Odisséia de um israelense espanhol - parte I

Este blog faz eco, com ilusão, do diário que está sendo publicando, em capítulos, o website es-israel.org. Tratam-se das memórias de um judeu sefardí cujo pai viveu a odisséia da guerra espanhola e a repressão franquista. Sua condição de judeu, e o que isso significou naquela Espanha obscura, se coloca em relevo na mão de seu filho, hoje um cidadão israelense. Moshe Yanai, escritor lúcido e analista fino do Oriente Médio, projeta aqui, com sua memória trágica, suas emoções, suas lembranças e suas esperanças, tudo relatado com una grande sensibilidade. É um relato precioso, que os aconselhamos vivamente.
Hoje reproduzo a primeira parte deste belo relato. As seguintes podem ser encontradas [em espanhol] no website amigo www.es-israel.org. Desfrutem-no.
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Odisséia de um israelense espanhol
Preâmbulo de Es-israel.org:

"Como indicamos a nossos chaverim, começamos a publicar hoje a pequena história real de um judeu catalão adolescente que foi expulso junto com sua família, em represália, na Espanha de Franco...". Muitos mitos se romperam sobre o regime de Franco e chegaremos com nosso protagonista à Palestina britânica, pouco antes que renasça o moderno Estado de Israel. Essa pessoa é Moshé Yanai... com ele nos emocionaremos e empreenderemos uma grande Odisséia, saberemos de suas origens e seu verdadeiro nome antes que o mudasse em Israel...

Moshé Yanai nasceu em Barcelona em 1930 e chegou à então Palestina com tenra idade, quando sua família foi de fato expulsa por sua condição judaica. Participou na Guerra da Independência de Israel assim como na dos Seis Dias de 1967. Seu isolamento do âmbito hispano-falante não o impediu de manter vivo o conhecimento do castelhano, primeiro como professor desse idioma e depois como tradutor e encarregado da imprensa na embaixada argentina, onde trabalhou 50 anos até agosto de 2001. Nos anos ’50 foi correspondente em Israel da “Prensa Israelita” do México e de outras publicações judaicas da América Latina, e em 1963 participou da fundação do semanário Aurora, do qual foi seu primeiro Diretor de Redação durante 14 meses. Nesse ínterim também editou “Notícias Breves” da Agência Judaica assim como da “Revista Wizo”. Traduziu vários livros para o castelhano, assim como inumeráveis artigos da imprensa local. Em mérito aos seus serviços, o Governo argentino o condecorou em 1984 com a Medalha da Ordem de Mayo. Ultimamente publicou várias colaborações no “La Vanguardia” de Barcelona, assim como em vários websites como “El Reloj”. É casado e vive em Ramat Hasharón. Além de escrever, agora ensina voluntariamente castelhano num centro local de aposentados".
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ODISSÉIA DE UM ISRAELENSE ESPANHOL. Primeira parte:

 

Tudo começou uma ensolarada manhã de inverno de 1944, quando o "Nyassa" fundeou em frente ao porto de Haifa. Uma vez esfumada a bruma matinal, apareceu radiante a nova cidade hebraica coroada pelo Carmel, enquanto que em sua parte baixa se distinguiam os pitorescos bairros árabes resplandecentes sob o sol invernal. Éramos uns 700 refugiados judeus, cada um com sua história de peripécias, que haviam chegado ao seu destino. Havíamos zarpado oito dias antes de Cadiz nesse navio português, atravessado o turbulento Mediterrâneo açoitado não só pelos temporais, mas também pelo vai-e-vem da guerra. Os aliados se encontravam a meio caminho entre Nápoles e Roma, Creta, entretanto, estava em poder dos alemães, assim como as demais ilhas gregas do Dodecaneso. À altura de Malta pudemos ver os impressionantes comboios aliados que se dirigiam da África do Norte à Itália. Não deixava de ser arriscado navegar por essas águas, ainda que se tratasse de um barco de país neutro. Sabíamos que havia submarinos alemães na zona, e toda nossa garantia de chegar a bom porto dependia da presença a bordo de vários diplomatas japoneses, que estavam sendo repatriados de América do Sul através do Oriente Médio.

