Artigos Especiais para Internet -  Cresce o poder machista nos guetos franceses



 
Das muitas notícias que nos chegam sobre o drama das mulheres no mundo, há as mais terríveis que ocorrem perto de casa. O artigo que reproduzo, publicado no El País, não é nenhuma surpresa para os que acompanham de perto o problema das mulheres no mundo islâmico. Mas é tão preciso e impactante, que vale a pena lê-lo com vagar. Por sua vez, este artigo segue na mesma direção da reflexão que eu mesma, e muitos outros, temos feito sobre os distúrbios da França, fundamentalmente vinculados ao auge do integrismo islâmico nos banlieux franceses.
Este é o documento com que Joaquin Prieto nos brinda. Não creio que os deixará indiferentes.
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Cresce o poder machista nos guetos franceses

O auge do islamismo extremista nos subúrbios coloca em retrocesso os direitos das mulheres

As mulheres dos subúrbios franceses estão perdendo direitos adquiridos. Expulsas na prática das áreas e atividades de laser, obrigadas pelos homens da família a usar véu, vítimas aos milhares de casos de violência sexual e poligamia, as jovens observam como se reconstrói o poder machista nos guetos. O Parlamento francês denunciou a "inquietante regressão da condição das mulheres" entre os grupos procedentes da imigração, fruto em parte do auge do islamismo radical. O movimento Nem Putas nem Submissas luta por um feminismo laico e republicano com o objetivo de equiparar os direitos das mulheres do periferia com os do resto das francesas.

JOAQUÍN PRIETO
EL PAÍS - Internacional - 31-12-2005

Nesses bairros surgiu o movimento Nem Putas Nem Submissas, de caráter feminista e republicano

O Parlamento francês constatou uma "inquietante regressão" da condição feminina
Samira Bellil deixou escrito seu testemunho antes de morrer, aos 31 anos de idade. "Excitado por meus gritos, K. golpeia-me com todas suas forças (...) Não tem piedade alguma de mim, continua golpeando-me até que não tenho forças para reagir, até que me dou conta de que tenho que segui-lo se quero continuar viva. Portanto, obedeço-o (...) Se aproxima do aparelho de vídeo, introduz uma fita cassete; é um filme X. 'Aprenda e faça igual!', grita ele".

Nascida na Argélia e transplantada para uma povoação da periferia parisiense, Samira tinha 14 anos quando sofreu a primeira agressão sexual por parte de um tipo que logo a cedeu a outros colegas. Seu relato, publicado em 2002 em forma de livro (Dans l'enfer des tournantes [Dentro do Inferno dos Retornos]), foi a primeira denúncia do inferno das violações coletivas que se produz em certas favelas das cidades francesas.

Mais para além das fachadas elegantes de Paris e outros grandes núcleos urbanos, se estende um mundo de guetos, onde a vida é difícil para a maioria dos habitantes, particularmente se são mulheres: um clima de violência sexual e de assédios responde pela reconstrução do poder machista, favorecido pela tradição patriarcal das famílias de imigrantes e potencializado pela instalação do islamismo extremista, que questiona todos os avanços da condição feminina.

Desses mesmos bairros surgiu também uma reação a esse desvio de rota: o movimento gerado pela Associação Nem Putas Nem Submissas, que luta por um feminismo laico e republicano para equiparar as mulheres das periferias com os direitos das francesas nos espaços sociais acomodados. "As mulheres dos bairros populares perderam as liberdades que haviam começado a conquistar", assegura Fadela Amara, a presidente dessa associação, que tem 40 anos e militou antes no SOS Racismo.

Filha de um argelino, é claro, Fadela Amara não usa véu e apoiou firmemente decisões importantes do presidente francês, Jacques Chirac, como a proibição do véu islâmico em escola pública.

A seu juízo, a pressão moral que se exerce sobre as garotas das favelas populares é muito forte. Que não circule rumor algum sobre a virgindade daquela ou desta; caso contrário, os tios do bairro podem permitir tudo com a afetada, inclusive surras, violações e às vezes o assassinato. A preservação da virgindade a todo custo supõe um freio às liberdades e uma sujeição ao controle masculino e ao tribunal da comunidade. Isto não afeta exclusivamente às mulheres procedentes da imigração: nos bairros onde há franceses de pura cepa, as jovens vivem de forma quase idêntica, excluídas dos espaços públicos, que as de origem imigrante.

Tudo isso dá a sensação de reclusão que produz a pobreza material e cultural. "Nos anos oitenta já existiam bairros problemáticos em muitas cidades, mas estes dispunham de equipamentos públicos e havia neles certa mescla social. Não como agora: nesses bairros se encontram quase todos os desocupados e r-mistes [preceptores do subsídio de subsistência] de cada cidade", explica a socióloga Hélène Orain, especialista na vida suburbana.

Por isso é menos paradoxal do que pareça a ausência total de mulheres nos distúrbios de outono, teoricamente um grito de raiva pela marginalização dos subúrbios.

