaza, ano passado. Com o único intuito de protegerem a si mesmos, os integrantes do Hamas e de outras organizações paramilitares palestinas vêm utilizando uma das regiões mais populosas do mundo como base para lançar mísseis contra Israel e como local de refúgio após seus atos de guerra.
Desde que os israelenses se retiraram totalmente de Gaza, em setembro de 2005, os palestinos já dispararam mais de mil mísseis contra cidades do sul de Israel. É apenas obra do acaso o fato de nenhum desses mísseis ter causado ainda mortes de civis israelenses. De lá também partiram dezenas de homens-bomba prontos para detonarem-se em lanchonetes e shopping-centers de Israel, sendo impedidos apenas pelos sistemas de prevenção israelenses - entre eles os tão criticados check-points nas vias de acesso do país.
Quando Israel retirou-se da Faixa de Gaza, sem pedir nem receber nada em troca, sua esperança, assim como a da comunidade internacional, era de que os palestinos utilizassem esse território como exemplo de que são capazes de construir seu próprio estado de conviver em paz com seus vizinhos. Tivessem agido desta forma, não apenas evitariam que esta área fosse novamente alvo de ações militares israelenses, mas também estimulariam a desocupação da Cisjordânia, que já estava programada pelo novo governo israelense. No entanto, como observou décadas atrás um ministro do exterior israelense, "os palestinos não perdem uma oportunidade de perder uma oportunidade".
Hoje, o que se percebe em todo o mundo (inclusive em alguns tradicionais defensores da causa palestina) é uma total decepção com o destino que os palestinos deram ao território que lhes foi cedido. Ao invés de utilizar as fazendas deixadas em Gaza pelos israelenses para cultivar alimentos, eles as destruíram e as transformaram em campos de treinamentos para terroristas. Ao invés de unirem-se em torno de um governo responsável e capaz de negociar um acordo de paz permanente com os israelenses, os palestinos elegeram como seus governantes um grupo terrorista que sequer aceita a existência de Israel.
É óbvio que o sofrimento da população palestina causa indignação a todos, inclusive aos próprios israelenses. Mas o alvo das críticas não deve ser Israel e sim os grupos armados palestinos que transformaram o seu povo em reféns de sua luta insa¬na e míope, que tem como objetivo não a construção da Palestina, mas a destruição de Israel. O que se espera dos israelenses? Que permaneçam imobilizados enquanto são atacados diariamente com mísseis cada vez mais potentes? O que se esperaria do Exército brasileiro se Corumbá passasse a ser alvo diário de mísseis bolivianos dispara dos a partir de Porto Soares? O que se exigiria da polícia do Rio de Janeiro se traficantes baseados em favelas passassem a disparar continuamente mísseis contra prédios residenciais vizinhos?
Antes de acusar Israel por suas ações de retaliação, vamos contar até dez e, durante estes preciosos segundos, nos imaginar na situação em que se encontra aquele minúsculo e acuado país.
Nilton Aizenman é advogado e presidente da Associação Nacional de Advogados e Juristas Brasil-Israel (ANAJUBI). Publicado no Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro em 8/7/2006.
Olho: “O sofrimento da população palestina causa indignação a todos, inclusive aos próprios israelenses”