Com meus inquietos olhos de adolescente contemplava o que ocorria no meu entorno e tudo me parecia irreal. Fazia um mês e meio tinha observado, menos mal, o milenar rito do bar mitzvá ao cumprir os treze anos. Mamãe o tinha organizado da melhor maneira possível e com a maior discrição para não chamar a atenção, em nosso andar do prédio em Barcelona. Chegaram dissimuladamente vários amigos e alguém que oficiava como rabino. Ser judeu na época franquista era um tanto desagradável, e até perigoso. Li um texto incompreensível aprendido de memória em hebraico, que só depois soube que era a “parashat hashavúa” (a porção da Lei dessa semana) e depois se serviu o pouco que se tinha podido conseguir e que pretendia ser uma refeição. Naqueles tempos a abundância não era própria de uma Espanha que se recuperava a duras penas da guerra civil. Com certeza papai e meu tio Alberto não assistiram a cerimônia. Estavam internados num campo de concentração franquista, pelo mero fato de serem judeus.

Não esquecerei jamais aquele 20 de dezembro de 1940 quando às 8 da noite dois agentes secretos bateram à porta de nosso apartamento, e pediram ao meu pai que os acompanhasse à delegacia “para responder algumas perguntas”. Mas em lugar disso o detiveram e o levaram à conhecida Prisão Modelo. De fato, não lhe perguntaram nada, do mesmo modo como jamais levantaram acusação alguma contra ele. Nos três anos que durou seu encarceramento nunca compareceu diante de um tribunal, nem se lhe imputou delito algum. Simplesmente, o deixaram recluso. Era judeu e apátrida; em outras palavras, persona non grata. Uma denúncia qualquer, de um simples competidor comercial, por exemplo, era então motivo suficiente para internar qualquer um.

Como muitas outras mulheres em situação similar, mamãe foi no dia seguinte à delegacia, e, finalmente chegou ao presídio, mas não o pode ver. Voltou no dia seguinte. Tampouco teve sorte esta vez. Prometeram-lhe entregar ao seu marido a cesta com alimentos que lhe trouxera, mas a promessa não se cumpriu. Alguns dias mais tarde o detido já não estava lá: o haviam levado ao cárcere de Zaragoza. Mas tratava-se de uma simples escala, e em última instância foi parar no campo de concentração de Miranda de Ebro, na província de Burgos. Não distante da cidade que havia servido de capital provisória ao ditador espanhol, que lutava para que a Espanha fosse uma ditadura fascista no lugar da República que havia sido carcomida por lutas intestinas e o fracionamento das forças democráticas. E em 18 de julho de 1936 estourou a famosa insurreição, mais tarde conhecida como o Alzamiento Nacional (“Levante Nacional”), tão aplaudida pelos paladinos da "nova ordem européia" como Hitler e Mussolini, que o brindaram com uma ampla ajuda econômica e militar. Isso enquanto as potências democráticas decidiam não intervir, e desse modo entregavam aos seus inimigos uma Espanha ensangüentada em bandeja de prata. O prólogo de uma horrenda contenda que deveria arrastar, três anos mais tarde, todo o mundo.

Miranda de Ebro era um notório local de detenção. Este campo de concentração situado a beira do mais caudaloso rio espanhol tinha sido criado perto do fim da Guerra Civil, para os inimigos do regime; tanto refugiados como detidos políticos. As condições que ali imperavam eram péssimas. O que nós bem sabíamos, o confirmam estudiosos que pesquisaram o tema. Em sua obra “Spain, the Jews and Franco”, o historiador israelense Haim Avni escreve: “Escasseava a comida e a água, os barracões eram inabitáveis, estavam amontoados e faltavam meios para proteger-se do impiedoso inverno. A assistência médica era mínima e o índice de mortalidade, muito alto”. E era ali onde tinham encarcerado, entre outros, os judeus apátridas indiscriminadamente aprisionados por Franco.

