Artigos Especiais para Internet -  Terror conecta o mundo à Idade Média, diz analista - Gazeta do Povo – Curitiba - DOMINGO, 21 de agosto de 2005


Curitiba – Mesmo depois dos atentados nos Estados Unidos, na Espanha e na Inglaterra, o mundo desconhece as verdadeiras razões do terrorismo. A avaliação é da espanhola Pilar Rahola, ex-deputada que desistiu da carreira política para se dedicar à discussão das grandes questões contemporâneas.

Para Pilar, o mundo ocidental relaciona automaticamente os ataques terroristas à invasão do Iraque e do Afeganistão ou à interferência norte-americana nos países em desenvolvimento, sem perceber que comete um erro. Muito antes dos atentados a Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001, os conflitos já estavam armados, disse ela, durante palestra na Universidade Tuiuti, em Curitiba, na sexta-feira.


Em sua avaliação, os grupos integristas islâmicos, que eram vistos como aliados dos Estados Unidos na briga contra a União Soviética durante a Guerra Fria (1945–1989), espalharam sua ideologia na tentativa de voltar à época gloriosa do Islã, a Idade Média. "Durante a Guerra Fria, dormimos muitas vezes com o inimigo. Hoje temos que enfrentar os problemas provocados pelo crescimento de uma ideologia totalitária."

A ativista dá indícios de que o combate ao ocidente tem razões ideológicas: "São necessários 10 ou 15 anos para se fabricar um suicida. A invasão do Iraque foi há dois anos", compara.

Para Pilar, o poder econômico que os grupos islâmicos radicais ganham com a exploração de jazidas de petróleo transformam o produto numa "arma de destruição massiva". A "ideologia medieval", além de perigosa, teria ganhado força econômica, defende a escritora.

Doutora em Filologia (ciência que estuda a língua e suas conexões com outras áreas de conhecimento), ela diz que a "retórica épica islâmica" usa o problema da fome e as distorções sócio-econômicas como argumentos, mas o que quer na verdade é recuperar sua "auto-estima". Pilar critica a postura de países como o Brasil, que supostamente assistem aos conflitos como se nada pudessem fazer contra eles.

Para a ativista, a tecnologia que permite a transmissão de notícias ao vivo sobre atentados terroristas coloca o mundo em contato direto com a Idade Média (ou com o que os grupos islâmicos resgataram dessa época). Convencida de que a cultura do ódio atravessou 1,5 mil anos, ela espera uma reação global que possa rebater a intolerância.

Entrevista - Combate sem fim

Gazeta do Povo – Em sua avaliação, qual será o desfecho da desocupação da Faixa de Gaza por Israel?

Pilar Rahola – Para mim, o governo israelense quer criar uma base sólida para poder negociar com os palestinos. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, também quer começar a dialogar. Mas eu desconfio profundamente dos autênticos proprietários da alma palestina, que são os grupos terroristas Hamas, Jihad Islâmica e Hezbollah.

O esforço do governo de Israel para separar judeus de palestinos é uma espécie de confissão de que o conflito não foi resolvido?

A separação significa que a sociedade palestina não segue um critério democrático. O número de pessoas que estão sendo retiradas de Gaza (8,5 mil) é muito pequeno. Representa a taxa de natalidade de uma semana em Gaza. Um Estado democrático palestino poderia ter 8 mil judeus em seu interior.

Qual a intenção do plano de retirada do primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon? Ele realmente espera a paz?

Sharon tem atuado em função da enorme pressão dos Estados Unidos e da Inglaterra. Os governos desses países pediram a Sharon que lhes oferecesse um gesto, alguma coisa que lhes ajudasse a explicar para a sociedade o que ocorre. Há também um componente pessoal: Sharon é um durão, um falcão, teve um passado militar duro, mas cada vez que surge uma possibilidade de negociação, ele aproveita.

Com a retirada, aumenta a pressão internacional contra os palestinos pelo processo de paz?

Isso não está acontecendo. A pressão aplicada a Israel deveria ser direcionada também a países como o Irã, a Síria, para acabar com o financiamento ao terrorismo.

A criação de um Estado palestino pode demorar muito mais do que se espera?

Minha pergunta é, os palestinos querem um Estado palestino? O que as organizações terroristas querem é que Israel desapareça. O Hamas fala de uma república islâmica, não de um Estado palestino.

O que o Hamas faz nesse meio tempo?

O Hamas segue o princípio que diz que, se você não pode vencer o inimigo, faça uma trégua, para se preparar. Nunca há concessão. Se isso não mudar, a paz é impossível.

José Rocher