Por que a revolta foi tão marcadamente masculina? "Em primeiro lugar, porque as associações fizeram quanto puderam para que as mulheres não se envolvessem", responde a socióloga Hélène Orain. "Mas também se deveu ao estrito sistema de controle exercido pelas famílias sobre a presença de moças na rua".

Outras vezes, as mulheres foram mobilizadas por associações muçulmanas, por exemplo, contra a proibição do véu na escola; não obstante, na última revolta os grupos islamistas "não tiveram papel algum no desencadeamento das violências e sua expansão" e ademais, manifestaram "todo o interesse numa volta rápida à calma, para evitar confusões", segundo um informe do serviço policial Renseignements Généraux (Investigações Gerais). O fenômeno que a polícia chamou "insurreição não organizada" estava longe de ser a guerra do islamismo radical, ainda que essa mesma polícia tema igualmente as "tentativas de recuperação” que possam fazer-se a partir daí.

No mês de novembro passado, as mulheres se livraram de engrossar a cifra de mais de 4.000 detidos porque os incendiários não contaram com elas como carne de canhão frente às fileiras policiais. O mais freqüente é que não contam com as garotas nem sequer nos momentos cotidianos.

A menudo é suficiente que alguns quantos mecs (tios) exijam que não haja meufs (tias) nas atividades coletivas, para que o animador social correspondente retroceda em benefício da paz pública. "As atividades para a juventude se converteram em laseres organizados em proveito quase exclusivo dos varões", segundo a socióloga Hélène Orain.

Por sua vez, a rejeição mostrada por grande parte da sociedade francesa pelos jovens suburbanos faz com que aqueles se sintam confinados. "O racismo presente força os garotos a seguir residindo no bairro e eles constroem redes para dominá-lo; em cada um pode haver quatro ou cinco indivíduos que mandam", conta uma militante da Nem Putas Nem Submissas, a menor de uma família de cinco irmãos, que passou toda sua infância e adolescência na periferia industrial de Clermont Ferrand.

"O bairro é difícil para todo mundo, mas em primeiro lugar para as mães e as filhas. Os meninos fazem praticamente o que querem, mas não os acuso em bloco: muitos se sentem obrigados a ter atitudes duras, e isto se deve à pressão do bairro. Um a um se comportam bem, mas quando estão em grupo tendem a ser mais violentos".

Nos bairros aludidos também se produz um choque cultural entre os imigrantes de idades avançadas, com una tradição de forte autoridade patriarcal, e os filhos que, mal ou bem, são escolarizados; alguns pais ou avôs continuam sendo analfabetos e dependem dos jovens até para ler cartas ou documentos. Progressivamente, a autoridade patriarcal vai passando do cabeça da família ao maior dos irmãos do sexo masculino.

Para as mulheres de idade, usar um lenço na cabeça pode ser só uma questão de costume, como a do xale das portuguesas; mas cada vez há mais meninas jovens com véus na França, escondendo bem a cabeça e o colo a partir da idade da puberdade.

"A sexualidade já era um tema tabu para as famílias que praticam o islã", explica Hélène Orain. "Mas há anos que assistimos à chegada de imãs procedentes de outros países, que vão implantando uma versão muito tradicional da mulher muçulmana: com a cabeça coberta, em casa, submissa, que sofre todas as humilhações que se lhe impõem. É um discurso extremadamente patriarcal, machista e reacionário".

O próprio Parlamento francês acaba de certificar a existência de uma "inquietante regressão da condição feminina" entre as populações procedentes da imigração.

Uma comissão, constituída antes da revolta de outono, apresentou um informe minucioso sobre as discriminações sofridas pelas mulheres, cujos efeitos "são dramáticos no que se refere ao repúdio e à poligamia", segundo Marie-Jo Zimmermann, deputada do partido União por um Movimento Popular (UMP) — atualmente no Governo — que dirigiu essa comissão.

Faz tempo que as garotas dos bairros se deram conta que a escola era a única possibilidade de mudar de vida. Contudo, a maioria das adolescentes de hoje crê menos que em seus estudos como via de emancipação. Um fato um tanto mais lamentável, quanto o de que seus resultados escolares são melhores que os de seus irmãos.

Entre os jovens de origem magrebiana, 27% das meninas abandonam a escolaridade obrigatória sem ter conseguido diplomar-se, frente a nada menos que 42% dos varões. Só 20% das mulheres de origem magrebiana cursam estudos superiores, frente comparando com 34% das garotas procedentes de outros países europeus e 44% das mulheres de origem francesa, segundo um estudo dos pesquisadores sociais Frédéric Lainé e Mahrez Okba relatado à comissão parlamentar.

Entre as jovens procedentes da imigração calou profundamente a idéia de que esforçar-se nos estudos não lhes tira dos apuros. A taxa de desemprego entre jovens de origem magrebiana é de 22%, o dobro da anotada entre as francesas e demais européias na França.

Afirma também o informe elaborado pela deputada Mari-Jo Zimmermann: "Ao comprovar as dificuldades de suas irmãs mais velhas no mercado de trabalho, frente ao que se haviam esforçado em sua educação, essas jovens (as adolescentes atuais) parecem crer cada vez menos em qualquer ascensão social através da escola e inclusive se mostram dispostas a capitular".