As instruções que chegaram de Madrid qualificavam meu pai como um indivíduo perigoso e, como tal, ficou incomunicável. Nesse lugar havia várias centenas de internados, incluindo soldados aliados que tinham conseguido atravessar os Pirineus e refugiar-se na Espanha. Tampouco faltavam alguns judeus, que se sentiam muito afortunados por terem podido fugir da espantosa perseguição nazista. Pode ter sido uma coincidência, mas dois meses antes, em outubro de 1940, o notório chefe nazista Heinrich Himmler, havia realizado una visita oficial a Madrid, para chegar em 23 desse mês em Barcelona, onde foi objeto de uma recepção apoteótica por parte das autoridades fascistas. A Espanha de Franco devia muito à Alemanha nazista, e se podia presumir que o chefe da Gestapo tivesse abarcado o “problema judeu”, cuja “solução” estava em vias de “resolver”.  Pode-se pensar que a Espanha não teve nenhum inconveniente em reunir nos campos de concentração os judeus apátridas residentes em seu território, como meu pai e outros judeus sem nacionalidade. Sobretudo quando se tem em conta os milhares de espanhóis republicanos refugiados na França, que foram entregues pelos alemães a pedido expresso do regime franquista. Entre eles figurava Lluís Companys, Presidente da Generalitat, que foi fuzilado alguns dias antes da chegada do hierarca nazista, no castelo de Montjuïch da capital catalã. Depois, talvez veriam se iriam entregar ou não aos nazistas esses indivíduos considerados como indesejáveis, sabendo perfeitamente que disso dependiam se haveriam de sobreviver ou morrer nos campos de extermínio.

Meu pai era todo um enigma para o comandante do acampamento. Não era tão jovem (tinha 38 anos) nem parecia ser tão perigoso. Ainda que estivesse submetido a um regime muito severo, acatava todas as ordens com a maior obediência e não causava problema algum, o que não se podia dizer de todos os internos. Apenas quando formulava algum ou outro pedido, ainda assim não deixava de perguntar a razão de seu cárcere e insistir em que não tinha cometido nenhum delito. O comandante do campo, um experiente militar de carreira que não tinha particular afeto pelos judeus, mas parecia ser um homem justo, chegou ao extremo de enviar um pedido de esclarecimento aos seus superiores em Madrid. Não sei o que lhe responderam, mas o resultado foi que ao cabo de certo tempo permitiram-lhe que saísse uma hora por dia de seu calabouço. Passeava só num pátio interno. Mas era uma grande mudança: poder ver o azul do céu, e perceber mais além do seu lúgubre lugar de encerramento. Logo pode conversar com alguns de seus correligionários, que por alguma razão incompreensível estavam em melhores circunstâncias. O fato de ver outras pessoas e poder falar com alguém foi um dom de D-us. Posteriormente deixou de estar incomunicável e assumiu o status de detido normal. Não se tratava de uma situação ideal, mas já raiava no tolerável. Em um dado momento, o comandante fez uma prova e permitiu que dois ou três detidos — os que eram mais "dóceis" e tinham família — fossem ao povoado para dar una volta e pudessem comer em alguma taverna. Iam escoltados por um soldado armado que assumia a responsabilidade pessoal por eles, mas que sabia que não voltaria com as mãos vazias. Como o primeiro intento teve êxito, voltou-se a repetir uma e outra vez e, nenhum detido tentou escapar.

O encontro
Como em todas as ditaduras, na Espanha do pós-guerra não era possível viajar livremente pelo país. Mamãe solicitou e após esperar alguns meses e fazer numerosas gestões conseguiu o salvo-conduto necessário para trasladar-se à cidade de Burgos, a fim de visitar seu marido. Tomamos o trem para o que devia ser uma longa viagem. Efetivamente, parava-se em todas as estações, e o trajeto se fazia interminável. Parecia que não chegávamos nunca. A noite se fez, e a escuridão entristecia ainda mais a já preocupada disposição de minha mãe, e isso me afetava. Em nosso compartimento viajava um sacerdote que começou a travar conversação comigo. Como era natural naquela época me perguntou aonde íamos, e mamãe lhe disse que se tratava de uma visita familiar, o que era totalmente correto. Depois começou a fazer-me perguntas: a que colégio eu ia, que matérias aprendia e se conhecia o catecismo. Creio que o sabia bem; nessa época não havia outro remédio senão conhece-lo de memória. Ainda que tivesse apenas onze anos me parece que pude responder com certa habilidade às suas perguntas. Era indispensável dissimular, e parece que o fiz de modo tal que o homem do hábito negro ficou satisfeito. Seguramente pensava ter encontrado outro fiel cristão, que bem se via era fiel cumpridor de suas obrigações religiosas, rezava cada noite a Ave Maria e assistia regularmente a missa. Tudo isso ainda que sua mãe fosse uma estrangeira, cuja devoção ficava aparência de juízo. Claro, ela não estudava numa escola católica e não tinha idéia no que consistia um ofício religioso.

Finalmente apareceu o ansiado destino: Miranda de Ebro. Chegamos esgotados e fomos à taverna que fazia de hotel e restaurante. Na manhã seguinte nos dirigimos ao campo. Era a primeira vez que eu via um local de reclusão, e confesso que me sobressaltei: os enegrecidos muros coroados por arame farpado eram tão ameaçadores como os carrancudos rostos dos soldados de guarda. Entramos após uma breve espera, e um deles nos levou a uma guarita, onde um oficial examinou minuciosamente os documentos que lhe entregara minha mãe. Também revolveu a cesta com os víveres e a roupa que levávamos. Devolveu-o e deu uma ordem peremptória: apareceu outro soldado que nos indicou que o seguíssemos. Chegamos a um pátio e fez um gesto para que nos sentássemos. Aguardamos meia hora até que finalmente apareceu papai. Estava consumido e tinha um aspecto aterrorizador: tinha emagrecido tanto que as roupas que tinha vestido em Barcelona, pendiam-lhe convertidas em verdadeiros farrapos. Não era necessário que alguém nos dissesse quais eram as condições de sua prisão: bem se via em seu aspecto que tinha sofrido muito, ainda que tratasse de ocultá-lo com um sorriso. Como era previsível, o encontro foi muito emotivo. O militar acompanhante nos disse que devia estar presente, mas foi o bastante sensível para retirar-se a um canto após examinar muito por cima a cesta. Assim, desfrutamos de certa privacidade. Como era meio-dia, comemos juntos. Não havia sequer uma mesa, e estávamos sentados num banco rústico, mas nos sentíamos como em um festim celebrando um acontecimento. E realmente o era. Entendo que minha presença fez com que papai falasse muito pouco das penalidades que passava, em troca nos contou sobre um e outro conhecido que também estavam lá, e o que faziam ou diziam. Contou-nos também uma ou outra anedota da vida de reclusão, enfocando-a de modo tal que parecia que tudo era uma brincadeira. Mas não tinha nada de cômico no que ocorria. Nem sequer nos convenceu repetindo os mexericos que tinha escutado, um passatempo favorito dos que estão privados da liberdade. Relatou-nos que entre os detidos havia um massagista, que organizava exercícios para manter todos em bom estado físico. Com um triste sorriso reconheceu que era a primeira vez que fazia ginástica, e que lhe dava bons resultados. "Veja como estou bem —acrescentou — já deixei de ser o homem dotado do 'duplo queixo', como me chamavam em Barcelona", disse à sua esposa numa tentativa de brincar e nos animar.

Voltamos uma e outra vez a vê-lo. Sobretudo, levamos-lhe roupas que pudemos comprar no povoado. Nessa região o inverno era forte, e todos sofriam muito do intenso frio pelas péssimas condições em que estavam reclusos. Tínhamos permissão para alguns dias de estada em Miranda, e tentamos aproveitá-la na máxima medida. Ainda que mamãe não quisesse levar-me de novo a um lugar que evidentemente não era para crianças, insisti e teve que ceder. Na segunda vez apareceram outros reclusos: eram judeus barceloneses a quem conhecíamos, e se sentiam encantados de poder conversar com alguém de fora. Nem todas as famílias podiam conseguir o salvo-conduto que minha a mãe obteve, como bem pude saber mais tarde, pagando-o a bom preço, nem tampouco custear uma viagem tão longa. A pluralidade das pessoas vegetava então na maior indigência, sobretudo quando se tratava de opositores do regime cujos pais de família estavam reclusos.

Mesmo assim, papai tratou de nos reconfortar. Ainda insinuou que havia tipos sádicos entre os guardiões, assinalou que a maior parte dos soldados tratava bem os detentos. Sobretudo aqueles que procediam da Catalunha: encantava-os falar com ele no excelente catalão que conhecia; isso sim, com muita discrição. No se deve esquecer que então era um idioma que estava terminantemente proibido. Pobre de quem se escutasse empregando-o, fora na rua ou em qualquer lugar público. E muito mais grave era fazê-lo em um recinto de um acampamento militar.

Epílogo surpreendente
Muitos anos mais tarde, o caso teve um desenlace assombroso. Amigos catalães me enviaram em 1986 as três partes de um artigo publicado no La Vanguardia de Barcelona sobre “Os judeus na Catalunha“. No segundo artigo, de 9 de fevereiro o autor, um tal Josep Gisbert, escreveu com muito pouco tino e evidente desconhecimento, que durante o regime franquista a comunidade israelita de Barcelona não foi perseguida em absoluto. Já que essa afirmação estava tão distante da verdade, como Barcelona está de Tel Aviv, enviei uma carta àquele jornal, que foi publicada em 22 de março daquele ano. Nela revelava que em 1940 haviam sido presos, sem nenhuma razão aparente, várias dezenas de judeus na capital catalã — rendendo meu testemunho pessoal —, àqueles que foram injustamente privados da liberdade por aquele regime. Isso, a margem de outras medidas anti-semitas sobre as que se falará mais tarde.

Qual foi minha surpresa quando poucas semanas mais tarde recebi um envelope no se lia tão somente meu nome e o da cidade israelense onde resido, sem detalhar endereço algum. A remessa postal chegou porque me conheciam no Correio do que era então uma pequena localidade a cidade onde vivo, e não tiveram dificuldade em encontrar meu domicílio. Dentro havia uma carta datilografada... em catalão. A assinava um aposentado chamado Josep Guiu i Perez, da localidade de Flix, província de Tarragona. Dizia que tinha lido minha carta publicada naquele jornal barcelonês, e me revelava que tinha servido em Miranda de Ebro. Em conseqüência após lutar nas fileiras republicanas como conscrito, havia sido obrigado a continuar servindo no Exército Nacionalista. Apontava que havia tido ocasião de escoltar vários reclusos, entre eles meu pai, em algumas de suas saídas ao povoado. Entre outras coisas, escrevia textualmente:

No recordo si fou a finals de 1940 o a les primeries de 1941 ingressaren en un camp de Miranda, força jueus que provenien de la nostra Catalunya (que per a mi eren tan catalans com jo mateix)... també recordo amb molta satisfacció a un tal Sr. Palomo que molt bé podria ser el seu pare... un home molt simpàtic i força rialler, amb el qual vaig tenir una estreta relació...

(“Não recordo se foi no final de 1940 ou princípio de 1941, quando ingressaram no campo de Miranda muitos judeus que procediam da nossa Catalunha... também recordo com muita satisfação um tal Sr. Palomo que muito bem poderia ter sido seu pai... um homem de expressão risonha e muito agradável, com o qual mantive uma estreita relação...”).

Voltei a escrever ao La Vanguardia apontando a surpresa que me havia conduzido, e juntei fotocópias tanto da carta como do envelope que havia recebido, e minha comunicação foi publicada integramente em 4 de junho daquele ano. Entre outras coisas, assinalava: “Quis o destino que o dia em que escrevo estas linhas se observa em Israel o Dia do Holocausto... Afortunadamente a Espanha não colaborou com os esbirros de Hitler no extermínio de meu povo; e mais, sabemos que em alguns casos ajudou a salvar a vida de judeus de nacionalidade espanhola. Mas isso não mitiga, explica nem justifica a desumana atitude adotada pelos que privaram da liberdade e submeteram a vexações e humilhações a espanhóis cujo único crime era ser judeus. Bem agora, pelo mero fato de publicar minha carta prévia vocês me outorgaram uma satisfação moral, posto que, ainda que meu pai morreu sem obter reabilitação alguma e sem que pudesse voltar a ver essa terra que tanto queria e até sentia saudades, revelaram-se agora as verdadeiras circunstâncias nas quais foi aprisionado e a injustiça que se lhe fez”.

Nem falar que me senti muito satisfeito de que esse jornal, que meu pai se habituou a ler todos os dias em tempos melhores, tenha publicado minha segunda carta e atenuou um pouco essa terrível sensação que acompanhou minha família durante anos. Por que tinha sido tratado assim, que suposto crime havia cometido...?